Dois Pepes num continente dividido

Vitória do esquerdista Mujica, no Uruguai, e do conservador Lobo, em Honduras, agitam o tabuleiro ideológico

Igor Fuser*, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2009 | 03h38

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Além do apelido "Pepe", habitual entre os povos de fala castelhana, os vencedores das duas eleições realizadas no domingo 29 de novembro - no Uruguai e em Honduras - não apresentam praticamente nada em comum. Puro creme da oligarquia agrária, o hondurenho Porfirio Pepe Lobo é um dos maiores exportadores de grãos da América Central, enquanto o uruguaio José Pepe Mujica vive sem luxos numa pequena chácara onde cultiva acelga e beterraba. Lobo, alto e atlético (pratica tae kwon do), aparenta bem menos que seus 61 anos. Mujica, gordo, baixinho e sedentário, chega à presidência aos 75 - exceção num mundo que valoriza a juventude como um bem supremo.

No terreno das ideias, o contraste é ainda mais evidente. Pepe Mujica ostenta no topo do currículo seus 14 anos na prisão, punido pelo regime militar por ser um dos dirigentes dos Tupamaros, o mais famoso entre os grupos de guerrilha urbana dos anos 60 e início dos 70 (para quem quiser saber mais sobre os tupas, recomenda-se o filme Estado de Sítio, de Costa-Gavras). Anistiado, tornou-se, em 2005, o senador mais votado do país, concorrendo pela coligação de esquerda Frente Ampla, que na ocasião elegeu também o presidente, Tabaré Vásquez. Já não fala em socialismo, mas deixa claro que mantém os mesmos ideais, aos quais se agrega um compromisso com a democracia que seus rivais na campanha tentaram refutar, sem sucesso.

Pepe Lobo - quem diria? - também transitou pelas fileiras da esquerda. Quando jovem, militou no Partido Comunista e chegou a passar uma temporada em Moscou estudando ciência política na extinta Universidade dos Povos Patrice Lumumba. Mas logo se enquadrou nas tradições familiares. Diplomou-se em administração (na Flórida) e ingressou no Partido Nacional, pelo qual disputou as eleições presidenciais de 2005. Analistas atribuem sua derrota para Manuel Zelaya, por poucos votos, à adoção de uma retórica de extrema direita em que se destacava a defesa fervorosa da pena de morte. A hora da revanche chegou, em junho deste ano. Lobo apoiou o golpe que afastou Zelaya do palácio e ajudou a impedir seu retorno ao poder.

Mais do que as biografias, a melhor expressão da diferença entre os dois Pepes são as imagens de Tegucigalpa e de Montevidéu durante e logo após as eleições. Na capital hondurenha, milhares de soldados nas ruas, vigilantes para reprimir protestos. Notícias de outras cidades, como San Pedro Sula, a segunda maior do país, falavam em uma passeata dissolvida à força, gás lacrimogêneo, prisões e feridos. Enquanto isso, dezenas de milhares de uruguaios se espalhavam, com bandeiras da Frente Ampla, pela bela avenida junto às praias do Rio da Prata, o Malecón, festejando a vitória de Mujica. No dia seguinte, o Uruguai retornou à rotina, mas em Honduras permanecia a incerteza, já que a maioria dos governos latino-americanos se recusa a reconhecer o resultado eleitoral e os movimentos populares locais, fiéis ao presidente exilado na embaixada brasileira, agora prometem uma campanha de desobediência civil.

Existiria algum elo entre as situações protagonizadas por esses dois Pepes tão diferentes? Em entrevista recente, o escritor mexicano Carlos Fuentes pintou o atual cenário latino-americano em cores sombrias. "Voltamos a correr o risco de atrair o fantasma do autoritarismo", afirmou, lembrando que a tradição política do nosso continente tem pouco a ver com a democracia. Fuentes não se referia aos golpistas de Honduras, e sim aos presidentes da Venezuela (Hugo Chávez), Bolívia (Evo Morales) e Equador (Rafael Correa), todos eles legitimamente eleitos e, até hoje, com altos índices de aprovação popular. Esses três presidentes, chamados pelos adversários de "populistas", se inserem numa tendência política mais geral na América Latina, a "guinada à esquerda".

O grupo envolvido nesse movimento é tão variado a ponto de levar outro mexicano, o cientista político Jorge Castañeda, a apontar a existência de "duas esquerdas" na região. Uma, supostamente moderna, cosmopolita e democrática, que incluiria o uruguaio Vásquez, a chilena Michelle Bachelet e, claro, o brasileiro Lula. Na outra, ficariam os já citados "populistas", termo pejorativo que costuma ser estendido ao casal Kirchner, na Argentina. Outro comentarista, o peruano Álvaro Vargas Llosa, diz a mesma coisa com adjetivos mais fortes: "vegetarianos" e "carnívoros".

A teoria das "duas esquerdas" perdeu muito do seu atrativo diante dos fatos da política regional, em que o grupo inteiro tem apresentado uma surpreendente unidade. Em vez de ficarem brigando entre si, forças esquerdistas latino-americanas têm crescido em conjunto, numa sinergia em que as vitórias eleitorais se reforçam mutuamente. Enfrentam os mesmos inimigos: no plano doméstico, as elites locais, e, no externo, as manifestações de unilateralismo dos Estados Unidos. Condenaram o golpe antichavista em 2002 e a rebelião das províncias da "Meia-Lua" boliviana no ano passado.

No tabuleiro ideológico latino-americano, a eleição de Pepe Mujica consolida uma posição conquistada pela vertente esquerdista, assim como a derrubada de Zelaya, que a eleição de Pepe Lobo vem coroar, representa um ponto a favor das forças mobilizadas, em escala continental, em torno da preservação do status quo. O que mais preocupa em Honduras é o precedente. Ao contrário de tentativas anteriores de brecar a guinada à esquerda violando as regras do jogo democrático, lá os golpistas ganharam a parada, interrompendo um "efeito dominó" centro-americano que já contabiliza a volta dos sandinistas ao poder na Nicarágua e a vitória dos ex-guerrilheiros em El Salvador.

Nas próximas semanas, novas eleições - e emoções. Na Bolívia, as pesquisas indicam amplo favoritismo de Morales na busca da reeleição. No Chile, os antigos partidários de Pinochet - a direita "carnívora" - estão mais perto do que nunca de um regresso ao Palácio de La Moneda. Desta vez, sem derrubar a porta com disparos de canhão.

*Igor Fuser é doutorando em Ciência Política na USP e pesquisador do Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (Ineu)

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