Acervo Estadão
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Diplomacia perde sem aulas de História da América Latina no Instituto Rio Branco

Disciplinas relacionadas ao continente auxiliaram os melhores lances da diplomacia brasileira em sua história

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2019 | 16h00

Se o “fim da história”, anunciado há quase 30 anos por Francis Fukuyama, não se consumou, o fim dos cursos de história em escolas e universidades já é um fato prestes a se confirmar. Nos Estados Unidos, professores vêm sendo demitidos ou forçados a dedicar-se a outras matérias, na escala e no ritmo que se podia esperar de um governo obscurantista e avesso à verdade como o de Donald Trump. 

O filósofo George Santayana dizia que aqueles que desconhecem o passado estão condenados a repeti-lo. Os americanos, que pouco já sabiam sobre o seu passado e o dos outros, estão sendo condenados a saber menos ainda. Tão por baixo anda o prestígio da história que Clio, a musa grega a ela dedicada, bandeou-se para a mitologia publicitária e há exatos 60 anos empresta seu nome ao Oscar da propaganda.

Se apagar ou alterar o passado é praxe de ditaduras, mantê-lo secreto é cacoete de regimes com algo ou muita coisa a esconder. A Lei de Acesso à Informação, em vigor desde 2012, foi uma vitória da história plena, transparente, e assim deverá continuar se o Senado confirmar a rejeição, pela Câmara, à manutenção do sigilo de dados oficiais decretada pelo governo. Pena que não seja da alçada do legislativo impedir a retirada das disciplinas relacionadas à história da América Latina do currículo do Instituto Rio Branco, determinada pelo chanceler Ernesto Araújo. A medida só não pareceu inteiramente absurda por ter sido imposta por um diplomata estroina, como nunca dantes parece ter havido na história do Itamaraty. 

Protegé do filósofo zoroástrico Olavo de Carvalho, Araújo chegou ao mais alto posto da carrière menos por seu currículo profissional do que por suas afinidades ideológicas com o bolsonarismo de raiz e a indigência de seus conceitos sobre globalização, meio ambiente, escola sem partido, perigo amarelo (por enquanto só o chinês), informação & cultura (“Vamos ler menos New York Times e mais José de Alencar e Gonçalves Dias”, foi sua primeira prédica ao assumir a chancelaria). 

Como seu patrão, ele também nega que aqui tenha havido uma ditadura militar entre 1964 e 1985 e considera Donald Trump um redentor dos “valores ocidentais”, o que quer que isso signifique. Seus primeiros despautérios o transformaram em chacota internacional, num Boris “Brexit” Johnson tapuia. Ele ainda não viu Jesus numa goiabeira, mas sua visão geopolítica evoca o viés subserviente de outro ministro das Relações Exteriores, Otávio Mangabeira, quando, já deputado pela UDN (a legenda antiga, não a de agora, em que a família Bolsonaro ameaça desembarcar), numa sessão da Câmara em homenagem ao general Eisenhower, em 1946, ajoelhou-se e beijou-lhe a mão. Pegou mal à beça. 

Enquanto ministro dos Negócios Exteriores, de 1926 a 1930, o último da República Velha, Mangabeira, justiça se lhe faça, não se notabilizou por transformar o Brasil em quintal dos EUA. Já o encontrara meio de cócoras, por sabujice de Lauro Müller, sucessor do Barão do Rio Branco à frente do Itamaraty, e limitou-se a tocar o barco.

Antes de tomar decisões sobre assuntos que nos diziam respeito, Müller raramente deixava de consultar a posição do governo americano. No ano em que assumiu, 1912, pediu ao nosso embaixador em Washington, Domício da Gama, que descobrisse a opinião do Departamento de Estado americano sobre uma revolução no Paraguai para só então dar seu parecer ao presidente Hermes da Fonseca. O embaixador, mais experiente e hábil, aconselhou o ministro a consultar unicamente os nossos vizinhos, assegurando, assim, inteira liberdade de ação e evitando conselhos eventualmente contrários aos interesses do Brasil. 

Domício da Gama, que além de diplomata era jornalista e escritor, foi quem melhor assimilou o espírito do Barão do Rio Branco, na defesa de nossos interesses. Ao contrário de Müller, entendeu à perfeição até onde ia o “marchar junto com os EUA”, sem concessões subalternas, preconizado pelo barão, que, diga-se, teria se horrorizado com a abolição de estudos sobre a história dos países latino-americanos no instituto que leva seu nome e que por coincidência foi criado no mesmo ano em que Mangabeira beijou a mão de Eisenhower. 

Os maiores lances da diplomacia brasileira tiveram o timbre de Rio Branco e envolveram missões e tratados relativos a fronteiras com nossos vizinhos. Ignorar-lhes a evolução histórico-geográfica e suas questões sobre limites com o Brasil, habilmente discutidas e resolvidas pelo barão, não deveria constar da pauta de “novidades” de nenhum chanceler minimamente sério e coerente com o legado de uma das poucas instituições respeitáveis deste país.

Como entender Bolívar, Mitre, Artigas, Urquiza e outros generais latino-americanos que depois viraram ruas e avenidas no Brasil? Como entender o caudilhesco general argentino Juan Manuel de Rosas, o peronismo, as guerras do Chaco, do Prata e do Paraguai, a aquisição do Acre à Bolívia? 

Nossa tão decantada política externa independente, em vigor desde o curto governo Jânio Quadros, levada adiante por San Tiago Dantas e até pelos ministros do regime militar Azeredo da Silveira e Saraiva Guerreiro, está ameaçada de um retrocesso, sem trocadilho, histórico. Ainda bem que Araújo tinha apenas sete anos quando o Brasil reatou relações diplomáticas com a China. Hoje, com ele de chanceler, isso dificilmente aconteceria. 

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