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Dois novos livros analisam motivos do sucesso da luta pelos direitos civis

Livros analisam o movimento liderado por Martin Luther King Jr. e a herança que ele deixou para as gerações posteriores

Clifford Thompson, Especial para o Washington Post

26 de fevereiro de 2021 | 09h00

O pequeno volume de Thomas C. Holt, The Movement: The African American Struggle for Civil Rights (O Movimento: A luta afro-americana pelos direitos civis, em tradução livre), contempla, em apenas 120 páginas de texto, uma abrangência que contraria seu tamanho. O que torna isso possível é que Holt foca no movimento pelos direitos civis em si, e não nas personalidades envolvidas. Não temos, digamos, uma avaliação do caráter de Martin Luther King Jr. ou especulações sobre a inveja de Ralph David Abernathy de seu melhor amigo mais famoso. O que lemos é uma análise fascinante das fases do movimento, bem como uma análise das bases que tornaram os bons resultados possíveis.

Chad Sanders, em seu livro Black Magic: What Black Leaders Learned From Trauma and Triumph (Magia negra: o que os líderes negros aprenderam com o trauma e o triunfo, em tradução livre), proporciona uma sequência não intencional do trabalho de Holt. Sanders leva a história para a era pós-direitos civis, investigando os custos psicológicos - e as lições - que o movimento inicial deixou de herança para aqueles nascidos após as lutas dos anos 1960.

Juntos, os dois livros criam um retrato vívido da difícil luta pela liberdade e os desafios que a integração criou para os negros americanos.

Holt, um professor emérito da Universidade de Chicago, nos mostra as marchas, protestos e campanhas para registro de eleitores que ameaçam a vida em prol da liberdade. Seu livro serve como um corretivo para aqueles que percebem a luta pela liberdade como um borrão indiferenciado de eventos e símbolos que surgiram magicamente do nada em meados da década de 1950. 

Holt relembra os protestos às vezes bem-sucedidos contra a segregação de Jim Crow lançados por pessoas negras comuns antes do movimento "clássico" pelos direitos civis, em alguns casos quase um século antes. Parafraseando a ativista Angela Davis, Holt observa que "retratar o Movimento como meramente o trabalho de indivíduos heróicos corre o risco de levar as gerações futuras a reconhecerem erroneamente sua própria capacidade de agir coletivamente para alcançar a justiça social".

O que separou os esforços pelos direitos civis de 1955 a 1965 de seus predecessores e é responsável por sua eficácia, Holt argumenta, foi uma variedade de fatores, incluindo 1 milhão de negros americanos servindo seu país na Segunda Guerra Mundial e depois tendo um senso mais forte de seus direitos. A guerra também acelerou o deslocamento de muitos residentes negros do sul para o norte para ocupar cargos da defesa e outros empregos, mudando radicalmente a demografia racial do país.

Essas mudanças, junto com uma mudança massiva no apoio negro do partido Republicano para o partido Democrata durante o governo de Franklin Roosevelt, "diminuíram o estrangulamento político do sul branco" na mudança. Nesse novo cenário, principalmente após a decisão da Suprema Corte em 1954 no caso Brown versus Board of Education, que declarou a segregação nas escolas públicas como inconstitucional (e que se seguiu a décadas de contestações legais a Jim Crow), uma mudança real parecia possível.

O que não quer dizer que foi fácil de conseguir. The Movement oferece lembretes sérios de quão feroz e até mortal era a resistência à mudança. Por exemplo, manifestantes pacíficos no sul - alguns deles crianças - foram atacados com mangueiras de incêndio com "força suficiente para arrancar tijolos dos prédios". 

Outras vezes, os obstáculos à liberdade não eram proporcionados pelos inimigos do movimento, mas por seus supostos aliados. Semanas depois de assinar a histórica Lei dos Direitos Civis de 1964, o presidente democrata Lyndon Johnson, temendo uma greve dos democratas do sul na convenção do partido em Atlantic City, convenceu a impedir o apoio dos delegados aos afiliados inter-raciais livremente eleitos do Partido Democrático da Liberdade do Mississippi. (Até então, a participação no Partido Democrático do Mississippi era aberta apenas para brancos.) E às vezes surgiam dificuldades de divergências dentro do próprio movimento, como quando muitos começaram a questionar seu compromisso com a não violência.

No entanto, é claro, o movimento pelos direitos civis alcançou vitórias monumentais que mudaram para sempre a vida dos negros americanos e influenciaram muito movimentos semelhantes de outros grupos oprimidos. Ao narrar o movimento, Holt, o autor de Children of Fire: A History of African Americans (Filhos do fogo: uma história dos afro-americanos, em tradução livre) e The Problem of Race in the Twenty-First Century (O problema da raça no século XXI), destaca figuras importantes cujos nomes são ouvidos com menos frequência.

