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DNA da listra

Ficção transforma animais perigosos como leões e tigres em seres dóceis e simpáticos

José de Souza Martins, O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2014 | 16h00

De quem é a culpa? Já começou a caça ao responsável pelo acidente entre o tigre Hu e o menino de 11 anos de idade que, embora advertido, mexeu com ele no Zoológico de Cascavel. O menino foi atacado, ferido e teve o braço direito amputado na altura do ombro. O garoto imprudente foi o único que teve o bom senso de defender o tigre prisioneiro, pedindo que não fosse sacrificado.

Muitos pais educam os filhos para serem adultos precoces, mais valentes do que uma criança deve ser. É inútil ser um valentão que não sabe seguir regras de prudência em relação ao perigo e ao que é perigoso. Outros querem que seus filhos sejam gênios antes de ser crianças. Mas será essa criança um falso gênio se não souber jogar fubeca, brincar de roda, jogar bola.

O episódio reflete o que é próprio do sociologicamente complicado e fascinante mundo dos relacionamentos entre gente e bicho. Mesmo nas sociedades mais urbanizadas e mais distantes do modo de vida rural e agrícola a importância dos animais cresceu na vida das pessoas. Há um decisivo papel afetivo dos bichos de estimação na vida de crianças, especialmente as solitárias, as órfãs e as acolhidas em abrigos. Não só crianças. Também idosos, abrigados em instituições, conseguem se reerguer do eventual desamparo adotando um animal de estimação. A companhia de animais de estimação tem surpreendentes efeitos terapêuticos em pessoas, de todas as idades, que se sentem desprotegidas e abandonadas. 

Há também o efeito reverso de pessoas que sofrem porque privadas da companhia dos animais que estimam. Nem sempre funcionários públicos obrigados a promover essa separação conseguem compreender a função afetiva do animal de estimação. Antes da implosão de alguns edifícios da Penitenciária do Estado, em São Paulo, fiz duas excursões pedagógicas com meus alunos da USP ao local. Tanto para fotografar grafitagens, escritos e objetos abandonados quanto para um exercício de compreensão sociológica das mensagens contidas na diversidade de evidências da presença dos que se foram. Chamou a atenção de todos o número de gatos abandonados. Muitos presos tinham gatos de estimação como único elo com o mundo dos sentimentos propriamente humanos. Removidos os presos, as autoridades não permitiram que os levassem consigo.

A mesma dolorosa situação tem ocorrido nas expedições dos fiscais do Ministério do Trabalho aos locais de ocorrência da escravidão por dívida, especialmente na região amazônica. Localizadas as vítimas em acampamentos na mata, havendo as que têm consigo a família, são recolhidas e reconduzidas a seus lugares de origem. Na remoção, são os fiscais proibidos de embarcarem os animais que na roça toda criança tem, apesar do desespero, do choro e dos apelos. Abandonados, morrerão ou de fome ou atacados por outros animais. E as crianças sabem disso.

Animais de estimação passaram a fazer parte da própria estrutura social, humanizados por seus donos. O imaginário do cinema e das histórias em quadrinhos transformou bichos até perigosos como leões, ursos, cobras e tigres em seres dóceis e simpáticos. O menino de Cascavel, pelo comportamento que teve com o leão, que acariciou e tentou ter com o tigre, como se fossem animais domésticos e de brincadeiras, mostrou que assimilara essas inocentes e perigosas ilusões. O testemunho dos circunstantes indica isso com clareza. A própria existência dos zoológicos faz parte dessa cultura de animais humanizados.

Aliás, não deixa de ser interessante imaginar e até verificar como é que os animais dos zoológicos veem os humanos que os visitam. Fui certa vez ao zoológico de São Paulo com minhas filhas ainda pequenas. Admirávamos o gorila que, solitário no fundo de seu imenso terreno sem vegetação, e bem longe, parecia olhar admirado para os visitantes. A uma certa distância de nós e bem encostadas à cerca, uma senhora bem vestida, a chamada “perua”, exageradamente vistosa e espalhafatosa, fazia em voz alta comentários hilariantes sobre o animal para as duas filhas pequenas. Apontava para o gorila, destacava-lhe a feiura e dava estridentes gargalhadas. Lá de longe o gorila olhava, já agora fixando nela a atenção. De repente, disparou em sua direção. Com um movimento rápido de braço apanhou no meio do terreno um punhado de fezes e com o mesmo movimento atirou-as na mulher. Foi certeiro. Sem dúvida, aquele pobre e solitário gorila tinha se tornado gente. 

O homem é um animal, como os outros animais, com a diferença de que é um animal racional, explicava d. Olga, minha dedicada professora do segundo ano primário. Naquela época, isso tinha sentido. Lembro-me bem de que, durante a ditadura militar, um dos presos políticos, submetido a tortura, conseguiu enviar à Sociedade Protetora dos Animais uma petição em que pedia a proteção da entidade. Sendo ele da espécie Homo sapiens, da ordem dos primatas, da classe dos mamíferos e do reino animal, reclamava o direito de ser tratado ao menos como animal, já que não o era como ser humano. 

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José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, Doutor Honoris Causa da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e autor, entre outros, de 'A sociabilidade do homem simples' (Contexto)

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