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Dez livros essenciais selecionados pela equipe do 'Aliás' em dezembro

Entre obras brasileiras e estrangeiras, de ficção e não ficção, há muito para se ler no último mês de 2020

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2020 | 16h00

Todos os meses, a equipe do Aliás seleciona dez lançamentos literários para compor sua estante. Em dezembro de 2020, o ano marcado pela pandemia é encerrado com romances, obras de não ficção e poesia. 

A Novela no Início do Renascimento - Erich Auerbach (Editora 34)

Primeiro livro do filólogo berlinense Erich Auerbach (1892-1956), publicado em 1921, A Novela no Início do Renascimento é, na verdade, uma tese defendida naquele ano em que a emergência e o desenvolvimento do indivíduo na cultura do Renascimento é analisada tendo como uma das referências a obra de Bocaccio (em particular o seu Decameron). As transformações da novela na Itália de sua época e o seu desenvolvimento na França (com Rabelais, sobretudo) constituem sua linha mestra. A tese de Auerbach tem três capítulos: a abordagem do primeiro é fundamentalmente filológica; o segundo capítulo é dedicado mais à análise sociológica para, no terceiro capítulo, chegar a uma coda novamente filológica, comparando as transformações temáticas de algumas obras renascentistas. A tese de Auerbach é clara: pretende mostrar como a forma literária sofreu mudanças conforme o ambiente em que foram produzidas: na Itália, a figura dominante era a mulher dos livros de Bocaccio, para posteriormente ceder lugar ao homem nas novelas francesas. O livro tem um esclarecedor posfácio de Leopoldo Waizbort.

Vida à Venda  - Yukio Mishima (Estação Liberdade)

A Estação Liberdade promete publicar, a partir de 2021, sete títulos do escritor japonês Yukio Mishima (1925-1970), uma figura controvertida cuja vocação moderna na literatura contrastava com seu conservadorismo político – nacionalista, de extrema direita, bancou a formação de uma milícia, invadiu um quartel e cometeu suicídio em novembro de 1970. Nos 50 anos de sua morte, Vida à Venda também trata de uma tentativa – desta vez fracassada – de suicídio de um publicitário que anuncia no jornal a venda de sua vida como uma mercadoria qualquer. É o passaporte para ingressar nos subterrâneos da sociedade dos marginais japoneses. Mishima, como de hábito, trata personagens fora dos padrões com verve satírica. A partir de março de 2021, a Estação Liberdade vai lançar clássicos do escritor japonês como O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar, romance de 1963 que trata igualmente de marginalizados da sociedade japonesa (no caso, uma gangue de jovens adolescentes). Também estão programados o autobiográfico Sol e Aço e a primeira tradução direta da tetralogia Mar da Fertilidade.

Os Supridores - José Falero (Todavia)

Primeiro romance do escritor gaúcho José Falero, Os Supridores, vem recomendado pelo premiado Bernardo Carvalho, que destaca a destreza com que o autor “transita entre um clássico picaresco oitocentista e os filmes de Tarantino”. Falero elege como protagonistas Pedro e Marques, que trabalham num supermercado na região central de Porto Alegre e, cansados de receber um salário miserável, decidem vender maconha. Falero estreou em 2019 com um livro de contos, Vila Sapo. A decisão do par de Os Supridores de entrar para o tráfico replica o gesto de milhares de favelados que, testemunhando o êxito de seus vizinhos, resolve seguir o mesmo caminho. Falero reduz a linguagem a cacos, recorrendo a gírias usadas nas “vilas” (favelas) gaúchas e escrevendo sem revisar os erros dos garotos. O romance segue numa espiral de violência típica dos livros policiais, mas a visão crítica de Falero faz a diferença. Um nome para não ser esquecido.

Zoológicos Humanos - Sandra Sofia Machado Koutsoukos (Unicamp)

Mestre em artes e doutora em multimeios, a carioca Sandra Sofia Machado Koutsoukos já publicou um livro sobre como os negros foram fotografados nos estúdio brasileiros na segunda metade do século 19. Agora, com Zoológicos Humanos, ela aborda um tema igualmente polêmico, a exibição de pessoas em circos, museus, feiras e instituições científicas como forma de entretenimento e objeto de estudo: de Sarah, a “Venus negra”, a Joseph, o “homem-elefante”, a autora atravessa várias décadas, passando pelas imagens que fotógrafos como Christiano Júnior e Marc Ferrez deixaram registradas para a posteridade. Basicamente, o período coberto pela pesquisa da autora vai de meados do século 19 até o começo do século 20. Uma das mais comoventes fotos analisadas é a do pigmeu congolês Ota Benga em exposição no zoológico do Bronx, segurando a chimpanzé Dolly no colo, nativo visto como “elo perdido’ que servia como objeto de diversão da matula que frequentava o zoo, onde era exposto com outros animais e tido como “canibal”. Espetáculos humilhantes como esse são descritos em detalhes no livro.

