Stephen Chermin/AP
Stephen Chermin/AP

Don DeLillo imagina apocalipse tecnológico em 'O Silêncio'

Tecnologia deixa de funcionar em nova ficção do escritor norte-americano situada em 2022

Jerônimo Teixeira*, Especial para o Estadão

12 de junho de 2021 | 15h00

Por definição, uma catástrofe não pode ser um evento íntimo. O terremoto, a erupção vulcânica, o acidente na usina nuclear, a guerra, a epidemia são todos acontecimentos de grande escala. Em seu 18º romance, O Silêncio, recém lançado no Brasil pela Companhia das Letras em tradução de Paulo Henriques Britto, o americano Don DeLillo, 84 anos, tenta compor uma catástrofe intimista, uma ficção distópica de câmera. O desastre que serve de premissa ao livro reduz a civilização, como diz um personagem, a “cacos humanos”: de súbito, todo o aparato tecnológico de que dependemos deixa de funcionar. O mundo está offline. Na maior parte dessa ficção breve, o misterioso blecaute é observado dos limites de um apartamento em Nova York, onde um grupo de cinco pessoas reúne-se, em 2022, para assistir à final do campeonato nacional de futebol americano – o Superbowl, maior evento esportivo dos EUA. A compressão de uma debacle civilizacional nos limites de uma sala de estar soa como uma sinfonia transcrita para quarteto de cordas: a música está lá, mas falta volume. A estranheza, grande qualidade do livro, ampara-se nessa miniaturização do apocalipse – que, no entanto, também responde pelas insuficiências de O Silêncio

Nas primeiras páginas, a dependência tecnológica e o frenesi consumista da cultura americana, temas fortes de DeLillo, autorizam os personagens a se acomodarem no tédio e na tranquilidade das classes médias. Jim Kripps e Tessa Berens entram em cena na classe executiva de um avião que decolou de Paris, onde eles passaram as férias, rumo ao aeroporto de Newark. O casal espera desembarcar a tempo de acompanhar o Superbowl com os amigos Diane Lucas e Max Stenner, em Nova York. Atingido pela pane que derrubou todos os sistemas eletrônicos, o avião começa a despencar, mas consegue realizar um improvável pouso de emergência.

Em seu apartamento, Diane e Max preparam comes e bebes enquanto aguardam o jogo na companhia de um jovem amigo, Martin Dekker. Então a tela da TV apaga-se, e os celulares saem do ar. Uma consulta rápida a vizinhos do prédio confirma que o problema é geral. Mais tarde, também faltará eletricidade. Os personagens especulam sobre as causas do blecaute – ataque cibernético dos chineses? A narrativa não esclarece esse ponto. Fica sugerido que se trata de uma catástrofe global, mas nem sobre isso se pode ter certeza: os personagens, afinal, não contam com meios de se comunicar com o resto do mundo.

Diane é professora aposentada de física. Martin foi seu aluno e segue a mesma carreira. Max é apresentado primeiro como um apostador temerário, que tem dinheiro alto empenhado no resultado do Superbowl; quase de passagem, também se informa que ele trabalha como inspetor de segurança de prédios de luxo. Jim é “regulador de sinistros para uma empresa de seguros”. Sua mulher, Tessa, é poeta. Mas as atividades profissionais do quinteto não permitem prever suas reações ao apocalipse, sempre desorientadas, erráticas. 

Antes de se encaminharem para o apartamento dos amigos, Jim e Tessa buscam um curativo para o ferimento leve que ele tem na testa; no hospital, fazem sexo no banheiro, em uma cena desprovida de sentido e de erotismo. Sem televisão, Max se põe a narrar uma partida de futebol americano imaginária enquanto bebe largas doses de bourbon. Martin fala sem parar sobre Einstein, relatividade, guerra mundial, criptomoedas e microplásticos. “Estou fabricando teorias e especulações em série”, diz ele. Diane ouve o ex-aluno com um encantamento obviamente sexual, mas perde o interesse em Martin no momento em que ele tira as calças. 

O Silêncio foi escrito antes da pandemia. Em entrevista ao jornal The New York Times, DeLillo contou que um editor incluiu uma menção à Covid-19 no texto, decerto no intuito de atualizá-lo. Na versão final em inglês, o autor cortou o nome da doença, que, no entanto, aparece na edição brasileira. Eis Tessa rememorando a catástrofe: “o vírus, a peste, a Covid-19, as pessoas caminhando pelos terminais dos aeroportos, as máscaras, as ruas das cidades esvaziadas”. 

O Silêncio guarda afinidade com Ruído Branco, romance mais vasto e ambicioso que DeLillo lançou em 1985. Nesse livro, também há um grande desastre – um vazamento de produtos químicos tóxicos. Antes, durante e depois do acidente, os personagens vivem permanentemente imersos no som de fundo produzido pela televisão, pelo rádio, pela publicidade, pelos tabloides sensacionalistas. No novo livro, DeLillo criou uma expediente ficcional para anular todo esse “ruído branco”, mas a pane tecnológica não estabeleceu o silêncio anunciado no título. Os personagens preenchem o vazio, falando muito, em rompantes angustiados e digressões melancólicas, em frases desconexas e elucubrações teóricas.

O curioso é que eles não chegam propriamente a conversar entre si. DeLillo é um escritor inteligente demais para se render à utopia ingênua e regressiva de um mundo em que homens e mulheres renunciariam aos celulares para descobrir formas mais autênticas de comunicação. Há em O Silêncio uma linha de fundo mais perturbadora, uma intuição que a narrativa, em sua brevidade brusca e lacunar, não chega a desenvolver de forma satisfatória: a tecnologia talvez seja o recurso que inventamos para não ter de ouvir a nós mesmos.

É JORNALISTA E AUTOR DE ‘OS DIAS DA CRISE’ (COMPANHIA DAS LETRAS)

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