Yale Center for British Art
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Dois livros analisam a influência dos clássicos em Shakespeare

Como Ovídio, Virgílio, Horácio, Cícero, Plutarco e Sêneca ajudaram o Bardo a compor suas peças imortais

Michael Dirda, Especial para The Washington Post

01 de junho de 2019 | 16h00

Pelos últimos 400 anos, William Shakespeare ocupou uma posição na literatura inglesa mais ou menos análoga à que os grandes autores  da antiguidade latina tiveram na Renascença. Suas peças e personagens, além de incontáveis linhas de inesquecível poesia, impregnaram e moldaram nossa arte e cultura. Sozinho, Shakespeare representa para nós o que Ovídio, Virgílio, Horácio, Cícero, Plutarco e Sêneca significaram para a classe culta na era da rainha Elizabteth I. 

Em How the Classics Made Shakespeare (Como os clássicos forjaram Shakespeare), Jonathan Bate – reitor da Universidade Worcester, Oxford, e acadêmico de grande atuação  – investiga o que se poderia chamar de bases ovidianas, virgilianas, ciceronianas, plutarqueanas e senecanas em muitas obras shakespeareanas que possuem fortes associações clássicas. Em particular, ele volta sempre a Canseiras de Amor em Vão,  Tito Andrônico, A comédia de Erros, Sonho de uma Noite de Verão, Júlio César, Antônio e Cleópatra, Um Conto do Destino e Hamlet, bem como aos poemas narrativos Vênus e Adônis e The Rape of Lucrece (O estupro de Lucrécia).

Qualquer estudo sobre influências clássicas lembra logo algo assustador ou soporífero, mas Bate foge do jargão, tem uma prosa vigorosa e clara, traduz citações em latim e esgrime argumentos fáceis de se acompanhar. O resultado é que How the Classics Made Shakespeare é um roteiro para uma meditação inteligente e para um aprendizado humanístico sensível. Não por acaso, Bate admira críticas históricas elegantes, com o a de E. R. Curtius em Literatura Europeia e Idade Média Latina

Bate parte de uma premissa simples: “Contar histórias era o método de Shakespeare de dar sentido ao mundo, e nenhuma história o fascinava mais que aquelas da Antiguidade clássica”. Ovídio, especialmente, ensinou-lhe que “o que faz a grande arte literária é apaixão humana extrema”. Metamorfoses é, acima de tudo, uma celebração de Eros, do movimen to e da energia – a mudança é a única coisa constante na vida. Mais: como a arte romana da retórica enfatiza o poder das comparações  e exemplos  tirados do passado, assim faz Shakespeare. Num mesmo discurso, Hamlet compara o pai ao titã Hipérion, o tio a um sátiro e a mãe à lacrimosa Niobe, enquanto contrasta seu palavroso e contemplativo eu ao vigor de Hércules. Essa clássica retrospecção impregna totalmente o zeitgeist (conjunto de características de uma época) renascentista: se você quisesse agradar a um comerciante que se aventurava no exterior, você o associaria a Jasão, o líder dos Aragonautas.  

Obsessão erótica, loucura, paganismo versus salvação cristã, horrores da guerra civil, significado simbólico de mágica, sonhos e fantasmas: Bate delineia com brilhantismo a origem clássica de tudo isso e seu remanejamento na obra de Shakespeare. Numa façanha de interpretação, ele argumenta que o fantasma em Hamlet evolui de uma aparição usando armadura vista, por muita gente, para um fantasma puramente imaginário. Existe, conclui Bate, “a transformação de um fantasma senecano clamando por vingança num fantasma católico vindo do purgatório e, no terceiro ato, num fantasma protestante que é  um estado mental, um distúrbio do cérebro”.   

Embora Shakespeare tirasse forças da tradição literária, Bate enfatiza que a visão fundamental de mundo do dramaturgo era irreverente, até mesmo – para usar um termo da moda – disruptiva. Suas mulheres são usualmente mais espertas que seus homens e ele valoriza mais a amizade, a ironia debochada de Falstaff, os prazeres da vida no campo e a cordialidade do que o dever, a religião, a política e o heroísmo na guerra. As pessoas, com toda sua conturbada complexidade moral, importam mais que leis e princípios abstratos. Se tivesse que escolher, Shakespeare penderia para Dido, não para Eneias, e para ele a incandescente paixão entre Antônio e Cléopatra vale mais que a eternidade de Roma. Nas palavras da rainha do Egito, “a eternidadae está em nosso lábios e em nossos olhos”. 

How the Classics Made Shakespeare merece uma acolhida raramente dada a trabalhos acadêmicos. Além de ser eminentemente legível, o livro lança observações e fatos iluminadores a cada página. Entretanto, Jonathan Bate ainda se preocupa com nosso maior escritor: “Continuará Shakespeare a ser um clássico vivo num futuro em que os períodos de atenção serão cada vez mais curtos e a visão mais ampla do passado será diluída pela simultaneidade de dados do mundo digital?”.

Ele está obviamente certo de se sentir inquieto. Entretanto, nós quase certamente continuaremos fascinados, perplexos e enlouquecidos pela questão da “autoria”, que Stuart Kells chama grandiosamente, no subtítulo de Shakespeare Library (A biblioteca de Shakespeare), de “o maior mistério da literatura”. Será que o filho de um luveiro de Stratford realmente escreveu essas peças imortais? Ou o verdadeiro autor seria Christopher Marlowe, Francis Bacon ou Henry Neville, para citar apenas os candidatos mais conhecidos?  

Kells – autor de The Library: A Catalogue of Wonders (A biblioteca: um catálogo de maravilhas) – entra nesse tema espinhoso fazendo uma simples pergunta: que aconteceu com os livros e manuscritos de Shakespeare? Por que nunca nenhum deles apareceu? Desse ponto de partida, ele esmiúça as fantasias bibliográficas em torno de Shakespeare, examina a obra de Ben Johnson, o “amigo-inimigo”do dramaturgo, volta às negligenciadas descobertas feitas no século 19 pelo acadêmico  John Fry e rastreia as carreiras dos falsários William-Henry Ireland e Thomas J. Wise. Kells também localiza em sua Austrália nativa o centro de apoio às alegações de que Henry Neville é o verdadeiro autor.   

Shakespeare Library é inquestionavelmente um livro palpitante, cheio de energia, que entretém quase tanto quanto o abrangente  Shakespeare’s Lives (As vidas de Shakespeare), de S. Schoenbaum, com o qual faz uma espécie de pendant. Num ponto, Kells compara a intensa rivalidade entre George Steevens com o contemporâneo Edmond Malone, no século 18, ao “ciúme normalmente visto entre dois competidores de patinação no gelo”.

No final, Kells decide que o gênio de Shakespeare – seja ele quem for – está em seu dom para “apropriação, revisão e síntese”. E, claro, tinha também um certo jeito com as palavras. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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