Joel Maia
Joel Maia

Do Descobrimento a Leila Diniz: a história do sexo no Brasil

Livro narra episódios saborosos sobre o tema que parece não querer sair do imaginário do País

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 16h00

Nunca antes na história desse País o vocabulário político esteve tão sexualizado. Já tivemos uma ministra preocupada com a paleta de cores no mundo da moda infantil; um presidente perguntando aos seus seguidores no Twitter o que era “golden shower”; o Prefeito do Rio de Janeiro mandando lacrar um beijo de gibi e, mais recentemente, um vereador carioca dizendo que o atual governo não investe em pesquisas que “ensinam a queimar a rosca sem sentir dor”.

É (bem) provável que a obra do escritor Oscar Wilde não figure entre as preferidas do presidente Jair Bolsonaro. Mas, talvez, inconscientemente, políticos como ele, de viés mais conservador, sejam aqueles que melhor compreenderam um dos aforismos clássicos do autor: “Tudo nesse mundo é sobre sexo, exceto o sexo. Sexo é sobre poder”.

Então, se tudo nesse governo parece versar sobre sexo, urge debruçar-se (pode levar pra cama, inclusive) sobre o livro Prazeres e Pecados do Sexo na História do Brasil, escrito pelo sociólogo e mestre em Filosofia Paulo Sérgio do Carmo. A obra apresenta uma panorama da sexualidade no Brasil desde a nossa descoberta até as atuais discussões sobre gênero. Mesmo sem nenhum caráter explicitamente político, a obra de Carmo nos ajuda a entender a cabeça de quem se diz “imbrochável”, faz piadas com o órgão sexual dos orientais, mas que, eventualmente, também se escandaliza com um filme como o da Bruna Surfistinha.

A pesquisa de Carmo tem como ponto de partida o clima nas naus que trouxeram os primeiros portugueses para o Brasil. Não raro, o sexo dentro das embarcações era uma prática coletiva e violenta (com relações que se realizavam pela força bruta ou pela hierarquia). Neste contexto, os mais assediados eram os órfãos de 9 a 16 anos. As poucas mulheres a bordo também estavam sujeitas ao estupro.

A sexualidade também foi uma questão relevante nas cartas que os navegadores escreveram para a coroa portuguesa contando sobre as maravilhas da terra recém descoberta. Em uma de suas missivas, Américo Vespúcio relatou: “E, ainda que andem nuas, as partes pudendas são tão decorosamente colocadas entre as pernas que não se pode vê-las (...) mostram-se muito desejosas de unir-se a nós. A vida que levam, de todo voluptuosa, considero epicurista”.

Neste contexto, o apetite sexual dos colonizadores encontrou na cultura sexual dos índios um campo fértil (literalmente). Nascia, assim, através de comportamentos sexuais tão díspares nossos primeiros traços de identidade nacional – bem como milhares de mamelucos (mistura de índios com brancos).

Ao avançar o relógio da história, o livro mostra como o sexo também foi um ponto de tensão no período da escravidão. O autor foi buscar em Gilberto Freyre uma das histórias mais emblemáticas. Em alguns casos, os senhores de casas-grandes nutriam tanto ciúmes por suas escravas/ amantes que chegavam a matar seus próprios filhos para evitar que eles também se relacionassem com elas. “Um desses patriarcas, Pedro Vieira, já avô, ao descobrir que o filho mantinha relações com a mucama de sua predileção, mandou o irmão mais velho matá-lo”.

O trabalho de Carmo é estritamente factual, mas no mero ato de descrever a sexualidade em nossos períodos mais emblemáticos, ele vai revelando uma realidade construída sobre fantasias, encantamentos, violências, cinismos e licenciosidades ( e também “prazeres e pecados” – como o próprio título da obra entrega).

O livro ganha em sabor quando se aproxima de períodos mais recentes e dos personagens mais reconhecíveis. Impossível não se deter no relato sobre a primeira vez do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues – que foi ao mangue (região de prostituição) com o coração pulsante e pagou a moça sem mesmo tirar a própria roupa. Ou ainda sorrir ao ler sobre o recato do poeta Carlos Drummond de Andrade – que ao pegar o bonde sentava-se estrategicamente perto da porta com a intenção de observar as moças erguerem suas saias. O máximo de erotismo alcançado pelo poeta era ver um delicado calcanhar feminino.

Em outro momento, o escritor Luis Fernando Verissimo narra como era namorar nos anos 50. “Negociava-se cada palmo. – Pode, mas só até aqui. – Está bem. – Jura? –Juro. –Você passou! Você mentiu! – Me distraí. Na verdade, não mentíamos para vocês, mentíamos por vocês.” O cantor Erasmo Carlos, também relembrando a juventude nos anos 50, recorda das disputas pelos exemplares das revistinhas de Carlos Zéfiro (o mais perto que eles chegavam das tais revistinhas de sacanagem).

A liberação sexual (ainda que do ponto de vista público) caminhou de forma lenta. O livro mostra que no carnaval de 1966 jornais noticiavam que foliões eram retirados dos salões por não respeitarem a “proibição do beijo”. Um depoimento do colunista Ricardo Amaral, destacado no livro, mostra que “nos anos 60 não era chique trepar com a namorada”.

O controle da sexualidade como forma de determinação do destino social da mulher também é abordada com destaque. Mulheres como Pagu, Tarsila do Amaral, Norma Bengell, Vera Fischer e, claro, Leila Diniz.

Sobre Leila, o livro traz o trecho de uma carta, escrita ao Jornal do Brasil, em que uma leitora comenta a famosa passagem em que a atriz foi à praia de biquíni durante a gravidez. “Santo Deus onde iremos parar com tanta falta de pudor: é o fim do mundo! Não sou puritana, ao contrário, mas, convenhamos, o estado de gravidez merece mais respeito(...).”

Ainda sobre puritanismo, segundo o livro, a cantora Wanderléa passou por uma situação complicada ao ver uma mãe impedindo que as filhas se aproximassem dela e, mais do que isso, cuspisse no chão em sinal de repulsa e desaprovação ao comportamento da artista.

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