Montagem/Estadão
Montagem/Estadão

Dez livros essenciais selecionados pela equipe do 'Aliás' em setembro

Estão na lista livros inéditos e reedições, de ficção e não ficção, brasileiros e internacionais

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2021 | 10h00

Todos os meses, a equipe do Aliás seleciona lançamentos literários que não podem passar em branco, entre livros inéditos e reedições, de ficção e não ficção, brasileiros e internacionais. Confira a seleção de setembro:

Até o Fim do Tempo - Brian Greene (Companhia das Letras)

Até o Fim do Tempo, do físico e matemático Brian Greene, cumpre o papel de despertar no leitor a mesma curiosidade dos livros de Stephen Hawking. Com efeito, eles têm muito em comum, especialmente o interesse pelo tempo. Como Bertrand Russell, Greene acha que caminhamos para a morte universal. O futuro, prevê o físico, reserva uma deterioração contínua – daí se deter em questões como entropia e a teoria do Big Bang. Mas a ciência, reconhece o autor, apesar de ser uma ferramenta poderosa para a apreensão da realidade externa, ainda pouco sabe sobre o que passa no interior do homem, tema também de seu livro.

Munique 1919 - Victor Klemperer (Carambaia)

A revolução alemã de 1918-1919 é ainda pouco estudada pela importância que teve na transição da monarquia para o regime democrático. Munique 1919 - Diário da Revolução, de Victor Klemperer, cumpre essa função e ainda oferece como informação adicional uma espécie de autobiografia de Klemperer, um reconhecido filólogo atento ao nascimento da República de Weimar. Em meio à miséria e ao desespero, o olho atento de Klemperer ajuda a entender a ascensão e queda da democracia. Na segunda parte do livro, constituída de material inédito, o autor, sob pseudônimo, escreve artigos (não publicados) no calor da hora. Uma leitura essencial para hoje.

Robinson Crusoé e seus Amigos - Leonardo Gandolfi (Ed. 34)

Poeta e crítico literário carioca, Leonardo Gandolfi, aos 40 anos, lança um livro formidável, Robinson Crusoé e seus Amigos. São poemas que contam várias histórias, começando pelas reminiscências de um autor cuja mãe é convidada por Clarice Lispector para cuidar de sua biblioteca. O livro de Gandolfi, como assinala Filipe Manzoni, é povoado de “fantasmas”, alguns camaradas e outros nem tanto. Até os objetos assumem papel de protagonistas nessa fábula fantasmagórica em que folhas secas esquecidas em livros com a letra da mãe voltam à vida e Kaváfis é evocado num poema que canta a despedida (desta vez, do Rio de Janeiro). Belo poeta. 

Um Antídoto Contra a Solidão - David Foster Wallace (Âyiné)

David Foster Wallace, autor do monumental Graça Infinita (1996), que cometeu suicídio em 2008, após uma longa batalha contra a depressão, detestava entrevistas. No entanto, Um Antídoto contra a Solidão, um livro revelador, é justamente um volume de entrevistas em que ele discute desde o pós-modernismo aos livros de Oliver Sacks e Franzen. Wallace era do Meio-Oeste americano, mas vivia no sul da Califórnia, onde concedeu, em 2004, uma entrevista a Michael Goldfarb, em que seus leitores tiveram uma conversa coloquial com o autor, sem a pressão da mídia especializada (Wallace virou um mito da literatura norte-americana). Uma experiência singular. 

Homens Justos - Ivan Jablonka (Todavia)

O professor e editor parisiense Ivan Jablonka, de 48 anos, resolveu escreveu a história do patriarcado. O resultado é Homens Justos, que fala principalmente da luta pela emancipação feminina, não só em solo europeu, mas em lugares distantes como a Arábia Saudita e Islândia. O mundo patriarcal é analisado por Jablonka não só na literatura como no cinema (de As Aventuras de Tintim a Star Wars, passando pelos faroestes de Howard Hawks). Ele analisa também como a homossexualidade representa uma ameaça para essa mundo patriarcal, lembrando que o público egípcio aplaudiu quando o jornalista gay é assassinado no filme O Edifício Yacobán (2006).

