Dois livros para os 700 anos de morte de Dante

Dois livros para os 700 anos de morte de Dante

De um pequeno tratado de Boccacio ao ambicioso ensaio de Alessandro Barbero, textos analisam o escritor italiano

Paulo Nogueira, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2021 | 16h00

Este ano assinala sete séculos da morte de Dante Alighieri, um dos pilares do cânone literário universal. Só na Itália a efeméride incluiu mais de 500 eventos, da leitura da Divina Comédia no Palácio Quirinal (residência do presidente da República) por Roberto Benigni à restauração do cenotáfio do poeta em Florença. Dante é um dos poucos escritores que geraram um adjetivo (como “quixotesco” ou “kafkiano”), e uma das homenagens é realmente dantesca: financiada por uma editora italiana, a nave russa Soyuz levou para o espaço os cem cantos da Divina Comédia, microinscrita em folhas de titânio e ouro. Afinal, a última palavra de cada uma das três partes da obra é “stelle” (estrelas), e o último verso define Deus como “O amor que move o sol e as outras estrelas”.

Acabam de sair no Brasil uma nova tradução do Inferno, e duas biografias do escritor – uma de Boccaccio (de Decameron), que morreu 50 anos depois de Dante, e outra do contemporâneo Federico Carotti. Sabemos mais sobre Dante que de outros pares canônicos, como Homero e Shakespeare. Por sinal, o nome dele era Durante (“Dante” é diminutivo). 

Nasceu em 1265, em Florença, então uma das maiores metrópoles da Europa. Não existia um Estado italiano unificado (isso só no século 19), mas cidades rivais. Como agora, a política era polarizada: de um lado Guelfos (partidários do papa), do outro Gibelinos (partidários do imperador). O latim era o inglês de hoje, e o único idioma que dispunha de uma gramática escrita. Dante era um erudito, mas ao escrever suas obras principais em vernáculo (basicamente, o toscano), sedimentou a língua italiana.

 Em 1.º de maio de 1274, Dante teve sua epifania: o maior amor à primeira vista de todos os tempos. Na rua, avistou Beatriz Portinari, ambos com 8 anos. Rolou um clima e o coração de Dante caiu de quatro. Nunca tiveram qualquer contato físico, e só se reencontraram nove anos depois, quando ela já era casada. Beatriz arrulhou um “oi”, e a alma do poeta dançou o hula-hula. Ela morreu aos 25 anos, e Dante sublimou o luto na Divina Comédia: “Direi dela aquilo que jamais se disse de uma mulher”. Dante desposou uma certa Gemma, mas não foi feliz: Boccaccio descreve a união como “um tédio inefável” – e a filha do casal foi batizada de... Beatriz. 

Banido de Florença por intrigas políticas, Dante vegetou os últimos 20 anos no exílio, e morreu em Ravena. A paixão por Beatriz é também simbólica: seja do amor cortês medieval (que mimetiza platonicamente a relação suserano/vassalo), seja do ostracismo mundano do poeta, seja da teologia cristã, com o ser humano errante na Terra (a Cidade dos Homens), ansiando pelo Paraíso (a Cidade de Deus).

A Comédia (uma narrativa que acaba bem – no caso, um desfecho edênico) foi chamada de Divina por Boccaccio, adjetivo incorporado ao título na edição de 1555. É uma jornada sobrenatural de uma semana, em tercetos e em três partes: 34 cantos no Inferno, 33 no Purgatório e 33 no Paraíso. O protagonista é o poeta, com 35 anos, como entrega o famoso primeiro verso: “No meio caminho da nossa vida” (a idade bíblica era 70 anos). O Inferno é um poço (Satanás está no fundão), e o Purgatório uma ilha montanhosa na antípoda de Jerusalém, que as almas penitentes podem galgar. Quando Dante e o cicerone Virgílio (autor de Eneida) atingem o cume, a bola é passada para Beatriz (pagão, Virgílio não pode entrar no Céu) – e ela já chega dando um pito em Dante. 

Dante morreu aos 56 anos, em 1321, de malária. Para opróbrio dos florentinos, logo ficou óbvia a genialidade do poeta – o retrato arquetípico dele foi pintado por Botticelli. Só em julho de 2008 o Comitê Cultural de Florença revogou o exílio e concedeu aos herdeiros de Dante a mais alta honraria (proposta aprovada por apenas um voto acima do quórum mínimo).

 Mas muito antes já havia caído a ficha, e os florentinos se empenharam para trazer Dante de volta, com sucessivas súplicas para que Ravena autorizasse a trasladação dos restos mortais – incluindo uma promessa de que Michelangelo construiria o túmulo em Florença. Em 1782, no levantamento das ossadas do poeta, não havia nada dentro do caixão – o que foi mantido em segredo até 1865, quando Ravena declarou que, com a unificação da Itália, Dante já não estava exilado. Foi então que um pedreiro achou um ataúde atrás da parede de uma capela com um esqueleto quase completo, identificado por uma inscrição (“Ossa Dantis”) e um exame científico posterior. A tumba original estava vazia.

 Alguém disse que Dante é São Tomás de Aquino com trilha sonora. Mas é injusto reduzir o esplendor lírico do poeta à cosmovisão escolástica (por mais profunda que esta possa ser). Sim, a Divina Comédia tem personagens atualmente crípticos – porém isso é resolvido pelas notas de rodapé. E a proficiência poética de Dante só tem paralelo em Shakespeare. Para os leitores, a recompensa do esforço é – com trocadilho – paradisíaca. E por isso, se com a Soyuz depois do Paraíso Dante foi para o céu, é mera justiça divina.

SERVIÇO 

'Dante'

Autor: Alessandro Barbero Tradução: Federico Carotti Páginas: 432 Editora: Companhia das Letras 

'Vida de Dante'

Autor: Giovanni Boccaccio Tradução: Pedro Falleiros Heise Páginas: 104 Editora: Penguin Companhia 

 

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