Associated Press
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Diários da escritora Patricia Highsmith serão publicados

Morta há 20 anos, autora de 'O Talentoso Ripley' terá diários lançados em 2021

Alexandra Alter, The New York Times

02 de novembro de 2019 | 16h00

“Nenhuma escritora jamais revelaria sua vida secreta”, escreveu a romancista Patricia Highsmith a uma amiga, em 1940. “Seria como ficar nua em público”.

Mais de vinte anos depois de sua morte, a vida secreta de Highsmith – suas reflexões sobre seus anseios criativos, seus tumultuados relacionamentos românticos e seu fascínio pelos fundamentos psicológicos da violência – virá a público pela primeira vez, pois os responsáveis por seu legado literário se preparam para publicar centenas de páginas de seus diários pessoais.

Os diários, que a editora Liveright planeja lançar nos Estados Unidos em 2021, em um único volume, oferecem um vislumbre da vida de uma figura literária cujos perspicazes thrillers psicológicos – entre eles, Strangers on a Train e O Talentoso Ripley – se tornaram marcos culturais. Ela era uma mulher reservada e muitas vezes espinhosa; um enigma até mesmo para seus amigos e amantes; uma pioneira que escreveu um dos primeiros romances populares a retratar a paixão entre duas mulheres. Mas também podia se deixar cegar por sua própria intolerância e defender opiniões racistas e antissemitas.

Os estudiosos conhecem seus diários há muito tempo, mas estes não estavam disponíveis ao público. Cobrindo um período de quase sessenta anos, as entradas revelam novas facetas da vida de Highsmith. Catalogam seus pensamentos sobre temas como bem e mal, solidão e intimidade, amor e assassinato, coisas que ela via como inseparáveis: “O assassinato é um tipo de ato sexual, um modo de possuir”, escreveu ela em 1950.

Sexualidade e frustração sexual são temas recorrentes. Highsmith vivia em conflito por causa de sua atração por mulheres e foi submetida a terapias para “me botar em condição de casamento”. Mas ela também denunciou a repressão que sofreu e lamentou que tivesse de se esconder da sociedade, escrevendo: “Conscientemente, não tenho a menor vergonha da homossexualidade”.

Em uma entrada, Highsmith escreve que “o homem americano não sabe o que fazer com uma garota depois de possui-la. Não é que ele se sinta realmente deprimido ou inibido por suas restrições puritanas, sejam herdadas ou impostas pelo ambiente; ele simplesmente não tem um objetivo dentro da situação sexual”. Em outra, ela descreve uma constrangedora tentativa de encontro sexual com o escritor Arthur Koestler como um “episódio infeliz e sem graça”.

Seus relacionamentos mais gratificantes foram com as personagens. Highsmith escreve sobre a paixão por Carol, protagonista de seu romance The Price of Salt [O preço do sal], de 1952, que ela publicou sob um pseudônimo. O romance, adaptado para o cinema no filme Carol, de 2015, foi uma das primeiras representações literárias de um relacionamento lésbico que não terminava em tragédia para as mulheres, em uma época na qual a literatura homossexual era considerada escandalosa. No verão de 1950, Highsmith escreveu no diário algo que se aproximava do arrebatamento: “Hoje me apaixonei perdidamente por minha Carol. O que pode ser mais bonito que dedicar a ponta mais afiada da minha força à sua criação, dia após dia? E, à noite, ficar exausta. Quero passar todo o meu tempo, todas as minhas tardes com ela”.

Os diários foram descobertos após a morte de Highsmith, em 1995, escondidos atrás de lençóis e toalhas dentro de um guarda-roupas de sua casa em Ticino, na Suíça. Os 56 cadernos de espiral, que totalizam cerca de 8 mil páginas, foram encontrados por Anna von Planta, sua editora de longa data, e por Daniel Keel, executor do testamento de Highsmith e de seu patrimônio literário.

Os documentos permaneceram nos arquivos literários suíços e foram consultados por um punhado de pesquisadores e biógrafos. Transcrever e editar os diários foi uma tarefa monumental, disse von Planta. A dificuldade do processo se deveu ao fato de que Highsmith mantinha dois conjuntos de diários: cadernos sobre sua vida profissional, onde ela registrava ideias e pensamentos sobre a escrita; e diários em que anotava reflexões e memórias pessoais. “Ela tinha um sistema de contabilidade dupla sobre sua vida”, disse von Planta.

Von Plata disse que, ao editar os diários e cadernos, procurou oferecer um olhar livre de embelezamentos, que não encobrisse os aspectos mais sombrios da personalidade e das convicções da autora. Highsmith foi franca sobre seu antissemitismo, muitas vezes condenando o que via como uma influência judaica global e se referindo ao Holocausto como “Holocausto S.A” ou como “semicausto”, de acordo com a biografia The Talented Miss Highsmith [A talentosa senhorita Highsmith], de Joan Schenkar, publicada em 2009.

Von Planta disse que não poderia censurar essas opiniões e que está analisando os diários na esperança de traçar as origens biográficas das atitudes antissemitas de Highsmith.

Highsmith podia ser reservada até mesmo nos diários particulares. Às vezes, se ficava sabendo que um de seus amantes tinha lido seu diário, abandonava as anotações pessoais por um tempo e se retirava para os cadernos profissionais.

Se Highsmith protegia sua vida privada, os responsáveis por seu legado literário não tiveram escrúpulos em publicar os diários, disse von Planta, em grande parte porque Highsmith parecia prever que um dia seus cadernos viriam a público. Ela os mencionou no testamento, considerando-os parte de seu patrimônio literário, e deixou instruções para cortar as passagens repetitivas das entradas, disse von Planta. Confiou os diários a Keel, amigo e executor literário.

Os dois conjuntos de registros estarão entrelaçados em uma única narrativa cronológica no futuro volume, que soma cerca de 650 páginas e também traz desenhos e aquarelas de Highsmith. Tomados em conjunto, os cadernos oferecem a imagem mais completa de como ela própria se via.

“A ideia era mostrar como Patricia Highsmith se tornou Patricia Highsmith”, disse von Planta. “E deixar que ela falasse sobre sua vida, seus pensamentos, suas preocupações e seu trabalho, com suas próprias palavras”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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