Diplomacia alucinógena

O que o israelense Bibi Netanyahu e o americano Mitt Romney têm em comum? Em matéria de política externa, muito

Bill Keller, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2012 | 03h08

De repente, descobrimos que Bibi Netanyahu e Mitt Romney têm mais em comum do que uma experiência na área de consultoria em administração e uma constante preocupação com a segurança de Israel. Em matéria de diplomacia, os dois têm a graça sutil de um animal que comeu uma erva alucinógena.

A ofensa maior é a de Netanyahu, porque ele sabia perfeitamente o que estava fazendo. Numa coletiva à imprensa em Jerusalém, referiu-se com desdém aos Estados Unidos por sua relutância em deflagrar uma duvidosa guerra preventiva contra o Irã - uma guerra que muitos israelenses de grande prestígio e patriotas não querem. Netanyahu quer que os EUA estabeleçam um "limite definido", um prazo para que o Irã cesse seu programa de enriquecimento de urânio, caso contrário se tornará alvo de intensos ataques. A secretária de Estado, Hillary Clinton, recusou-se a emitir um ultimato tão taxativo. E Netanyahu escarneceu: "Os membros da comunidade internacional que se recusam a estabelecer limites definidos ao Irã não têm o direito moral de mostrar um sinal vermelho a Israel".

Vale a pena explicar. Em primeiro lugar, Hillary estava certa. Os ultimatos devem ser praticamente um recurso extremo nas relações internacionais porque seu efeito é encurralar o adversário. Eles limitam nossa flexibilidade. Por exemplo: os EUA nunca disseram o que fariam se a China decidisse exercer pela força seu direito sobre Taiwan, embora nos tenhamos comprometido com a autonomia da ilha. Se anunciarmos nossa resposta antecipadamente, os nacionalistas de Taiwan poderão se sentir encorajados a forçar os limites, provocando uma reação precipitada do continente. É o que os diplomatas definem como "ambiguidade construtiva", expressão atribuída a Henry Kissinger. A diplomacia inteligente adia as escolhas difíceis enquanto busca algo melhor, neste caso um acordo negociado para limitar o enriquecimento de urânio do Irã a usos internos. Talvez seja por isto que Mitt Romney, assim como o presidente Obama, tenha evitado estabelecer um "limite" para o Irã; ou talvez isso seja coerente com sua falta de especificidade em tantas outras questões.

Em segundo lugar, embora os EUA tenham instado Israel a moderar suas atitudes a fim de que as sanções e outras medidas (como a possibilidade de usar a sabotagem cibernética) surtam efeito, ninguém estabeleceu um limite para os atos de Israel. Netanyahu está perfeitamente livre para enviar os seus bombardeiros para o Irã. O único problema é que provavelmente não poderá fazer um serviço completo sem a participação americana.

Concordemos ou não com a ideia do uso da força para impedir o Irã de adquirir armas nucleares (os que me leem sabem que eu não concordo), não há motivo algum para atacar agora. Nas instalações de enriquecimento do Irã há inspetores e aparelhos de monitoramento que poderão nos alertar se o país decidir começar repentinamente a enriquecer combustível para a fabricação de armas. A única urgência é o cálculo de Netanyahu de que pode usar as eleições presidenciais americanas para pressionar Obama. Esse poder de pressionar desaparecerá depois de 6 de novembro.

Netanyahu não faz favor nenhum a seu país. Os americanos se opõem energicamente a uma guerra preventiva contra o Irã, e provavelmente não suportariam uma tentativa despudorada de pressioná-los a entrar em guerra em favor de Israel. Uma nova pesquisa do Chicago Council on Global Affairs mostra que 70% dos americanos são contrários a um ataque militar unilateral. Além disso, se Israel bombardear o Irã e deflagrar uma guerra, 59% disseram que os EUA não devem ajudar Israel.

A intervenção grosseira de Netanyahu na nossa política pode - e deve - criar embaraço ao seu candidato preferido, Mitt Romney. As opções de Romney agora são unir-se ao amigo Netanyahu para atacar a política externa americana, distanciar-se do líder estrangeiro que ele abraçou da maneira mais entusiástica, ou calar a boca. E, se Obama se reeleger, é improvável que o presidente esqueça desse exercício de manipulação por um líder israelense de quem ele já teve motivos de sobra para desconfiar.

Ao mesmo tempo, a última incursão de Romney em política externa foi uma tentativa de explorar uma tragédia na Líbia para obter um ganho político mesquinho. Na quinta-feira, um grupo de fanáticos líbios enraivecidos por um vídeo que zombava do Profeta Maomé, atacou e queimou o consulado americano em Benghazi. Quatro diplomatas, entre eles o embaixador americano na Líbia, J. Christopher Stevens, morreram.

Obama emitiu um comunicado em que definiu o ataque uma coisa "vergonhosa". "Embora os EUA rejeitem todo esforço para denegrir a religião dos outros", ele disse, "devemos todos nos opor de maneira inequívoca à violência sem sentido que tirou a vida desses funcionários".

A resposta da Casa Branca continha duas mensagens fortes: expressou indignação com a morte dos nossos representantes e repudiou o vídeo insultuoso. A segunda mensagem era indubitavelmente mais urgente que a primeira, porque se a ideia de que os EUA de algum modo apoiavam um insulto tão despudorado contra o fundador do islamismo se difundir, a raiva poderá se espalhar, com o custo de muitas vidas.

A reação de Romney foi uma interpretação totalmente equivocada de uma situação perigosa, ou um clássico ato de cinismo. "É vergonhoso", dizia o comunicado dos seus assessores, "que a primeira resposta do governo Obama não tenha sido condenar os ataques a nossas missões diplomáticas, mas simpatizar com os que realizaram esses ataques". A farpa aparentemente se referia não ao comunicado de Obama, mas a outro divulgado independentemente pela embaixada americana no Cairo, deplorando o vídeo. A embaixada do Cairo repudiara "os esforços de indivíduos equivocados em ferir os sentimentos religiosos dos muçulmanos". A embaixada tentava compreensivelmente contornar uma situação potencialmente perigosa do lado de fora (estava literalmente cercada por uma turba enfurecida).

Quando a situação ficou mais clara, Romney poderia ter amenizado seus comentários e oferecido sua ajuda ao presidente por solidariedade americana. Essa teria sido a atitude correta, elegante, tradicional e aliás politicamente popular a adotar. Em vez disso, numa coletiva, reforçou a dose, reformulando sua acusação sem fundamento na qual afirmava que Obama estava "pedindo desculpas pelos princípios americanos".

Romney deve ser desculpado por esse erro grosseiro: ele é um ingênuo em política externa e está desesperado. Mas, assim como Netanyahu, não está ajudando a si mesmo com tal comportamento. As pesquisas mostram que os eleitores americanos confiam mais em Obama do que nele em política externa. A maneira desastrada como Romney se manifestou a respeito desse episódio confirma o julgamento do eleitorado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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