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Montagem/Estadão
Montagem/Estadão

Dez livros essenciais selecionados pela equipe do 'Aliás' em fevereiro

Lista reúne lançamentos de autores brasileiros e estrangeiros de literatura e não ficção

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2021 | 09h00

Todos os meses, a equipe do Aliás seleciona e destaca dez lançamentos de livros, entre obras inéditas e reedições de autores brasileiros e estrangeiros. Confira a seleção dos livros essenciais de fevereiro de 2021:

Studiolo - Giorgio Agamben (Âyiné)

Tudo nele sugere uma edição luxuosa de livro de arte. E poderia mesmo ser – o papel, as reproduções, a escolha das obras, enfim, até mesmo o título, Studiolo, remete ao pequeno cômodo onde os príncipes renascentistas meditavam ao lado dos seus quadros preferidos. Porém, o Studiolo do filósofo italiano Giorgio Agamben é muito mais que uma reflexão sobre arte. Trata-se de um estudo que reúne diversos textos sobre pintores tão diferentes entre si como Bellini e Holbein, Chardin e Velázquez. Não são propriamente ensaios estéticos sobre pintura, mas textos em busca de detalhes para jogar alguma luz sobre aspectos sociais que muitas vezes não são notados em sua época e só revelados muitos anos ou muitos séculos depois. Não se deve esquecer que Agamben é o responsável pela edição italiana da obra de Walter Benjamin. Isso significa livrar essas obras do pó dos museus e dar nova vida a elas, como Agamben faz, por exemplo, com A Embriaguez de Noé, de Bellini, que Longhi considerava a “primeira obra da pintura moderna”. Entre outras análises, o filósofo italiano mostra como a obra de Dostoievski, especialmente O Idiota, dialoga com o trágico Cristo de Holbein, que deixou o escritor russo prostrado diante do quadro. /Antonio Gonçalves Filho

A Arte de Torrar Café - Ronaldo Correia de Brito (Objetiva)

O livro pode ser lido como uma reunião de textos do premiado escritor cearense Ronaldo Correia de Brito, mas eles têm existência autônoma. Podem falar tanto de romeiros como de retirantes detidos pelo governo em “currais’, nos anos 1930. Mais ainda, de imigrantes africanos vivendo em Paris ou de um garoto usuário de crack que o autor, médico, conheceu num hospital público brasileiro. Nosso Chekhov do Crato é um fenômeno. Nada escapa a Correia de Brito, que imagina o que aconteceria com esse jovem viciado se ele tivesse a sorte de encontrar pelo caminho um André Bazin disposto a tirar do reformatório o futuro cineasta François Truffaut. Mas ele sabe, como médico e cidadão, que as instituições psiquiátricas no Brasil são cárceres. Há também espaço para criticar o horror da bancada ruralista, a destruição da natureza e a ânsia de consumo da emergente classe média de Petrolina e Juazeiro, que não lê e só pensa em comprar celular novo e bolsas Louis Vuitton../A.G.F.

 

As 29 Poetas Hoje - Heloísa Buarque de Holanda (Companhia das Letras)

Faz quase meio século que Heloísa Buarque de Holanda lançou uma antologia  marcante sobre poetas brasileiros ativos nos anos 1970 (o livro, de 1976, chama-se 26 Poetas Hoje). Agora ela apresenta uma lista maior, de 29 poetas. Já ninguém mais fala em contracultura ou de poesia rodada em mimeógrafo, como naquela época. Hoje a poesia é feita em computadores e celulares, mas conserva viva a lembrança de poetas marginais como Ana Cristina César, que era inédita até a primeira publicação da antologia de Heloísa. São poetas de todo o Brasil, algumas publicadas e outras desconhecidas de grande parte dos leitores. A carioca Alice Sant’Anna, nascida em 1988, parece ser a herdeira direta de Ana Cristina César, segundo a organizadora da antologia, que foi a outros estados em busca da nova dicção feminista da poesia, encontrando em Angélica Freitas, nascida em Pelotas, uma outra herdeira de Ana Cristina. Heloísa não se sente confortável com o rótulo feminista, mas vê nas poetas de hoje um novo feminismo “avesso às lideranças’. / A.G.F.

Notre-Dame - Agnès Poirier (DBA)

A jornalista e escritora parisiense, que hoje vive em Londres e já escreveu um livro sobre o renascimento de Paris no pós-guerra, tomando como ponto de partida os intelectuais da Rive Gauche, assumiu o desafio de escrever a história da catedral de Notre-Dame de Paris, destruída num incêndio de proporções gigantescas em 2019. Para Agnès Poirier, o fogo não afetou apenas o principal ponto turístico de Paris depois da torre Eiffel, mas um lugar de peregrinação cuja história começou há 850 anos com o sacrifício dos mais pobres (a Igreja cobrava deles impostos exagerados entre 1210 e 1232, período em que foi construída a fachada). No período revolucionário, ela teve sinos e peças de bronze derretidos e nem o pináculo do século 15 resistiu. No século 19, Victor Hugo escolheu a catedral como cenário de O Corcunda de Notre-Dame (Notre-Dame de Paris). E não só como cenário. Ela é, segundo a autora, a própria história da França, que já foi reduzida a cinzas, ressurgiu e agora está em processo de reconstrução – como a própria catedral, que depende de um consórcio mundial para ser recuperada. O incêndio de 15 de abril de 2019 foi, segundo Agnès Poirier, um momento de comunhão em meio à destruição. / A.G.F.