Lições de Felicidade - Ilaria Gaspari (Âyiné)

Filósofa e escritora italiana, Ilaria Gaspari publicou seu primeiro romance na Itália em 2015, Etica dell’acquario. Três anos depois publicou um conto filosófico chamado Razões e Sentimentos. Agora, em Lições de Felicidade, ela recorre aos pensadores gregos antigos para compor um livro original em que as lições filosóficas desses mestres são transportadas para nossa era e servem de inspiração para compor um amplo painel sobre o autoconhecimento, passando pelos pitagóricos, os estoicos, os epicuristas e, naturalmente, os cínicos. A filósofa conclui que estudou, sim, a matéria, mas não como uma coisa viva. O livro é, portanto, sua chance de sair em busca do tempo perdido e mostrar ao leitor como os filósofos antigos têm tanto a dizer ao homem contemporâneo, em especial os pitagóricos, com os quais mantém estreita ligação. E, não menos, como os epicuristas podem ser decisivos quando provam que, entre todos os bens, o mais precioso é a amizade. Um guia filosófico incontornável. E, acima de tudo, muito agradável de ler.

Em Águas Profundas - Patricia Highsmith (Intrínseca)

Em 2021, comemora-se o centenário da escritora americana Patricia Highsmith, uma das maiores vozes da literatura policial no século 20. Autora de clássicos como O Talentoso Ripley, ela terá mais uma obra adaptada para o cinema: Em Águas Profundas. O livro, em nova edição, denota a capacidade que Highsmith tinha para trabalhar com a perversidade e o jogo de aparências das elites. Na obra, o casal Vic e Melinda mantém um casamento de fachada para não enfrentar um divórcio. No entanto, incomodado com as traições da mulher, Vic finge ter assassinado um dos amantes de Melinda, o que traga ambos para uma rede de maledicências na cidadezinha em que vivem.

Periféricos - William Gibson (Aleph)

Depois de prever, nos anos 1980, o mundo em que vivemos hoje, William Gibson se dedica a explorar as possibilidades do presente. Com obras como Neuromancer, Mona Lisa Overdrive e História Zero, o escritor americano foi o papa do cyberpunk, subgênero da ficção científica que pode ser resumido no slogan “alta tecnologia, baixa qualidade de vida”. Em suas obras mais recentes, porém, vida real e ficção nunca estiveram tão próximas. No thriller Periféricos, Gibson retoma temas que o consagraram, como a criminalidade no ambiente cibernético e a perversidade das corporações por meio de um protagonista que age como segurança em um jogo virtual. 

Clarice Lispector com a Ponta dos Dedos - Vilma Arêas (Imprensa Oficial)

Professora de literatura e escritora premiada, Vilma Arêas conheceu Clarice Lispector e dedicou a ela um belíssimo estudo, Clarice Lispector com a Ponta dos Dedos, que a Imprensa Oficial relança no mercado após 15 anos. No trabalho, a escritora analisa a obra de Clarice, mas vai além da crítica literária: ela se debruça primordialmente sobre os equívocos cometidos pela recepção da autora, cujo centenário foi celebrado em 2020. Um dos pontos centrais é mostrar em seus livros a preocupação social de Clarice, que chegou a ser acusada de reacionária e pressionada pela elite intelectual a se posicionar politicamente durante a ditadura militar. 

O Que Devíamos Ter Feito - Whisner Fraga (Patuá)

O escritor mineiro Whisner Fraga mantém um canal no YouTube no qual resenha lançamentos de literatura brasileira contemporânea. Talvez por esse exercício cotidiano da crítica ele esteja tão sintonizado com a atualidade, o que fica claro nos 14 contos que compõem a coletânea O Que Devíamos Ter Feito. A narrativa que dá nome ao livro, por exemplo, é narrada do ponto de vista de um pai que perde a filha, vítima de um vírus. Já Ambição trata do submundo das peneiras do futebol, lançando um olhar sombrio para a paixão nacional. Em seus contos, Whisner lança luz justamente sobre os aspectos da sociedade brasileira dos quais costumamos desviar o olhar. 

Tykhe: Uma Quarentena de Poemas - Marcelo Tápia (Dobradura)

O que não faltou ao longo dos últimos meses foram livros sobre o período de quarentena. Um dos mais interessantes, contudo, é Tykhe: Uma Quarentena de Poemas, que reúne a produção do poeta, ensaísta e tradutor Marcelo Tápia. A obra varia ao sabor das mudanças de temperamento do autor, à mercê das transformações proporcionadas pela própria pandemia, indo de poemas voltados ao diálogo com o idioma grego a versos mais diretamente ligados à situação contemporânea, passando por textos que flertam com a literatura de gênero e o concretismo. Essa variedade é justificada e assinalada pelas datas em que os versos foram escritos, de março a setembro.

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