Discurso para firmar liderança, sob pressão

O grito de 'mentiroso' do republicano hostil não calou a mensagem de um presidente que precisará mandar

Adam Nagourney*,

14 de setembro de 2009 | 08h45

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Em certo sentido, o discurso do presidente Barack Obama na sessão conjunta do Congresso, na noite de quarta-feira, foi o que parecia ser - uma tentativa de angariar votos do Congresso para a iniciativa mais importante da sua presidência: a reforma da saúde, que, há 65 anos, segundo Obama, Washington vem evitando.

 

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Mas o discurso visava a algo mais que a reforma da saúde.

 

Foi uma tentativa desse presidente recém-empossado e ainda não testado de mostrar autoridade a um Congresso que começou a questionar sua coragem, de firmar-se como um líder político forte assim como foi um candidato político forte e de mostrar que não é - para usar o jargão atual - outro Jimmy Carter: professoral, distante, um microadministrador, que talvez não estivesse pronto para ser o principal executivo da nação.

 

Uma coisa é criar e explorar um movimento político, como fez Obama quando conquistou a Casa Branca. Outra, completamente diferente, é levar um país irrequieto e um Congresso politicamente dividido a tomar decisões difíceis que fatalmente produzirão vencedores e perdedores.

 

"A questão é exatamente essa", disse Joe Trippi, consultor democrata. "Sabemos que ele pode ser um candidato; que pode até ter as ideias corretas. Agora, ele precisa ir lá e fazer com que alguma coisa grande aconteça neste país: conseguir que muitos americanos mudem de ideia ou que membros do Congresso apoiem seu programa, mesmo que isso signifique pôr em risco sua sobrevivência política. Conseguirá ele levar as pessoas a fazer esse tipo de coisa?"

 

Durante cerca de uma hora Obama falou com energia e entusiasmo, parando apenas para esperar que cessassem os repetidos aplausos do público, enquanto pronunciava sua mais clara e mais concisa defesa de uma questão complexa que desafiou reiteradamente sua grande capacidade de comunicação.

 

Ele conseguiu imbuir a argumentação de uma grande urgência econômica e emocional - em especial quando invocou a memória do senador Edward M. Kennedy, recentemente falecido, enquanto Vicki, a viúva do senador, assistia entre o público - sem estender-se demasiado em excessivos detalhes.

 

Evidentemente, Obama havia decidido dirigir-se mais ao povo americano que assistia pela televisão do que aos legisladores que estavam a sua frente na Câmara. Na noite de quarta, pelo menos, o Congresso fez parte de um teatro político, tanto pelos constantes aplausos dos colegas democratas quanto pelo grito de "mentiroso" de um detrator, quando o presidente afirmou que nenhuma parte do seu projeto previa a cobertura da assistência médica para os imigrantes ilegais.

 

Levará algum tempo para sabermos se isso funcionará. O presidente Bill Clinton fez um discurso igualmente bem recebido, sobre esse mesmo tema, na Câmara, há 16 anos, para um público em que se encontravam muitas das mesmas pessoas, entre elas sua mulher, Hillary Rodham Clinton, então autora de um ambicioso plano de saúde e hoje secretária de Estado.

 

Segundo Matthew Dowd, um ex-assessor do presidente George W. Bush, a estratégia de Obama não deverá funcionar, a não ser que ele mexa no plano, desafiando os democratas e apelando para os republicanos. "Você não pode vender ao país algo que ele não quer", afirmou.

 

Mas há uma diferença fundamental entre Clinton, em 1993, e Obama hoje. Para Clinton, era o começo do processo, enquanto Obama estava anunciando o que espera venha a ser o fim do jogo, dado que quatro comitês do Congresso já devolveram os projetos ao Legislativo depois da revisão.

 

Consciente da atual atmosfera política, o presidente usou seu discurso para deixar um pouco de lado outro aspecto que definiu sua candidatura, a promessa de transcender o partidarismo em Washington. Ele fez gestos para todo seu público - abraçou uma ideia do senador John McCain, do Arizona, seu adversário republicano na campanha presidencial de 2008; endossou a fixação de certos limites à negligência médica que os republicanos há muito defendem.

 

Mas nesta altura, se Obama tiver a sorte de conseguir mais um ou dois votos republicanos no Congresso estes serão considerados em grande parte, por republicanos e democratas, um esforço da Casa Branca para conseguir isolar o governo das críticas de que estaria querendo bloquear um projeto de lei de acordo com suas próprias condições. Para a Casa Branca, um dos acontecimentos mais preocupantes dos últimos meses foi a redução do apoio ao presidente - e a seu plano de saúde - dos eleitores independentes.

 

Mas quando Obama falou de um plano que "incorpora ideias de muitas pessoas que estão presentes nesta sala esta noite - democratas e republicanos" - usou a dura linguagem do confronto, sugerindo que a Casa Branca procurará mostrar que os republicanos são recalcitrantes e desafiam o curso da história.

 

"Agora, saibam que não perderei tempo com os que calcularam que matar este programa é uma política mais acertada do que melhorá-lo", afirmou.

 

Obama se mostra mais empenhado quando submetido a pressões - tipicamente depois de um período de falta de perspectiva - e foi com certeza esse o contexto do seu discurso na noite de quarta-feira. Várias vezes, durante sua carreira, ele se mostrou à altura da situação, como no discurso em um jantar dos democratas de Iowa, em novembro de 2007, que o pôs no caminho da vitória naquele Estado; no pronunciamento a respeito de raça que acalmou a controvérsia sobre as observações de cunho racial do seu antigo pastor, o reverendo Jeremiah Wright; e até mesmo no discurso para os democratas na convenção de 2004 em Boston que o elevou à fama.

 

Mas em muitos aspectos, enquanto Obama se esforça para adaptar-se da situação de candidato à de governante, a batalha que ele tenta conduzir para o desfecho mais bem-sucedido será talvez seu teste mais difícil. Nos seis primeiros meses em Washington, Obama era impulsionado pela excitação da eleição, pela frenética adrenalina necessária à condução da crise financeira que lhe deu as boas-vindas na presidência e pela própria popularidade.

 

Mas como as pesquisas de opinião sugerem que tudo isso começa a desaparecer - e os republicanos procuram se reagrupar - , Obama agora terá de mostrar que a força da liderança que ele exibiu como candidato pode ser transferida para o ofício da presidência.

 

Adam Nagourney é analista político do The New York Times em Washington

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