Documentário faz justiça à alma contemporânea de Cláudio Santoro

Documentário faz justiça à alma contemporânea de Cláudio Santoro

Maestro brasileiro completaria centenário em 2019 e sua obra começa a ser redescoberta

João Marcos Coelho*, Especial para O Estado de S. Paulo

10 Março 2018 | 16h00

Documentários sobre grandes artistas com frequência empilham depoimentos e mostram pouco do que de fato interessa: sua arte. A dificuldade cresce quando o documentado é um dos dois maiores compositores brasileiros do século 20 e permanece praticamente desconhecido, 29 anos depois de sua morte, em 27 de março de 1989, quando um enfarte num ensaio da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília fulminou no pódio o amazonense Cláudio Santoro. Ele estava com 69 anos, e acumulava mais de 600 obras, incluindo 14 sinfonias, 7 quartetos de cordas, música de câmara, concertos, música eletroacústica e eletrônica, e até parceria com Vinicius de Moraes (nas dez Canções de Amor sobre poemas do parceiro, compostas em Paris em 1958, banzo de Santoro, esperando sua amada russa, Gia, que conhecera em Moscou no ano anterior, quando regeu sua Sinfonia no. 5 no II Congresso de Compositores – ela jamais chegou a Paris).

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Santoro – O Homem  e sua Música, em cartaz nos cinemas, dirigido por John Howard Szerman, 71 anos, inglês que há 23 anos mora em Brasília e há décadas está envolvido com temática brasileira, entrega o que promete: mostra sua música por inteiro e ressalta dois fatos que o diferenciam. 

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Em primeiro lugar, sua espinha dorsal não se dobrava. A partir da visita à URSS (na trupe estava, entre outros, Dias Gomes), sofreu por aqui fortes perseguições por sua opção política até sua morte. Dois exemplos: em 1957 organizou a orquestra de câmara da Rádio MEC mas ganhava o equivalente a 10% do que recebia cada um de seus músicos (demitiu-se; e aceitou o convite para reger suas obras na URSS). Ao lado de Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília, criou em 1962 o Departamento de Música, de onde demitiu-se em 1964, solidário pela demissão de 230 de seus 280 professores.

De outro lado, o doc deixa clara sua atitude diante da criação artística que lembra a do trompetista de jazz Miles Davis. Assim como este se reinventava a cada década, Santoro experimentou todas as linguagens e estéticas do caleidoscópico ideário da música de invenção no século 20. 

Quando Hanns-Joachim Koellreutter chegou ao Brasil no finalzinho dos anos 1930, foi flautista da Orquestra Sinfônica Brasileira; sentava-se pouco atrás do violinista Cláudio Santoro. “Eles trocavam figurinhas”, diz Rodolfo Coelho de Souza, compositor e professor titular em música da Universidade de São Paulo, que foi seu aluno na década de 1970. No doc, o compositor Edino Krieger, 89 anos, diz que  Santoro é que pediu para Koellreutter lhe ensinar música dodecafônica. Este, que não conhecia bem a música serial instituída nos anos 1920 por Arnold Schoenberg, estudou junto com Santoro esta técnica, para poder passá-la aos demais integrantes do Movimento Música Viva, como Eunice Katunda, Guerra-Peixe – e o próprio Krieger. 

Na sequência, “e por motivos ideológicos”, como ele mesmo acentuou, Santoro, já comunista convicto (como, aliás, Eunice Katunda, outra desconhecida que merece ser melhor conhecida), enveredou pelo nacionalismo à la russe, empapado de realismo socialista: em 1942 compôs “Impressões de uma usina de aço” que Stalin, se tiver ouvido, deve ter adorado (Vargas, que também apostou no aço com Volta Redonda, também deve ter aplaudido). Mergulhou no nosso folclore. Esta é a parte da sua obra mais conhecida. Pena, porque Santoro continuou se reinventando; voltou à música serial nos anos 1970. E andou por estúdios de música eletrônica na Alemanha. Tudo mostrado em detalhe pelo doc.

Coelho de Souza diz ao Estado que “àquela altura (1970), ele abdicara do realismo socialista e voltara a escrever música serial e em seguida estocástica numa técnica muito semelhante à do polonês Lutoslavski. Santoro tem uma produção serial enorme, inicialmente dodecafônica estrita e depois, nos anos 60, próxima ao serialismo integral de Boulez”.

Em seus últimos vinte anos de criação musical, experimentou até com instalações, conta Coelho de Souza: “Ele andou se dedicando à gravura (ou aquarelas?) e que eram expostas em instalações sonoras. Algumas dessas obras visuais estavam nas paredes da casa dele em Brasília quando eu a frequentei no final da década de 70. Mas ele logo abandonou esse interesse. Foi algo transitório dentro do espectro de uma cabeça inquieta”. Ele tem, afinal, uma alma contemporânea – e dela, infelizmente, ainda conhecemos pouco.

Seu centenário de nascimento acontecerá em 2019. Sabe-se que a Filarmônica de Minas Gerais iniciará a gravação de suas 14 sinfonias. É urgente ultrapassarmos o conhecimento raso, insignificante, de sua obra. O documentário dá uma boa largada. Afinal, Coelho de Souza não exagera ao afirmar que “as sinfonias de Santoro são do porte e da quantidade e da quantidade das de Shostakovich. Se Santoro fosse norte-americano, eles estariam tocando Santoro e não Shostakovich nas temporadas de concerto de Nova York, Chicago, etc. E os sete quartetos de cordas? E uma quantidade enorme de peças de música de câmera? E as canções, ópera, balé, etc.? E a música de filme, premiada, competente no gênero? Quem esteve sempre sintonizado com as tendências mais progressistas, dodecafonismo, realismo socialista, aleatorismo, composição com conjuntos atonais, música eletroacústica, etc., etc.,? Considerando isso tudo, e não é porque fui aluno dele, o século 20 teve dois compositores de nível internacional no Brasil: Villa-Lobos e Santoro. Abaixo deles vem os Marlos da vida, um Almeida Prado na obra para piano, um Gilberto Mendes na obra coral, mas grandes grandes mesmo para mim são só esses dois”. 

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