Jean-Christian Bourcart/Getty Images
Jean-Christian Bourcart/Getty Images

Dois livros de Kurt Vonnegut chegam aos leitores brasileiros

Ficção científica 'As Sereias de Titã' critica as religiões e 'O que Tem de Mais Lindo do que Isso?' reúne discursos do escritor

Ronaldo Bressane*, Especial para o Estado

17 Novembro 2018 | 16h00

Tendo vivenciado na pele e no espírito os efeitos pesados da 2.ª Guerra Mundial, Kurt Vonnegut se transformou em um livre-pensador radical. Sua experiência transformadora está em Matadouro 5, que conta como Vonnegut, um norte-americano descendente de alemães, vai combatê-los em Dresden, acaba caindo na mão dos nazistas e salva a pele ao se esconder dentro de uma geladeira em um matadouro. Quando sai, percebe que Dresden, uma das mais belas cidades da Europa, foi totalmente destruída pelos Aliados. 

Antes de escrever sua obra-prima, porém, Vonnegut, um apaixonado por engenhocas, mas péssimo inventor, tentou a sorte na ficção científica. Em 1952, debutou com Piano Player (nunca publicado no Brasil), uma distopia em que o mundo cai nas mãos das inteligências artificiais, tirando toda a serventia dos humanos (Yuval Noah Harari assegura que a hipótese não está muito longe de acontecer). Já casado e dando duro como vendedor de carros para sustentar os três filhos, adota os três filhos da irmã, que tinha morrido logo após a morte do marido. Em 1959 escreveria este As Sereias de Titã (trad. Lívia Koeppl, Aleph, 301 págs.), mas continuaria enfiado na gavetinha do escritor de ficção científica, menosprezado por pares e críticos.

O sucesso só viria aos 48 anos, em 1964, com Matadouro 5, que, ao combinar autoficção, registro histórico e ficção científica, encaixou como incenso no Zeitgeist pacifista dos anos 1960 – a Guerra do Vietnã estava em curso. O livro fez de Vonnegut um dos autores mais amados da América.

Violentamente pacifista (se isso é possível), Vonnegut detestava convenções, fanatismos e falsas verdades absolutas. Preferia passear no fio da navalha das dúvidas. Além de ridicularizar os horizontes limitados dos militares, o escritor adorava demonstrar o absurdo das religiões. E aqui estão dois eixos deste romance cáustico, que, por um lado, metaforiza a 2.ª Guerra, e, por outro, toca o terror no cristianismo. A tese central é que não existe livre arbítrio, mas também, por outro lado, não deve haver também nenhum determinismo – e, se houver, ele não faz o menor sentido.

Narrado na terceira pessoa, em parágrafos e frases curtos, mesclando ironia e sentimentalismo em doses desiguais, num tom de quem parece não dominar de todo a narrativa que está contando e volta e meia se surpreende com as reviravoltas do enredo, As Sereias de Titã – assim como o Evangelho – é um triângulo amoroso. O Criador responde pelo nome de Winston Niles Rumfoord, homem mais rico do mundo, tipo inefavelmente charmoso. Jesus Cristo aqui se transmuta no vazio e aturdido Malachi Constant – aquele tipo de rico idiota que já nasceu rico e só sabe gastar dinheiro com carros e garotas. O Espírito Santo seria Beatrice, dona de um rosto “soterrado por dignidade, sofrimento e uma boa pitada de arrogância”. 

Infelizmente a trama não traz bons sentimentos cristãos. Rumfoord, dono de uma nave poderosa, se perdeu em uma viagem espacial e foi desmaterializado com seu cão Kazak. Isso aconteceu depois que ele passou por um infundíbulo cronossinclástico – expressão típica de ficção científica que, como sempre acontece nos livros de Vonnegut, não quer dizer nada, a não ser uma tiração de sarro com a dita FC séria (de autores como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke). O problema é que depois de passar pelo infundíbulo Rumfoord se transformou num visionário, pois tem acesso a futuros e passados, mas perde o dom de voltar ao seu corpo na Terra, a não ser a cada 59 dias, em uma aparição fugaz em sua gigantesca mansão, para onde acorrem fãs idiotizados do mundo todo. 

Numa dessas materializações está presente o vaidoso e vazio Constant, que ouve do fantasma bilionário: irá se mudar para Marte, casar-se com a mulher de Rumfoord, ter um filho chamado Crono, participar de uma guerra, depois viajar para Mercúrio e então visitar Titã, uma das luas de Saturno. O livro acaba cumprindo o argumento anunciado e, curiosamente, isso não tira o nosso interesse, pois o engenho de Vonnegut em criar situações novas e bizarras nos desvia a atenção para outros eventos. 