Lemos sobre Robert Moses, Diane Nash, C.T. Vivian e James Bevel, e aprendemos que o acertadamente celebrado King "era tanto seguidor quanto líder" na época em que foi selecionado por um grupo de ministros aos 26 anos para liderar o boicote aos ônibus de Montgomery após o ato desafiador e a prisão de Rosa Parks - o cenário que o trouxe a notoriedade nacional. Holt acompanha cuidadosamente o caminho do movimento, discutindo, por exemplo, a mudança de protestos com o objetivo de parar de segregar lanchonetes para campanhas de eleitores em bastiões de racismo como o Mississippi. The Movement dá forma e clareza a um período glorioso e confuso da história americana.

“Não era imediatamente plausível para a maioria dos sulistas negros que a integração como tal seria uma solução eficaz para as injustiças que eles enfrentavam diariamente”, escreve Holt, uma passagem que poderia ter sido usada como epígrafe para Black Magic.

Sanders escreve para a televisão, já trabalhou no Google e no YouTube e como empresário de tecnologia. Ele cresceu fora de Washington, D.C.; seu pai é advogado e sua mãe foi executiva da Verizon durante a maior parte da infância de Sanders.

Desde muito jovem, Sanders viveu em um bairro com vizinhos majoritariamente brancos e frequentou a escola com crianças em sua maioria brancas. E assim, como muitas crianças negras na era pós-direitos civis dos Estados Unidos, Sanders enfrentou o lado desagradável da integração, com suas lições o impactando apesar dos melhores esforços de pais ferozmente protetores. Sanders se lembra de ter ouvido no jardim de infância de seu melhor amigo loiro: "Pessoas negras meio que parecem cocô".

Como jogador do time de basquete vencedor de sua escola, Sanders foi convidado para festas, e descobriu que os pais de seus colegas de classe não permitiam mais do que dois negros em suas casas. "Em meus momentos mais solitários, usei minha medalha como um símbolo de ser negro com orgulho", escreve ele. "Eu nunca estava perdido o suficiente para pensar que era branco. Eu nem queria ser. Mas no meu pior momento, eu me permiti competir com outras crianças negras inteligentes e carismáticas que vieram para o 'meu' espaço."

Sanders frequentou a histórica Black Morehouse College, onde "quase esqueceu que existiam pessoas brancas" e sentiu uma liberdade que nunca havia conhecido. Neste ambiente, mesmo quando os amigos o provocavam, ele "se sentia amado" em vez de "atacado, intimidado ou diferente". Depois de se formar, ele trabalhou para o Google, e, mais uma vez, se viu lutando para se encaixar entre os brancos. 

Mudando conscientemente a maneira como falava e se vestia, ele se adaptou ao ambiente - mas se sentia extremamente infeliz. Em algum momento, ele começou a agir mais como ele mesmo, falando da maneira que ele normalmente faria e falando o que pensa, com o resultado surpreendente de receber excelentes críticas de desempenho e promoções. A lição que aprendeu foi que o sucesso está em abraçar sua negritude e tudo o que ela lhe ensinou. Seu livro é uma tentativa de compartilhar essa lição.

“Se você conseguiu sobreviver à sua experiência de ser negro, você aprendeu bastante do que é útil e não pode ser ensinado ou comprado. Eu chamo isso de magia negra”, escreve Sanders. "Mas sou jovem e insensato. Minha perspectiva é limitada. Procuro outros que viram mais, fizeram mais e superaram mais, para testar essa teoria."

Cada capítulo de Black Magic cobre uma fase ou aspecto da vida; os títulos dos capítulos incluem "Ensino Fundamental", "Faculdade" e "Trabalho". Sanders começa cada uma com uma reflexão autobiográfica, seguida pelos textos de suas entrevistas com afro-americanos bem-sucedidos em áreas como negócios, tecnologia, ciência, ativismo e esportes. (Ele entrevistou mais de 200 pessoas para o livro.) Sanders pede a seus entrevistados que descrevam seus primeiros anos de vida e carreiras e os desafios que enfrentaram. Ler suas histórias é ver que o custo psicológico da integração e da "troca de código linguístico" - para não falar do racismo à moda antiga - é generalizado e muito real. Questionado a respeito do preço de exibir "várias personalidades" para caber em ambientes diferentes, um sujeito respondeu: "Três anos no divã com meu terapeuta duas vezes por semana."

Sanders pergunta a seus entrevistados quais conselhos eles dariam aos outros - quais são suas formas de "magia negra". Às vezes, o conselho é frustrantemente impessoal ("Você precisa usar o que outros podem usar contra você para se beneficiar em outras áreas"), mas muitas vezes é provocador e útil: "Você precisa reconhecer que tem algo em comum com todos. Se você tiver uma visão limitada do que tem em comum com as pessoas, você cairá em uma armadilha. "

Acima de tudo, "Black Magic" é uma expressão de uma filosofia estimulante e muito necessária, e os leitores podem ser incentivados a extrair ouro de suas próprias experiências difíceis.

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Clifford Thompson é o autor, mais recentemente, de What It Is: Race, Family, and One Thinking Black Man's Blues (O que é: raça, família e a tristeza de um homem negro pensante, em tradução livre).

TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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