Anselm Kiefer
Anselm Kiefer

Dois novos livros oferecem perspectivas urbanas para além das grandes cidades

Modelos alternativos de urbanização discutem mobilidade, sustentabilidade e saúde

André Caramuru Aubert, Especial para o Estadão

29 de janeiro de 2022 | 16h00

Tem sido frequente, nos últimos meses, ouvir falar de conhecidos que estão indo morar no campo, enquanto muita gente (como eu), tem vivido e trabalhado quase sem sair de casa. Repensar a vida nas grandes cidades e as questões de mobilidade, sustentabilidade e saúde é algo que já vinha ocorrendo, mas que a Covid-19 acelerou. Embora possa ser difícil de acreditar, não é a primeira vez que a vida urbana é colocada em xeque. E não estou falando dos poetas românticos do século 19. Na realidade, viver em grandes cidades jamais foi um destino inevitável para a humanidade, e nem mesmo há qualquer garantia de que, uma vez que elas existam, existirão “para sempre.” Dois livros, Four Lost Cities – a Secret History of Urban Life (Quatro Cidades Desaparecidas – uma História Secreta da Vida Urbana, em tradução livre), de Annalee Newitz, e The Life and Death of Ancient Cities – a Natural History (A Vida e a Morte de Cidades Antigas – uma História Natural, em tradução livre), de Greg Woolf, ajudam a iluminar a questão.

Cidades têm vantagens inegáveis. Ao concentrar pessoas, permitem a especialização do trabalho, fazendo com que um dentista possa ser apenas dentista, sem se preocupar em caçar seu almoço, plantar seu jantar ou ficar de guarda contra predadores, à noite, na porta de sua casa. Há tempo para a arte, espaços para escolas e museus... Por outro lado, as grandes cidades não são, por definição, autossuficientes. Para caçadores-coletores, se as coisas ficam ruins, basta fazer as malas e migrar para algum lugar mais promissor. Mas as metrópoles são fixas e incapazes de produzir em regime de subsistência. Se as condições se degradam, poderão vir fome, sede, conflitos e revoluções. As grandes cidades, não obstante todas as suas vantagens, são ecossistemas frágeis, pesadamente dependentes de recursos externos. No best-seller Colapso, de 2005, Jared Diamond usou exemplos de extinções catastróficas de antigas civilizações para nos alertar sobre os riscos que corremos, hoje, quando adotamos políticas ambientais não-sustentáveis. E agora, longe de minimizar as consequências de decisões humanas ecologicamente equivocadas, Newitz e Woolf abordam o tema sob uma outra perspectiva, na qual mudança não significa, necessariamente, colapso.

Dos dois autores, Annalee Newitz, jornalista de ciência com PhD em Berkeley que escreve para algumas das principais publicações norte-americanas, como a Nature e a The New Yorker, é a mais explicitamente anti-Diamond. Neste livro ela se debruça sobre quatro cidades desaparecidas: Çatalhoiük, Pompeia, Angkor Wat e Cahokia. A primeira, que existiu entre 7.100 e 5.700 a.C, na atual Turquia, é uma das mais antigas experiências urbanas conhecidas. A segunda, joia do Império Romano, teve o fim decretado por uma violenta erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C. A terceira, mítica cidade de pedra no meio da selva cambojana, surgiu no século 12 e floresceu por mais de trezentos anos antes de ser abandonada. Na última, finalmente, uma metrópole em pleno vale do Mississippi que começou a ser erguida antes do ano 1.000, já não havia ninguém há mais de dois séculos quando os primeiros europeus chegaram.

Ou seja, Newitz aborda quatro cidades muito diferentes entre si, tanto culturalmente quanto no tempo e no espaço. As semelhanças são, em primeiro lugar, que todas tiveram longas trajetórias de crescimento e sucesso, e todas, em algum momento, desapareceram. Mas, em vez de alardear os colapsos, a autora prefere valorizar os sucessos e, particularizando cada uma, mostrar que, mais do que extinções, o que houve foram transformações: por uma série de motivos diferentes, chegou um dia em que as pessoas se foram. Só que, na visão de Newitz, isso não teria representado o fim daquelas civilizações, que se reinventaram de outras maneiras. Cahokia, por exemplo, não foi vítima de qualquer desastre natural, guerra ou comoção interna. As pessoas, a partir de um certo ponto, simplesmente começaram a abandonar a vida na cidade e regressaram ao nomadismo. Algumas das nações indígenas que habitavam as pradarias quando os europeus chegaram, como os Sioux, eram (e são) prováveis descendentes dos cahokianos.

