DNA mestiço e currículo global

Num país que vem perdendo a batalha mundial por corações e mentes, a cor da política pode mudar

Mac Margolis*, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2008 | 23h28

Convenhamos, Barack Obama não tem queixo de vidro. Não foram poucos os que apostaram que o jovem senador iria à lona após o destempero de seu pastor, Jeremiah Wright. Afinal, as exortações do reverendo da Trinity United Church of Christ a seu rebanho negro - duas pérolas: "Estados Unidos da Ku Klux Klan", e a afirmação de que o governo inventou a epidemia de aids para acabar com a raça negra - seriam um golpe mortal até para o mais calejado dos candidatos, para não falar do novato Obambi, como foi apelidado. Era tudo que o celebrado democrata, com sua mensagem à la Benetton, de paz, união e amor, condenava. Será que o feitiço virou contra o feiticeiro? Talvez não. Em um discurso comovente semana passada, na Filadélfia, Obama respondeu à altura. Outro candidato certamente teria fugido do tema. Afinal, a "questão racial" é a areia movediça da política americana: quanto mais se mexe nela, mais se compromete. Obama, não. Ignorando os conselhos de seus marqueteiros, convocou todos para refletirem sobre as "complexidades de raça que este país ainda não conseguiu resolver", admitindo ainda que "raça é uma questão que a nação não pode se dar ao luxo de ignorar neste momento". Exímio malabarista, censurou o pastor sem renegá-lo, talvez por condescendência para com o homem que celebrou seu casamento, batizou suas filhas e até o levou a redescobrir o cristianismo - mas também porque na missa de Wright diz ter ouvido ecos dos anseios e demônios que ainda assombram boa parte das comunidades negra e branca americanas. Em vez de traidor, preferiu definir o pastor como um querido "velho tio", aquele que toda família tem e que vez por outra arrota idéias inconvenientes. Assim, cortar relações com Wright seria como renegar sua avó branca que confessava ter medo ao cruzar com um negro na rua. Esse argumento não convenceu todos. (Como igualar o preconceito privado de sua avó com um pastor cuspindo cólera do púlpito? E por que só agora criticar publicamente um sermão a que assistiu calado há 20 anos?) Mas, como tudo que emana do palanque de Obama, talvez o mais brilhante orador público desde Martin Luther King ou John F. Kennedy, seu emocionado pronunciamento foi aplaudidíssimo. "Obama é a nova política", escreveu o conceituado colunista William Greider. "Um dos maiores discursos em toda a História", vibrou Sally Quinn, da rede MSNBC, recuando depois para dizer que foi apenas "o melhor dos últimos 45 anos". Só que, entre suspiros e loas, havia inquietações. Afinal, até então a ascensão espetacular de Obama, que lidera a corrida para a indicação do Partido Democrata, lotando ginásios e auditórios como um astro do rock, não parecia senão uma eloqüente recusa à velha política de ódio e medo racial. Boa parte dos americanos parecia se render a seu mantra de campanha, de que "não existe uma América branca, uma América negra, uma América asiática ou uma América hispânica: o que existe são os Estados Unidos da América". Para os mais empolgados, nascia uma nova política, até uma nova sociedade, um país não apenas mais tolerante, mas "pós-racial". O encanto rompeu fronteiras, se espalhando de Bollywood ao Brasil. Obama representa "um passo adiante no processo civilizatório, um tijolo na construção da humanidade em que cor e raça não representem nada", entusiasmou-se Ali Kamel, numa coluna no mês passado em O Globo. Será? Do terrorismo internacional ao tombo da maior economia do mundo, a campanha americana está recheada de temas espinhosos. Mas, para surpresa de muitos, a questão racial é que virou a polêmica maior. Como um monstro do cinema trash, o espectro da clivagem racial se recusa a morrer. A sensibilidade ao tom da pele é tamanha que vez por outra as ponderações da mídia e até dos mais gabaritados analistas provocam tremores. Poucos dias antes do caso do sermão de Wright, foi a vez de Geraldine Ferraro, aliada de Hillary e ex-cacique do Partido Democrata, causar alvoroço ao afirmar que "se Obama fosse um homem branco, não estaria na posição em que está hoje". O curioso é que essas tensões estão mais expostas justamente entre os democratas, o consagrado partido da "inclusão" americana. A julgar pelas urnas, seu eleitorado está rachado como nunca pelas linhas clássicas de cor, classe e sexo, como aponta com maestria o cientista político Jay Cost, analista de campanha do site RealClearPolitics . Nas prévias, Hillary Clinton tem conseguido ampla vantagem entre os brancos nos Estados do sul (Mississippi), onde o eleitorado negro é amplo, enquanto Obama ganha de goleada entre os negros. Em Estados onde há poucos negros (Wisconsin, Ohio) e - por extensão - pouca tensão racial, a divisão é entre os sexos: mulheres brancas preferem Hillary e os homens, Obama. Nacionalmente, Hillary leva vantagem entre os latinos e operários (com renda abaixo de US$ 50 mil ao ano), enquanto Obama leva o voto dos mais ricos, sejam negros ou brancos. A importante exceção parece ser os jovens, que apóiam majoritariamente Obama.Nada mais velho para o país das leis de Jim Crow, que enxergou numa gota de sangue negra a receita de partilha para uma nação inteira. Mas há, sim, uma novidade nessa campanha conturbada. Não é a suposta irrelevância da questão racial, ou que os EUA tenham finalmente se tornado um país daltônico. Ao contrário, os americanos, talvez pela primeira vez, estão encarando a identidade racial não simplesmente como uma divisória da vida nacional ou um trampolim para reivindicações (cotas raciais nas faculdades, por exemplo), mas sim como um poderoso ativo político, quase uma virtude. Não é segredo nenhum que, após meia década de unilateralismo e uma guerra aparentemente sem desfecho, os Estados Unidos precisem de uma nova cara, uma nova "marca", como escreveu Andrew Sullivan, articulista de The New York Observer. Foi-se a boa vontade global e o fantástico capital político que o governo Bush acumulou logo após os ataques do 11 de Setembro. "Hoje somos todos americanos", disse à época o editor de Le Monde, Jean Marie Colambini. Sete anos depois, é mais provável ouvir um sonoro "todos somos antiamericanos". É claro que Obama, sozinho, não vai reverter esse rancor da noite para o dia. Nem todos os democratas e republicanos juntos o poderiam. Mas, para um país que está perdendo a batalha por corações e mentes da parcela do planeta que ainda se equilibra entre o clamor da jihad e a soberba da hiperpotência, a ascensão de um líder político com o nome de Barack Hussein Obama, com DNA mestiço e currículo global, é no mínimo motivo para se parar e pensar. Talvez sem querer, Ferraro tivesse razão. Até nos Estados Unidos, a cor da política pode mudar. * Mac Margolis é o correspondente no Brasil da revista NewsweekTERÇA, 18 DE MARÇOObama na berlinda Barack Obama diz que é hora de os EUA deixarem para trás "velhas feridas raciais", referindo-se a declarações do pastor de sua igreja, Jeremiah Wright, de que o país é racista. Pesquisa Gallup deu 49% a Hillary Clinton e 42% a Obama na corrida democrata.

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