Fabio Motta/Estadão - 27/05/2008
Fabio Motta/Estadão - 27/05/2008

Dois filmes abordam veias abertas da América Latina na Amazônia e no Haiti

'Segredos de Putumayo', de Aurélio Michiles, e 'O Que Há em Ti', de Carlos Adriano, são documentários que corroboram o grande momento do cinema brasileiro

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2020 | 16h00

O lockdown do circuito exibidor imposto pela pandemia não impediu que mais dois filmes viessem ratificar, em espaços alternativos, a suspeita de que o cinema brasileiro vive atualmente a fase mais fértil e exuberante de sua história. Ambos documentários, ideologicamente parelhos; ambos em preto e branco e refinadamente concebidos fora dos figurinos tradicionais; ambos sobre pretos e brancos, explorados e exploradores; ambos sobre duas aveias abertas da América Latina, que nunca cessaram de verter sangue. 

Uma na Amazônia: Segredos do Putumayo, de Aurélio Michiles. Outra no Caribe: O Que Há em Ti, de Carlos Adriano.

Lançado no Festival É Tudo Verdade, Segredos do Putumayo dura a metade de um blockbuster (83 minutos) e reaviva as iniquidades contidas no diário do irlandês Roger Caseman, cônsul-geral do Reino Unido na Amazônia, no começo do século passado. Humanista empenhado no combate ao desrespeito aos direitos humano, Casement denunciou as atrocidades cometidas contra negros na África (Congo), sob o patrocínio do rei belga Leopoldo 2º, e contra os indígenas Putumayo por peruanos brancos a serviço de uma empresa europeia que monopolizava a extração de borracha no Alto Amazonas. 

Em imagens fortes mas nada adjetivantes e paradoxalmente belas sem estetizar o horror que reproduzem, Michiles recupera, com inspirada sobriedade e controlada indignação, a memória de um holocausto de dimensões amazônicas: 300 mil nativos foram escravizados e mortos para o progresso da indústria de pneus e demais derivados do látex. É um dos filmes mais impactantes sobre os horrores do colonialismo já realizados no Brasil. 

Atração do 9º Cinecipó (Festival de Filme Insurgente), em Belo Horizonte, O Que Há em Ti dá o seu recado em apenas 16 minutos. O título é uma paronomásia inspirada na canção de Caetano e Gil sobre o que nos aproxima e distingue do Haiti, que, como sabemos, é, e ao mesmo tempo não é, aqui. 

Carlos Adriano é um experimentalista sui-generis, um arqueólogo de imagens, um ourives audiovisual movido pela mais ardente paixão cinefílica. Não faz filmes de prosa, mas curtos e médios cinepoemas, juntando e justapondo fragmentos de criações alheias de forma incessantemente criativa e provocativa, retrabalhando elementos sonoros e visuais que produzem novos sentidos e novas emoções—e com esses ready-mades vem compondo, há mais de uma década, uma espécie de autocinebiografia plena de afeto e alumbramento. 

Em suas mãos, um suingado pas de deux de Fred Astaire e Ginger Rogers dos anos 1930 desgarra-se de uma canção de Jerome Kern e Dorothy Fields e encaixa-se num anômalo fado de Pedro da Silva Martins, na voz de Ana Moura; 13 fotogramas de imagens primitivas do mar, no Brasil e no exterior, são embaladas por La Mer, de Charles Trenet, nas versões que ganhou mundo afora. O efeito é hipnótico.

Epígono de uma linhagem experimentalista que passa por Jonas Mekas, Ken Jacobs, Bruce Conner e Hollis Hampton, Adriano, fiel à sua índole modernista, não resiste a um jogo de palavras. Seus cinepoemas, apesar de lacônicos (Sem Título, seguido de uma cerquilha e um número), têm subtítulos mais intrigantes que reveladores: La Mer Larme (Mar, lágrima, Mallarmé), A Rotina Terá Seu Enquanto (uma exploração do construtivismo do cineasta japonês Yasujiro Ozu, em seu último filme, A Rotina Tem Seu Encanto). 

Com O Que Há em Ti, seu cinema solitário cede vez a um cinema solidário, mais revoltado que amoroso, sem no entanto mudar seu modus faciendi, sem abrir mão de sua meticulosa e peculiar “estética de atração”. 

A partir do desaforo que um haitiano, até hoje não identificado, jogou na cara de Bolsonaro, na saída do Palácio do Alvorada, em 16 de março deste ano (“Bolsonaro acabou. Você não é presidente mais”), Adriano justapõe cenas reais da violência no Haiti e da catastrófica missão de paz da ONU (Minustah) comandada pelo general Augusto Heleno, entre outros oficiais brasileiros posteriormente também incorporados ao governo verde-oliva de Bolsonaro.  

Numa invasão da rebelada e miserável Cité Soleil, em Porto Príncipe, cerca de 60 pessoas foram mortas por integrantes da Minustah, igualmente acusados de colaborar com as forças de repressão local e causar um epidemia de cólera na cidade. Uma Comissão Internamericana de DIreitos Humanos pediu à ONU que tirasse o comando das tropas das mãos dos generais Heleno e José Elito Carvalho, o que foi efetivado, sem atritos, pelo presidente Lula.

O Haiti aturde o Brasil e o resto do continente desde a Revolução Negra de 1791, quando os haitianos subjugados pelos franceses libertaram-se ao mesmo tempo da escravidão e do colonialismo, sob a liderança do “Napoleão Negro” Toussaint-L’Ouverture. Impressionante figura histórica, o libertador do Haiti virou personagem de Victor Hugo (em Bug-Jargal) e quase ganhou um épico no cinema, dirigido pelo russo Eisenstein e protagonizado pelo ator, cantor e ativista americano Paul Robeson.

Nenhum desses datalhes escapa ao cinepoema de Adriano, ainda enriquecido com imagens recuperadas de um filme de 1974, Le Chemin de la Liberté, de Arnold Antonin, e epigrafado com um trecho do Guesa, poema épico do maranhense Sousândrade, outro que, na segunda metade do século 19, deixou-se seduzir pela força mítica de Bug-Jargal, de Toussaint-l’Ouverture e dos anônimos revolucionários haitianos cujo último avatar, quero crer, é aquele misterioso negro com sotaque que nove meses atrás espinafrou Bolsonaro e ainda o acusou de “espalhar o vírus e matar os brasileiros”. 

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