Stephanie Mitchell/Harvard
Stephanie Mitchell/Harvard

Dois livros especulam sobre a origem evolutiva da bondade humana

Como os seres humanos adquiriram o sentimento de altruísmo ao longo da evolução e quais são as vantagens da solidariedade?

Redação, The Economist

11 de maio de 2019 | 16h00

Os chimpanzés e os bonobos, ou chimpanzés pigmeus, são os parentes mais próximos dos humanos. Eles se parecem muito, compartilham quase todo o seu DNA e manifestam emoções e comportamentos familiares. Mas, num aspecto importante eles são opostos. Os chimpanzés costumam ser violentos. Os machos espancam as fêmeas para asseverar seu domínio sexual, lutam entre si e matam rivais, amigos e até os bebês. Os bonobos, pelo contrário, têm uma vida relativamente pacífica. Em que ponto os humanos se encontram neste espectro de violência? Eles são inerentemente bons ou ruins e como isso configura suas sociedades? Dois novos livros fornecem algumas respostas para essas e outras questões.

Em The Goodness Paradox (O Paradoxo da Bondade, em tradução livre), Richard Wrangham, antropólogo de Harvard, afirma que, não obstante as suposições contrárias, as pessoas evoluíram e se tornaram animais muito dóceis, similares aos bonobos. Mas mantiveram a capacidade de cometer atos de crueldade e violência planejados, como os chimpanzés. Elas são, ao mesmo tempo, muito mais e muito menos violentas do que seus primos primatas – o paradoxo do seu título.

Os chimpanzés e os bonobos eram espécies distintas há cerca de 900 mil anos. Wrangham afirma que em parte a razão das suas diferenças é que, do seu lado do rio Congo os chimpanzés sempre tiveram de dividir seu hábitat com os gorilas; a violência e a agressão têm sentido quando você possui recursos de comida mais limitados. Do outro lado do rio, os bonobos se desenvolveram em meio a uma abundância de frutas e folhagens. A seleção natural reduziu sua propensão a reações agressivas (do tipo impulsivo).

Essas mudanças comportamentais refletem aquelas de criaturas domesticadas que se originaram dos seus primos selvagens, como cachorros ou animais de fazenda. Os bonobos, ao que parece, se domesticaram em resposta ao seu meio ambiente. Ao viverem em grupo, diz Wrangham, os humanos também foram adestrados.

E o adestramento criou as condições para o florescimento das sociedades humanas. Uma maior capacidade de tolerância e cooperação permitiu a criação de grandes povoados estáveis e de civilizações. Em qualquer metrópole moderna os humanos vivem pacificamente em espaços muito mais reduzidos do que qualquer outra espécie, sem consequências perigosas e possivelmente fatais. Wrangham compara a trajetória do Homo sapiens com a do Neandertal, espécie humana que foi extinta há cerca de 35 mil anos depois de viver na Europa durante meio milhão de anos. Foi sua incapacidade cognitiva para trabalhar e aprender juntos, ele argumenta, que selou sua ruína.

São ideias controversas e nem todas foram comprovadas. Diante do fato de que os registros fósseis fornecem apenas fragmentos de indícios sobre como as espécies antigas podem ter vivido, a confiança de Wrangham em suas afirmações é corajosa. No entanto, a narrativa habilidosa – que se entrelaça com suas hipóteses no tocante aos humanos primitivos com ricos detalhes de décadas de observações de chimpanzés na Tanzânia – torna seu livro estimulante e envolvente.

Sociedades humanas bem sucedidas estão no centro de Blueprint, de Nicholas Christakis, cientista social da universidade de Yale. Que tipos de comportamento contribuem para uma sociedade funcionar e de onde provêm? Ele começa fazendo menção a dois naufrágios. Em 1864, dois navios, o Invercauld e o Grafton, naufragaram em lados opostos da Ilha Auckland, situada a 480 quilômetros ao sul da Nova Zelândia. Os sobreviventes das duas embarcações chegaram à ilha ao mesmo tempo, mas desconheciam a presença uns dos outros. Um ano depois, os 19 sobreviventes do Invercauld se dividiram em grupos, com os mais fracos abandonados à morte e recorrendo ao canibalismo. Somente três membros da tripulação viveram o tempo suficiente para serem resgatados. Por outro lado, todos os cinco náufragos do Grafton conseguiram sobreviver na ilha. Naufrágios, escreve Christakis, são bons experimentos naturais na criação da sociedade: os “campos de sobreviventes” oferecem dados fascinantes sobre como e porque a ordem social varia, e sobre quais arranjos são os mais propícios à paz e à sobrevivência”, afirma o autor.

A tripulação do Invercauld era comandada por um capitão egoísta que disseminou um comportamento em que cada homem tinha de cuidar de si mesmo. Mas no caso do Grafton, os homens se uniram e trabalhavam juntos em todas as situações, desde consertar barcos para dividir seus recursos igualmente, organizando até uma espécie de programa de educação de adultos para trocar suas experiências e habilidades. Esta “social suíte”, como explica Christake, ajudou-os a sobreviver. Segundo afirma, eles não só aprenderam uns com os outros, mas essa conexão social é respaldada por milhares de genes que evoluíram e impulsionaram a bioquímica e o comportamento de tal maneira que as pessoas tendem a criar uma sociedade boa. É verdade que ainda existem guerras terríveis e assassinatos horríveis, mas não são a soma de quem os humanos são. Basta ver o progresso ao nosso redor, diz Christakis, não obstante dos os episódios de morte e destruição.

Ele percorre a sociologia, antropologia, filosofia, genética e economia, entre selvas e laboratórios e retorna a uma velocidade que às vezes parece vertiginosa. Mas o profundo otimismo de Christakis (e as evidências que são consideráveis) sobre o arco da sociedade humana se inclinando para o bem é encorajador. Ao longo do caminho ele analisa de modo fascinante as culturas e costumes humanos, investigando, por exemplo, porque a monogamia e o casamento se tornaram tão comuns (embora não universais) e o que significa realmente a amizade, de uma perspectiva evolucionária.

Wrangham também é otimista e chega mesmo a postular um papel contrário à lógica para certos tipos de belicosidade, mantendo os humanos no caminho na direção do bem. Domesticadas, as espécies mantêm a capacidade de um tipo de agressão proativa, calculada, que pode ser instrumental para que as sociedades se tornem mais coesas socialmente. Grupos de humanos podem ter trabalhado juntos para identificar e extirpar os indivíduos mais selvagens (em geral machos) do seu seio. Executar os malvados não apenas remove um tipo indesejável de gene agressivo do conjunto, mas também envia um sinal de que a violência será punida.

Isto, por outro lado, conduz ao surgimento de um código moral e demonstra os benefícios do comportamento mais afável ou generoso. Seja bom com seus vizinhos, salvo se eles se agruparem e o condenarem à morte. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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