Direitos humanos na encruzilhada

A violência fragilizou os poucos agentes que se dispõem a lutar pela humanidade dos que perecem no abandono

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2007 | 21h48

A questão fundamental dos direitos humanos se tornou entre nós o cerne de uma cultura da culpa e da caridade. Há uma dimensão anti-pedagógica nessa tendência que os torna humanos incompreensíveis para um grande número de pessoas. Amplos setores da sociedade se sentem vitimados por uma postura ética que é equivocadamente interpretada como justificação do crime e escudo para protetores de bandidos. Não obstante tais simplificações, num país crônica e estruturalmente injusto, em que os direitos de todos são secundários em face de poderes do Estado e dos poderios de poucos, relembrar cotidianamente a humanidade do homem, o direito à vida e à liberdade, à dignidade e ao respeito em boa medida neutraliza equívocos e distorções doutrinários e ideológicos. Mas não neutraliza os impulsos dos que estão fechados à precedência do humano em relação ao desumano de egoísmos, privilégios e indiferenças.O que aconteceu ao Padre Júlio Lancelotti, nestes dias, constitui uma das expressões dos dilemas e contradições da opção social e política movida por essa cultura da culpa que se espalhou pela sociedade nas últimas décadas. A canonização sumária dos pobres e das vítimas das injustiças sociais, como se tivessem direito à isenção de responsabilidade social e política, é melancólico desdobramento dessa cultura. Mas o descabido regozijo pela adversidade do padre é linchamento que se apóia na pobre contrapartida de concepções que não nos engrandecem nem como pessoas nem como cidadãos. Esse ímpeto linchador se nutre da mesma iniqüidade que move o bandido e o criminoso.O Padre Júlio Lancelotti é o vigário do Povo de Rua e integrante da Pastoral do Menor na cidade de São Paulo, o criador da Casa Vida que acolhe crianças aidéticas, órfãs, que dos pais receberam como única herança a doença. Tem sido ele um defensor de causas impossíveis, não raro última voz dos que não são ouvidos nem reconhecidos como sujeitos de direito. Um padre situado pastoralmente no limite impreciso e cinzento de mundos que se confrontam de modo violento, a terra de ninguém do silêncio e da solidão. Sua crucificação ocorre no momento em que multidões vão ao cinema ver Tropa de Elite, muitos movidos pelo ânimo do linchamento simbólico dos maus e dos que se inquietam com a anulação sumária da sua condição humana na repressão retrógrada e sem medida. As mesmas multidões que não mexem uma palha para atenuar as injustiças sociais, para reconhecer-se nas carências do outro, os que não enxergam o seu bem estar e seus privilégios como expressão direta das privações do outro. São poucos os que podem compreender esta sociedade em frangalhos, acossados pelos sempre dispostos a atirar a primeira pedra. Num país em que a alimentação jogada no lixo pelos fartos daria para alimentar com dignidade os que catam no lixo o que lhes falta é melancólico que não esteja em debate, isto sim, a necessidade política da função mediadora do lixo para definir o que sociologicamente somos. A violência cotidiana que nos aterroriza a todos criou um cenário de urgência na prontidão dos poucos que se dispõem a lutar pela humanidade imperecível daqueles que a sociedade pobre de alternativas, de saídas e de esperança, transformou em agentes até cruéis de uma revolta compreensível, mas inaceitável. Tanto quem luta pelos direitos humanos dos que perecem no abandono, no relento, no deboche dos que têm e até dos que tudo têm, quanto quem se opõe a essa luta recusam-se a reconhecer as razões do outro. A penitência pelas contradições sociais e históricas acabam sendo forma caritativa e impolítica de contornar as grandes questões sociais. Fragiliza quem luta pelos direitos das vítimas de injustiças acumuladas. Mas a obstinada satanização dos agentes dessa luta, como se tem feito, fragiliza também os que se situam do outro lado. Tanto quem está de um lado quanto quem está do outro ignora as determinações ocultas da situação social das vítimas das adversidades. E acaba sendo vítima indefesa daquilo que não viu e não pode ver nem compreender. É dessas ocultações próprias da sociedade que saíram os quatro agentes da extorsão, difamação e ameaça de morte sofridas em silêncio pelo sacerdote nos últimos anos. Até que ele recorresse à polícia para denunciar o que lhe acontecia e pedir ajuda e proteção. Ignorou que o crime é hoje no Brasil uma sociedade paralela e inimiga, com regras próprias e opostas, em guerra mortal com a sociedade a que pertencem as pessoas de bem. Uma sociedade paralela que só aceita a rendição incondicional da nossa sociedade e considera a caridade e a versão ingênua dos direitos humanos o seu cavalo de Tróia na guerra contra os que estão do outro lado. O que está em jogo neste caso não é nem a pessoa do padre nem a pessoa do seu explorador e sim esse confronto radical que embaralha as percepções que todos temos do que somos e de quem somos na trama complexa da sociedade contemporânea. Em conseqüência do modo como se difundiu entre nós a luta pelos direitos humanos disseminou-se no País a concepção enganosa de que esses direitos privaram os humanos de direitos. Os militantes dos direitos humanos raramente levam em conta que nos meios populares há forte e arraigada identificação com o princípio, legítimo, aliás, de que os direitos são o prêmio dos deveres. Com exceção dos indiscutivelmente inocentes, que são as crianças, têm direitos os que cumprem seus deveres. Cidadão é apenas quem está numa relação de crédito com a sociedade e não de débito. Forte e trágica indicação dessa consciência social é a de que certas violações dos direitos da pessoa só têm conserto com a sumária e não raro cruel execução do criminoso, nos linchamentos. O que está em jogo nesse cenário é a continuidade e a relevância da defesa dos direitos humanos. A minimização desses direitos minimiza os direitos de todos. Sem tais direitos só no restará pedir socorro às sociedades protetoras dos animais, como fez um preso político durante a ditadura.* José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP TERÇA, 16 DE OUTUBROPadre denuncia extorsão Um bando chefiado por um ex-interno da Febem é investigado pela polícia por extorquir dinheiro do padre Júlio Lancelotti, vigário do Povo de Rua. Nos últimos meses, o grupo ampliou as ameaças, dizendo que denunciaria o padre por abuso sexual de menores.

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