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Dois livros analisam o tema do suicídio em diversas culturas

Historiador Georges Minois e escritor Andrew Solomon abordam assunto delicado em suas obras mais recentes

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

16 de fevereiro de 2019 | 16h00

Da década de 1960 em diante, a chamada “história das mentalidades” (ou “das sensibilidades”) deu um banho de loja na historiografia tradicional. Esta, com honrosas exceções, era dócil ao binômio “grandes vultos & eventos carismáticos” (tipo Dom Pedro e o grito do Ipiranga). Isso sem mencionar o reducionismo marxista, segundo o qual a infraestrutura econômica explicava tudinho e não se falava mais nisso. De matriz francesa, orbitando em redor da revista Annales, dos titãs Lucien Febvre e Marc Bloch (morto pela Gestapo durante a ocupação nazista da França), e sob a batuta posterior de Fernand Braudel, a história das sensibilidades incidiu o foco no cotidiano humano e nas autorrepresentações de épocas ou grupos, com uma pegada transdisciplinar. 

O âmbito historiográfico expande-se à beça, sob a alavanca das múltiplas visões de mundo (a Weltanschauung alemã). Como observa Febvre, deveriam existir modos de sentir e pensar que fossem comuns a Cristóvão Colombo e ao mais humilde marinheiro das suas naus. Postulava-se o princípio de Terêncio: “Nada do que é humano me é estranho.” A história das mentalidades vira uma coqueluche editorial, explorando temas como a higiene (Vigarello), o medo (Delameau), a feitiçaria (Robert Mandrou), o estupro (Vigarello), a virilidade (Alain Corbin), a morte (Philippe Ariès) e por aí afora (a infância, a mulher, a festa, a alimentação...). Epistemologicamente, o céu passa a ser não o limite, mas só uma estação – tanto que aflora Uma História do Paraíso, de Jean Delameau. 

Mesmo com um menu tão ecumênico, faltava um prato substancial: aquele que George Minois aponta como “uma ausência”, corrigindo-a nesta História do Suicídio. Minois é membro do ilustre Centre International de Recherches e d’Études Transdiciplinaires e autor de respeitados títulos historiográficos, como a História do Riso e do Escárnio. Uma das chaves para aquela omissão reside na precariedade das fontes. Ao contrário do que acontece com as “mortes naturais”, aquilo que até o século 17 foi nomeado como “homicídio de si mesmo” não constava dos registros paroquiais, pois os suicidas não tinham direito ao sepultamento religioso. Restavam os incompletos arquivos judiciais, na medida em que a morte voluntária era considerada crime (cadáveres de suicidas eram enforcados). Além disso, o silêncio reflete o tabu que estigmatizava aquele que põe fim à própria vida.

O suicídio viola o quinto mandamento: “Não matarás.” Porém, como realça Minois, a morte de Cristo não será um suicídio? Jesus trata do assunto no Evangelho de João: “Minha vida ninguém tira de mim; eu espontaneamente a dou.” Afinal, se Cristo é Deus – e portanto onipotente – só pode morrer pelas próprias mãos. Orígenes, um dos Padres da Igreja, põe os pingos nos is: “Jesus se matou.” E, no entanto, a morte voluntária participa da condição humana: só o homem é capaz de pendurar as chuteiras e pedir para sair. O suicídio de animais não passa de cascata.

A morte voluntária quadricula todas as classes sociais. Na Idade Média ocidental, contudo, os suicídios de colunáveis são raros, dado o paradigma do Catolicismo. Na Antiguidade clássica a conversa fora outra, com inúmeros VIPs suicidas: Safo, Demóstenes, Empédocles, Demócrito, Sócrates, Lucrécio, Sêneca... No mundo grego, cada escola filosófica tem uma posição, com os epicuristas e os estoicos admitindo o suicídio e os pitagóricos o condenando (ainda que o próprio Pitágoras tenha se deixado morrer de fome por estar com o saco cheio da existência). Platão é compreensivo, mas Aristóteles reprova a morte voluntária, classificando-a uma traição às responsabilidades para com a Polis. 

Os Romanos também são flexíveis, e, analisando a velhice, o suicida Sêneca dará uma no cravo e outra na ferradura: “Considero covarde quem morre com medo de sofrer. E considero tolo quem vive para sofrer.” 

No Renascimento, assomam duas penetrantes reflexões sobre o suicídio. Nos Ensaios, Montaigne pesa os prós e os contras: “O sábio vive tanto quanto deve, não tanto quanto pode.” E a natureza nos deu um presentão: “Ela previu uma única entrada para a vida, e cem mil saídas”. Influenciadíssimo pelo gênio de Bordéus, Shakespeare cria o mais agônico enunciado do dilema: “Ser ou não ser, eis a questão. Morrer, dormir, talvez sonhar.”