Um deles é uma insensata guerra entre Marte e Terra, que dizima toda a população marciana (seres humanos que esqueceram ter sido enviados ao planeta vermelho para colonizá-lo resolvem tomar a Terra, sendo vilmente massacrados pelos terráqueos, tal como os japoneses o foram pelos norte-americanos). Outro evento perturbador é a participação do triângulo (mais o filho, o irascível aborrescente Crono) na criação de uma religião, a Igreja do Deus Absolutamente Indiferente, com direito a profecias, traição do melhor amigo, sermão da montanha, sacrifício ritual e farta venda de artigos religiosos calcados na tortura e na violência (mas em vez de homens crucificados são vendidos bonequinhos enforcados). 

Ao confrontar Constant – que já nem se lembra mais do próprio nome, depois de tantas estripolias –, Rumfoord o acusa por sua “infinita demonstação de que o homem é um porco. Ele chafurdou numa piscina de bajuladores, mulheres desprezíveis, lascívia, álcool e drogas e todo tipo de depravação, não fez nada para merecer seus bilhões e não fez nada altruísta ou criativo com seus bilhões”. Ao que Constant só responde, tendo em perspectiva o Acaso: “Fui vítima de uma série de acidentes, como todos somos”, famosa fórmula sarcástica vonnegutiana. Uma daquelas expressões simplórias (como o “coisas da vida” do Matadouro 5) que ocultam toda uma filosofia: ao declarar-se vítima do destino, Constant atenta contra um dos pilares do cristianismo, o livre-arbítrio. E se a humanidade não tivesse arbítrio e fosse só o joguete titerado por uma inteligência superior?

Esta é a deixa para o surgimento de Salo, um ET ilhado em Titã depois que sua espaçonave quebrou. Ele veio de Trafamaldore, um planeta que aparece em outros livros de Vonnegut – um lugar habitado por máquinas pacíficas que circulam por quatro dimensões e não sabem muito bem como se portar com as emoções humanas. Salo terá uma participação capital, ao induzir Constant a compreender o sentido da existência. Obviamente não o revelarei aqui, mas, mesmo que o revelasse, você não compreenderia. 

Concertos para a juventude. Já O Que Tem de Mais Lindo do Que Isso? (trad. Petê Rissatti, Rádio Londres, 150 págs.) reúne alguns dos melhores discursos de formatura lidos por Vonnegut. Gênero pouco praticado no Brasil – bem como a própria ideia de educação –, o commencement address rendeu maravilhas da oratória como Isto é Água, de David Foster Wallace, e textos memoráveis de Barack Obama, Neil Gaiman, Steve Jobs e JK Rowling. Por conta de seu carisma inigualável, Vonnegut proferiu dezenas desses discursos em universidades, e em todos o subtexto é “sinto e penso mais ou menos a mesma coisa que você sente e pensa, eu me importo com muitas das coisas com que você se importa, embora a maior parte das pessoas nem ligue para elas. Você não está sozinho”. 

E de fato é esta a sensação que temos ao ouvir Vonnegut: alguém finalmente nos entende. Gênio do humor freestyle, Vonnegut não nos poupa de piadas bestas (“Sabe por que creme de leite é mais caro do que leite? É porque as vacas detestam se agachar naquelas caixinhas”), de ensinamentos específicos (“Nunca enfie nada no ouvido”), ou paradoxos sábios (“É melhor existir a Lei Seca do que ficar sem bebida”), lembranças angustiantes (“Apesar de sermos membros de gerações tão diferentes quanto um esquimó de um aborígene, eu acabei de chegar aqui também, vocês acham que eu sou o Matusalém?”) e conselhos que nunca saem de moda (“Se vocês quiserem se sentir com três metros de altura e capazes de correr por cem quilômetros sem parar, o ódio vence a cocaína pura a qualquer momento. Hitler ressuscitou um país derrotado, falido e faminto graças ao ódio”).

Ateu, anarquista e antifascista, Vonnegut era apaixonado pela vida, visceralmente contrário ao código de Hamurabi e defensor do sermão da montanha: “Se as coisas que Jesus falou eram justas, e em boa parte lindas também, que diferença faz se ele era ou não Deus?” Talvez sua lição mais crucial resida na sempre repetida historinha de seu tio Alex: “Uma das coisas que ele achava lamentável sobre os seres humanos era que raramente reparavam na própria felicidade. Ele mesmo se esforçava para expressar gratidão pelos momentos bons. Podia acontecer que no verão ficássemos bebendo limonada à sombra de uma macieira, e o tio Alex interrompia a conversa para dizer: ‘O que tem de mais lindo do que isso?’” Viveremos momentos terríveis nos próximos anos. Mantenha estes livros perto de você em caso de qualquer emergência, em caso de precisar de uma limonada gelada que o leve para planetas mais belos.

*Ronaldo Bressane é jornalista, tradutor de 'Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?' e autor de 'Escaldo' (editora Reformatório), entre outros livros 

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