Eu que Nunca Conheci os Homens - Jacqueline Harpman (Dublinense)

A escritora e psicanalista judia-belga Jacqueline Harpman (1929-2012) viu sua infância ser interrompida pela ascensão do nazismo e fugiu com a família para Casablanca. Talvez essa experiência tenha sido uma das bases para seu romance Eu Que Nunca Conheci os Homens, de 1995, que chega ao Brasil pela primeira vez. Na obra, 40 mulheres são aprisionadas arbitrariamente por anos a fio sem motivo aparente. Em cativeiro, a narradora é a mais jovem do grupo, sem lembranças prévias, que tenta compreender a realidade a partir dos relatos das demais, numa espécie de Mito da Caverna de Platão às avessas e com sutil subtexto psicanalítico. 

Hamnet - Maggie O'Farrell (Intrínseca)

William Shakespeare e Anne Hathaway tiveram três filhos: Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet – com N, mesmo. O pequeno Hamnet morreu aos 11 anos, em 1596. Ainda se debate sobre qual teria sido a causa da morte, embora a peste bubônica pairasse sobre a Inglaterra Elizabetana. Apenas três anos depois de perder o filho, o Bardo começou a escrever Hamlet, peça em que ele inverte a morte do filho pela história do príncipe assombrado pelo fantasma do pai. No romance histórico Hamnet, a escritora irlandesa Maggie O’Farrell reconta a vida do filho que pode ter inspirado o maior poeta da língua inglesa a elaborar o luto por meio da arte.

O Livro do Xadrez - Stefan Zweig (Fósforo)

No auge da 2ª Guerra Mundial, o escritor judeu-austríaco Stefan Zweig se refugiou no Brasil, onde cunhou a expressão “país do futuro”, que talvez não seja exatamente otimista, já que ele era um inveterado nostálgico. Seu último livro, entregue ao editor poucos dias antes de seu suicídio, em 1942, é a novela O Livro do Xadrez, seu único texto que trata de uma maneira mais direta do nazismo, tendo sido adaptado para cinema, teatro e ópera. A obra se passa em um navio indo de Nova York a Buenos Aires, em que os passageiros descobrem que estão acompanhados de um campeão de xadrez e tentam derrotá-lo – até que um inesperado azarão aparece. 

Trilharada - Marco Moretti (Patuá)

O paulistano Marco Moretti publicou, de 2011 a 2019, três romances históricos que pintam um Brasil épico e sedimentado em narrativas míticas que beiram o fantástico. Por isso, sua primeira coletânea  de contos  pode acabar pegando alguns de seus leitores no contrapé. Como o próprio autor explica em um breve prefácio, os contos contidos em Trilharada foram escritos em épocas distintas, o que explica sua variedade: de textos que prestam tributo ao regionalismo  a histórias de ficção científica, de paisagens urbanas ao clima árido do sertão. A despeito dessa pluralidade, ficam claras suas influências firmemente ancoradas em Kafka e seus tributários. 

O Assassino Cego - Margaret Atwood (Rocco)

Se O Conto da Aia projetou o nome de Margaret Atwood para os leitores em 1984, o livro que a consolidou para a crítica no panteão da literatura canadense foi O Assassino Cego, de 2000, com o qual ela venceu o Booker Prize, após bater na trave três vezes em anos anteriores. A princípio a obra parece conter um enredo relativamente simples sobre duas irmãs, Iris e Laura, no período entreguerras. Mas Atwood constrói um jogo de espelhos  entre ficção e realidade por meio de um livro dentro do livro, escrito por Iris mas assinado por Laura, que desvela segredos vividos por elas em suas relações com homens de caráter questionável.

Tudo o que sabemos sobre:
literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.