O neologismo “suicídio” nasce no século 17, espelhando uma benevolência crescente, aprofundada no Iluminismo. O Romantismo, com sua individualidade passional, por um triz não erige o suicídio (com o perdão do trocadilho) na última moda. Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe (cujo protagonista se mata por amor), desencadeou uma onda de mortes voluntárias por toda a Europa, e foi proibido em vários países. Moços e moças deprimidos, mas sem topete para se matar, usavam joias Werther, lenços Werther, luvas Werther. Naquela época, um carinha de 20 anos que continuasse vivo era quase considerado careta e coxinha. 

Talvez a atividade de escritor seja a mais tentada pelo suicídio. Além dos antigos já citados, a lista é impressionante: Kleist, Maupassant, Paul Lafargue, Camilo Castelo Branco, Stefan Zweig, Montherland, Primo Levi, Cesare Pavese, Arthur Koestler, Mishima, Essenin, Maiakovski (que ralhou com Essenin: “Morrer não é difícil/O difícil é a vida e seu ofício” – e depois se matou), Hemingway, Sylvia Plath, David Foster Wallace, e zilhões de etc... Virginia Woolf, antes de se jogar no rio Ouse, deixou um bilhete invejavelmente profissional: “Lamento que esta seja a única experiência que nunca descreverei.”

No século 20, Freud propõe que quando a agressividade não consegue se exprimir contra seu verdadeiro objeto – esta ou aquela pessoa odiada –, ela se volta contra o próprio sujeito. Depois, reformula o conceito, segundo sua nova polaridade Eros versus Tânatos. 

A primeira teoria é ilustrada por uma frase de Flaubert: “Desejaríamos morrer, já que não podemos fazer com que os outros morram, e todo suicídio talvez seja um assassinato reprimido.”

Em O Mito de Sísifo, Camus enche a bola do tema: “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Decidir se a vida vale ou não a pena ser vivida.” E ele, embora reconhecendo o absurdo da existência, manda a morte voluntária catar coquinho: “Tiro do absurdo três consequências: minha revolta, minha liberdade e minha paixão. Por meio de uma manobra da consciência, transformo em regra de vida o que era um convite à morte.” Foi como se, espirituosamente, afirmasse: “Morrer é a última coisa que farei.” 

Minois preenche inúmeras lacunas, mas lhe escapa uma: o século 21 (do qual um quinto já era) e seus tiques. E é aqui que Um Crime da Solidão, de Andrew Solomon, chega chegando. O autor, também romancista, bombou com O Demônio do Meio-Dia, ensaio sobre a depressão que embolsou o National Book Award em 2001. Os textos de Um Crime da Solidão foram reunidos em volume pela primeira vez, numa edição exclusiva para o Brasil.

As estatísticas atuais são estarrecedoras: “A cada 40 segundos, alguém comete suicídio. Ele mata mais americanos por ano do que os acidentes automobilísticos, o homicídio e o AVC. A morte de policiais se dá mais por suicídio do que em serviço; mais soldados se suicidam do que morrem em combate; mais bombeiros se suicidam do que morrem em incêndios.”

Com ensaios recentíssimos, Solomon analisa suicídios midiáticos, como os de Robin Williams e Anthony Bourdain. A ironia macabra é que, ao se matarem, os VIPs ricocheteiam: “A frequência com que pessoas talentosas e bem-sucedidas comentem suicídio é aflitiva. Ela nos mostra que uma vida de aplausos não é tão boa quando se diz, e que conseguir mais do que já conseguimos não nos fará felizes. Suicídios célebres provocam suicídios por imitação: houve um aumento de 10% depois da morte de Robin Williams, e de 18% depois que Marilyn Monroe morreu.” Werther continua mitando e matando.

Ao observar que a ocasião faz o ladrão, Solomon repercute na atualidade brasileira: “Quando barreiras foram erguidas na ponte Golden Gate, os índice de suicídio diminuíram em São Francisco. A Austrália viu seus índices de suicídio baixarem quando impôs restrições ao uso de armas. Cinquenta por cento dos suicídios nos EUA envolvem armas de fogo. Enquanto apenas cerca de 10% dos que tentam uma overdose de comprimidos obtêm êxito, cerca de 90% dos que tentam com uma arma de fogo conseguem pôr fim à vida.” 

A esperança é a última que morre? Num ensaio, Solomon parafraseia o famoso verso de Emily Dickinson: “A esperança é uma coisa com penas.” Infelizmente, o urubu também. 

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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