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Diálogos póstumos com Tony Judt

Em coletânea organizada pela viúva do historiador, ensaios sobre Israel, Palestina e o Holocausto, além de tocantes relatos de intimidade familiar

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2016 | 06h00

Se tivéssemos que escolher um ano pelos fatos que testam a credulidade, 2016 seria bom candidato, nos Estados Unidos e no Brasil. E, para quem tentasse argumentar que o dogmatismo embaça a visão de cenários como a marcha de Donald Trump rumo à Casa Branca ou o derretimento do Brasil, 2016 também não decepciona.

A mudança de fatos que desafia convicções é o fio condutor de Quando os Fatos Mudam (Objetiva), uma preciosa coleção de ensaios do historiador Tony Judt. O título se refere a uma frase apócrifa, mas comumente atribuída a John Maynard Keynes – “Quando os fatos mudam, eu mudo. E o senhor, o que faz?” O livro foi editado pela viúva de Judt, Jennifer Homans, a respeitada autora de Os Anjos de Apolo, Uma História do Ballet.

É difícil imaginar outro intelectual público recente cuja morte precoce nos priva da clareza tão necessária neste momento. Em agosto de 2010, aos 62 anos, Tony Judt sucumbiu em Nova York à devastadora esclerose lateral amiotrófica que o tinha deixado quadriplégico pouco depois do diagnóstico, em 2008. Convencido de que a morte se aproximava, Judt produziu artigos e livros em ritmo febril, ditando o texto com ajuda de um aparelho de ventilação.

Numa tarde ainda fria de primavera, Jennifer Homans recebeu esta repórter num belo edifício construído entre as duas guerras mundiais, no Greenwhich Village. Ela se desculpa pelo que chama de bagunça mas não destoa em nada da casa de dois escritores, com livros e papéis competindo pelo espaço disponível além das estantes abarrotadas. Homans ainda exibe a figura esguia da bailarina profissional que foi, antes de começar a estudar com Judt em 1991, como mestranda da New York University, um curso rapidamente transformado em romance alimentado por livros e conversas sobre política europeia, “guerra, revolução, justiça, arte.”

Os 28 ensaios do novo livro, escritos entre 1995 e 2010, foram organizados cronologicamente por temas e coincidem com o período em que o acadêmico antes relativamente obscuro se tornou conhecido como um rigoroso debatedor do seu tempo. Na elegante introdução à coletânea, Homans explica a insistência de Judt, tentando terminar o monumental e aclamado Pós-Guerra (Objetiva), em continuar a publicar ensaios: “Ele estava ouvindo os canários das minas de carvão da nossa própria época,” escreve. E como. Em sua última palestra pública, em 2007, incluída no livro, Judt diz que o aumento da imigração e a nova visibilidade de minorias vão aumentar a “suspeita ao outro” e espera o acirramento do nacionalismo, exacerbado pelo crescimento da desigualdade econômica. “Estamos entrando numa nova era de insegurança”, diz. A ilusão de contínuo progresso econômico que marcou o pós-guerra na Europa e nos Estados Unidos, declara, já ficou para trás: “Ao longo do futuro próximo, estaremos provavelmente tão inseguros quanto à economia quanto estamos dominados pela incerteza no plano cultural. Estamos hoje nitidamente menos confiantes a respeito de nossos propósitos coletivos”, prevê. Não é difícil ler o texto da palestra como mais um canário na mina que explica tanto o candidato Bernie Sanders, quanto Donald Trump nas referências à incerteza econômica.

A coragem intelectual de Judt não se limitava ao Oriente Médio, mas nada trouxe ao autor tanta fama e infâmia quanto Israel: Uma Alternativa um ensaio publicado em 2003 na New York Review of Books. Judt declarava morto o processo de paz – o que intelectuais judeus norte-americanos hoje admitem –, previa que o sonho dos dois Estados estava fora de alcance. Judt sugeria que o sionismo e o Estado de Israel haviam se tornado anacronismos. A casa caiu, a reação veio feroz e a expressão de Jennifer Homans se torna sombria diante da lembrança daqueles anos em que Judt continuou a discutir a questão israelense em artigos subsequentes e a ser atacado com uma virulência que ela confessa nunca ter esperado. “Ele se guiava por fatos”, lembra, “e mudou de opinião movido pelos fatos que observou. Não vamos esquecer como ele começou a vida”. Judt, um judeu secular nascido em Londres, viveu num kibutz socialista e, aos 19 anos, se alistou para lutar na Guerra dos Seis Dias, quando começou seu caminho de desencanto com o sionismo.

Entre os oito ensaios sobre o Holocausto e Israel que fazem parte de Quando Os Fatos Mudam, Homans incluiu o inédito O Que Fazer, de 2009. Nele, Judt alerta para a catástrofe de deixar que a “mediocridade incompetente” dos governantes palestinos e israelenses siga provocando deterioração na região. E prevê que os abusos contra palestinos vão continuar a servir de eficiente fator de recrutamento para movimentos islâmicos radicais. Nada disso provoca polêmica hoje. Jeniffer Homans lembra o marido comentando que as ideias muitas vezes só são adotadas quando as pessoas não encontram outra escolha.

Um diálogo tocante entre Judt e seu filho Daniel, então com 16 anos, publicado primeiro no New York Times, dois meses antes da morte do autor, aparece na seção “O Modo Como Vivemos Agora”. Em Comparando Gerações”, o adolescente decepcionado com promessas quebradas cobra do pai o voto em Barack Obama. Numa família que, como lembra Jennifer Homans, não usava mensagens de texto ou se engajava no Facebook, Judt dispara: “O fato de vocês se unirem para eleger alguém não é o bastante, se em seguida se limitam a voltar a trocar textos nas redes sociais e no Twitter”. E explica ao filho que não desistir também é fazer política.

Pergunto a Jennifer Homans se ela se surpreende em diálogos imaginários com o marido, com quem tanto debateu. Há melancolia mas nenhuma auto-piedade na resposta. “Quando vejo o momento político que atravessamos, eu digo, sim, ele precisava estar aqui porque sua clareza e perspicácia eram notáveis. Mas ele era tão imprevisível, que não posso dizer como haveria de reagir,” conclui.

Tony Judt denunciou a cegueira da esquerda aos abusos de Stalin sem se transformar em anticomunista, uma noção que pode parecer exótica em meio à polarização que se vê entre norte-americanos e também entre brasileiros. Sua trincheira intransigente era a recusa em se dobrar a qualquer camisa de força ideológica. Naquela palestra final, em 2007, Judt disse: “Se aprendemos alguma coisa com o século 20, deveríamos ter no mínimo compreendido que quanto mais perfeita for a resposta, mais aterrorizantes serão suas consequências”.

O ano de 2016 sugere que pouco aprendemos e que Tony Judt partiu cedo demais.

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