Balões, Vida e Tempo de Guignard - João Perdigão (Autêntica)

O pintor Alberto da Veiga Guignard já foi objeto de estudo de críticos respeitados como Rodrigo Naves. Agora surge uma biografia escrita pelo jornalista e pesquisador independente João Perdigão, que toca mais nos aspectos pessoais da vida do artista de Nova Friburgo, conhecido por seus retratos e paisagens mineiras, do que propriamente em sua evolução como pintor. Dependente de álcool, com uma fissura labial e infeliz no amor (sua esposa o abandonou praticamente na lua de mel), Guignard desenvolveu, segundo o biógrafo, um outro vício: a cleptomania. Embora reconheça a importância e vocação moderna de Guignard, Perdigão afirma que o pintor, primeiro brasileiro a participar da Bienal de Veneza, em 1928,  foi um desenhista medíocre na escola. Em busca de aspectos pouco explorados por outros biógrafos o autor  também cita o fetiche que Guignard tinha por uniformes militares, já revelado pelo crítico Frederico Morais em 1974. / A.G.F.

 

Copo Vazio - Natalia Timerman (Todavia)

Antes de se enveredar pela literatura, Natalia Timerman atuou como médica psiquiatra, o que explica os temas dos quais suas obras costumam tratar: em Desterros (2017), ela compilou relatos do que viu no Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário; em Rachaduras (2019), se aventurou pela ficção por meio de contos que investigavam tensões psicológicas; agora, em Copo Vazio, seu primeiro romance, ela trata do abandono. Mais especificamente, de uma prática chamada ghosting: um homem que desaparece da vida de sua parceira sem deixar vestígio. Dialogando com o tema literário da mulher abandonada, a autora compõe um mosaico narrativo com capítulos cronologicamente desordenados para retratar essa situação. / André Cáceres

Leopardo Negro, Lobo Vermelho - Marlon James (Intrínseca)

O escritor jamaicano Marlon James ficou conhecido no Brasil quando venceu o Booker Prize por Breve História de Sete Assassinatos, mas desde antes de sua obra mais premiada ele já demonstrava interesse em manipular tradições caribenhas, afro-americanas e africanas em suas tramas. Leopardo Negro, Lobo Vermelho é o primeiro livro de uma trilogia de fantasia que se propõe a reavaliar lendas do folclore africano e construir uma visão mítica do continente, num processo semelhante ao de outros autores contemporâneos, como N.K. Jemisin, que levam representatividade à literatura fantástica. / A.C.

A Saga de Gosta Berling - Selma Lagerlof (Carambaia)

A escritora sueca Selma Lagerlof foi a primeira mulher a vencer o prêmio Nobel de Literatura, em 1909. Embora seu mais conhecido trabalho seja o infantojuvenil A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, seu primeiro romance foi A Saga de Gösta Berling, um épico de fantasia pelos campos gelados de seu país. O protagonista da obra é um ex-pastor que perde a batina por sua bebedeira e quase morre congelado como um mendigo. Após ser salvo por uma nobre, passa a integrar — e influenciar — o vilarejo de Ekeby, arrebatando os corações das mulheres e até fazendo um pacto com o diabo para tomar controle daquelas terras. / A.C.

Páscoa Vieira Diante da Inquisição - Charlotte Castelnau-L'Estoile (Bazar do Tempo)

Páscoa Vieira foi uma angolana levada para o Brasil no século 17, onde foi escravizada em Salvador. Após ser alforriada, ela se tornou alvo da Santa Inquisição: casou-se no País, mas seu primeiro marido ainda estava vivo em Angola. Acusada de bigamia, ela fez uma nova travessia forçada pelo Atlântico, para ser julgada em Portugal. Por meio de um impressionante caso individual dessa africana submetida às violências institucionais, a historiadora francesa Charlotte Castelnau-L’Estoile analisa a influência da Igreja nas sociedades escravocratas do período colonial. / A.C.

É assim que se perde a guerra do tempo - Amal El-Mohtar e Max Gladstone (Suma)

Novela escrita a quatro mãos e vencedora do prêmio Hugo, É Assim que se Perde a Guerra do Tempo é ao mesmo tempo futurista e tradicional: envolve duas espiãs rivais que viajam no tempo atrapalhando os planos uma da outra, mas é narrado por meio de cartas, como na tradição da literatura epistolar. As espiãs trabalham para organizações do futuro cujos desígnios sombrios são insondáveis, mas acabam por se envolver ao entrarem em rota de colisão, comunicando-se por meio de missivas enviadas a cada nova missão. / A.C.

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