Greg Woolf, em The Life and Death of Ancient Cities – a Natural History (A vida e a morte de Cidades Antigas – uma História Natural, em tradução livre), professor e diretor de Estudos Clássicos da Universidade de Londres, se concentra em um universo mais restrito, o universo greco-romano do Mediterrâneo, ainda que “passeie” também por Mesopotâmia, Egito e alguns outros destinos. Menos ambicioso no tempo e no espaço que Newitz, Woolf se aprofunda mais no universo que analisa. Para ele, cidades foram experimentos sociais desenvolvidos por diferentes povos em diferentes contextos, nos quais houve muito mais fracassos do que os sucessos. Mas, de um jeito ou de outro, elas sobreviveram.

Por volta do ano 400 a.C., quando eram os gregos que davam as cartas, estima-se ter havido cerca de 850 cidades no Mediterrâneo, das quais apenas pouco mais de vinte teriam populações de mais de dez mil habitantes. Cerca de meio milênio depois, durante o apogeu do Império Romano, o número de cidades teria chegado talvez a duas mil, mas as populações da quase todas continuavam pequenas. As exceções continuavam a ser quase as mesmas: Atenas, Siracusa, Alexandria, Cartago, uma ou outra mais, além da nova e cintilante metrópole, Roma, a maior de todas. E, se sustentabilidade pode ser um problema para qualquer cidade, para as metrópoles isso é crítico. A cada dia, é gigantesco o volume de água e de alimentos que precisa chegar, e do lixo e do esgoto que precisa sair. Se hoje isso é complicado, imagine-se os tempos em que não havia geladeiras e em que o transporte era puxado por animais...

No auge do império, no século 2 d.C., a cidade de Roma chegou a ter talvez um milhão de habitantes (as estimativas variam enormemente). Mas pouco depois a população começou a declinar e, no começo do século VI, entrando na Idade Média, estaria na casa dos 60 mil, só voltando aos números antigos na segunda metade do século XX. Isso, já se sabia. O que Woolf traz de novo é a explicação: o problema não teria sido a decadência do império em si (com as famosas invasões bárbaras), mas, antes, a perda de territórios norte-africanos: como Roma dependia do trigo importado de lá, quando este parou de chegar, a população urbana simplesmente não tinha como ser alimentada. O caminho natural para muita gente, então, seria migrar para as cidades do interior, nas quais seria possível plantar, criar animais, produzindo-se o próprio alimento ou, pelo menos, ficando mais perto de quem o produzia. O mesmo aconteceria, depois, com Constantinopla, a sucessora de Roma como capital do Império (que chegou a contar com estimados 500 mil habitantes): dependente do trigo do Nilo, suas famosas muralhas pouco puderam fazer diante dos invasores árabes depois que estes lhes tomaram o “celeiro” egípcio. Uma pálida ideia do problema pôde ser sentida pelos brasileiros em 2018, quando uma greve de caminhoneiros ameaçou interromper o abastecimento urbano. Há mil anos ou hoje, as grandes cidades não sobrevivem a mais do que alguns dias sem abastecimento de fora.

Angkor Wrat, Çatalhoyük e Cahokia cresceram, encolheram e desapareceram. Roma, Atenas e Constantinopla (depois Bizâncio, hoje Istambul) cresceram, encolheram e voltaram a crescer. O que estes dois livros mostram é que não existem fórmulas, garantias ou destinos pré-concebidos para o futuro das cidades. São Paulo cresce ininterruptamente desde que foi fundada, há 467 anos, em explosão demográfica após o fim do século XIX. Mas precisará ser sempre assim? O número cada vez maior de pessoas que desiste de viver aqui não representará, talvez, uma mudança no horizonte? Não sabemos. Só o que podemos dizer quanto ao destino das grandes cidades é que, se elas encolherem, ou mesmo desaparecerem, isso não será necessariamente ruim.

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Serviço

The Life and Death of Ancient Cities – A Natural History

Autor: Greg Woolf.

Oxford University Press,

499 páginas

Ano da edição: 2020.

$ 26,95 (capa dura) $ 17,95 (capa comum) $ 17,93 (Kindle) 

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Four Lost Cities: A Secret History of the Urban Age

Annalee Newitz

W.W. Norton

309 páginas

Ano da edição: 2021

$ 32, 95 (capa dura) $ 24,95 (capa comum) $ 14,75 (Kindle) 

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