Alexander Zemlianichenko/AP
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Diretor preso na Rússia estreia ópera de Mozart na Suíça

Kirill Serebrennikov está em prisão domiciliar em Moscou, mas dirigiu a montagem de 'Così Fan Tutte' que estreia hoje em Zurique

A.J. Goldman, The New York Times

10 Novembro 2018 | 16h00

ZURIQUE, SUÍÇA - “Temos uma mensagem de Kirill!” 

Em uma terça-feira, em uma das salas de ensaio da Ópera de Zurique, o coreógrafo Evgeny Kulagin foi chamado e uma dezena de cantores e técnicos correu atrás dele. Todos se reuniram para assistir ao último vídeo enviado por seu diretor, Kirill Serebrennikov, que poucos conheciam pessoalmente.

Serebrennikov, um dos mais importantes diretores de teatro e cinema da Rússia está em prisão domiciliar em Moscou desde agosto de 2017 aguardando seu julgamento num processo por corrupção baseado em acusações consideradas falsas, uma punição por um trabalho provocativo que alimentou a ira da elite dirigente do país. O diretor é acusado de desviar 133 milhões de rublos, ou R$ 7,5 milhões, de fundos governamentais alocados para um festival que organizou. Ele poderá ser condenado a uma pena de até dez anos de detenção.

Apesar da sua prisão, que é ainda mais discutível no caso de um sistema judiciário opaco e às vezes arbitrário como o da Rússia, Serebrennikov está dirigindo a produção da ópera Così Fan Tutte, de Mozart, que estreia em Zurique hoje. Por meio de um processo de transmissão que parece mais próximo da espionagem internacional do que de uma produção de teatro tradicional – envolvendo arquivos trocados por meio de um pen drive, um advogado atuando como mensageiro e uma paciência extraordinária – a Ópera de Zurique encontrou uma maneira de o diretor manter o controle artístico de seu cativeiro, a 2.200 quilômetros.

Na terça-feira, no espaço para ensaios da companhia um semicírculo de cadeiras foi arranjado em torno de um iPad ligado a um sistema de som. Os membros do elenco e toda a equipe se sentaram enquanto Kulagin, que tem trabalhado extensivamente com Serebrennikov e é o codiretor da produção, iniciou a transmissão. Uma imagem de Serebrennikov, usando camiseta preta, com barba feita e óculos surgiu na pequena tela.

Nos 40 minutos que se seguiram, o diretor fez observações práticas e filosóficas, em russo e em inglês.“Se o seu corpo não diz nada, então ele mata sua voz”, ele instruiu os cantores que nunca viu ou ouviu em pessoa. “O público tem de compreender tudo o que vê no palco sem precisar ler os títulos”, afirmou. “Não percam a chance de mostrar a sensação com que vocês deixam o palco”, acrescentou, referindo-se a uma saída que não o satisfez. “Não saiam apressados”.

Dirigir uma ópera é complexo mesmo em circunstâncias normais e as que envolvem Cosí Fan Tutte têm muito mais intriga e espionagem. Usando um servidor online, Kulagin envia um vídeo de cada ensaio para Dmitri Kharitonov, o advogado de Serebrennikov em Moscou e uma das poucas pessoas que podem ter um contato direto com ele. Kharinotov copia o arquivo em um pen drive e entrega ao diretor, que o assiste e grava depois sua resposta (ele está impedido de usar internet, mas tem acesso a um computador). O advogado retorna mais tarde para buscar o dispositivo com a mensagem de vídeo e o envia para Zurique. “Kirill tinha esperança de que tudo se resolvesse e o diretor iria a Zurique trabalhar nesta ópera. Infelizmente isto não acabou”, disse o advogado.

Apesar do que Kharitonov descreveu como “trauma” de Serebrennikov de não poder participar em pessoa, o trabalho o tem ajudado “a suportar esses meses difíceis”, afirmou.

Kharitonov diz que não sabe quantas vezes entregou pen drives para o diretor preso, calculando que foram vários por semana desde que os ensaios começaram em 20 de setembro. “Esta é uma produção complicada”, disse Beate Breidenbach, o dramaturgo de Così Fan Tutte, “e seria mesmo sem esse drama vivido nos bastidores”.

A obra de 1790 de Mozart é o mais famoso exemplo de ópera focada na troca de parceiros. Sob a orientação de um filósofo cínico, dois jovens testam a fidelidade de suas noivas. As duas irmãs, orientadas por uma criada mundana, vencem seus escrúpulos morais e no final traem seus respectivos noivos. A produção de Zurique é contemporânea, com um cenário em dois níveis que inclui uma sala de musculação e um estúdio de ioga; os protagonistas conversam pelo celular e tiram selfies.

Enquanto a mensagem por vídeo de Serebrennikov era transmitida, Rebeca Olvera, soprano que interpreta a criada Despina, e Frédéric Antoun, o tenor que faz o papel de um dos noivos, ficavam exasperados. Kulagin e o tradutor Markus Wyler, com frequência faziam uma pausa na transmissão para acrescentar ou explicar alguma coisa. Michael Nagy, o barítono que interpreta o filósofo Don Alfonso fazia anotações.

Serebrennikov foi contratado para Così depois que o diretor artístico da ópera assistiu, admirado, à sua produção de O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, em 2016, na Komische Opera de Berlim. Em maio de 2017, Serebrennikov, que também desenha seus cenários e figurinos, veio a Zurique para apresentar seu conceito da obra de Mozart. Alguns meses depois foi colocado sob prisão domiciliar, mas a companhia se ateve às suas ideias. 

Seria um pouco de exagero chamar Serebrennikov de artista dissidente, mas suas peças e filmes tocam em temas sensíveis na sociedade russa, incluindo o antissemitismo, o fanatismo religioso e sexismo. Mas ele tem demonstrado enfaticamente que não vai silenciar. Durante seu confinamento tem sido inusitadamente profícuo: nos últimos 14 meses dirigiu um balé sobre Rudolf Nureyev para o Bolshoi em Moscou, e um filme, Summer, sobre o rock ‘n’ roll na União Soviética, que estreou no festival de cinema de Cannes este ano. O Gogol Center, teatro de vanguarda dirigido por ele, também continua atuante.

Um dia depois da chegada dessa recente mensagem do diretor russo, Kulagin dirigiu um ensaio da orquestra no auditório da casa de ópera de Zurique com o entusiasmo de um acrobata, saltando no palco para corrigir o gesto de um cantor e mover adereços. Quando a música terminou, o elenco e a equipe conversavam numa babel de línguas: inglês, russo, alemão e suíço-alemão. “É uma situação extraordinária para todos nós”, disse Cornelius Meister, o regente. “Mas sabemos que esta é uma oportunidade de participar de algo que as pessoas falarão a respeito nos próximos anos”.

Se Serebrennikov conseguirá trabalhar de maneira mais tradicional no futuro dependerá do tribunal em Moscou. Seu julgamento está marcado para sete de novembro. Por enquanto, os convites para trabalhos futuros continuam surgindo. / Tradução de Terezinha Martino 

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