Dona Ingrid e seus dois maridos

Entre cerimônias e hotéis de luxo, rodopio parisiense da ex-refém das Farc expõe o lado novelesco de seus 'eleitos' amorosos

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2008 | 00h50

Ingrid Betancourt tem. Já Ingrid Bergman, que era legal, não tem mais. Por que a lamentosa comparação, ao estilo do velho Pasquim? Porque há mais pontos em comum entre as duas Ingrids do que supõe a vã analogia.Beleza física não é, por supuesto. Mas vocação para atriz a xará colombiana já demonstrou possuir. Noves fora as coincidentes iniciais de seus nomes e o fato de que, ao menos na tela, Ingrid Bergman também experimentou as asperezas de uma guerrilha (em Por quem os Sinos Dobram), ambas foram vítimas do que ainda vão identificar como Síndrome de Dona Flor.Bergman largou os filhos e o marido nos EUA para viver, na Itália, com o cineasta italiano Roberto Rossellini, suportando com dignidade e estoicismo o estigma de adúltera e ''mau exemplo para as mulheres americanas''. Betancourt não largou os filhos e o marido de moto próprio, mas, depois de seis anos e meio de cativeiro, ei-la publicamente dividida entre dois cônjuges: o atual (Juan Carlos Lecompte) e o ex (Fabrice Delloye). O colombiano ela deixou plantado em Bogotá, viajando para Paris na companhia do francês, apenas como amigos, bien sûr, e ainda se deu o luxo de flanar pela capital francesa com o ex-namorado Dominique de Villepin.Se a pecha de adúltera quase acabou com a carreira da atriz, o oposto aconteceu com a Ingrid que hoje nos resta. Bergman ficou duas décadas sem poder filmar em Hollywood. Nem se tivesse cometido adultério Betancourt perderia a aura de santa e mártir que as Farc lhe asseguraram e a mídia internacional não se cansa de alimentar. Aliás, se alguma prevaricação foi cometida entre os Betancourts, o único suspeito, por enquanto, é o marido da ex-senadora. Juan Carlos, dizem, teria mantido dois casos amorosos durante o cativeiro de Ingrid. Ele nega, mesmo desconfiando, como deve desconfiar, que boa parte da humanidade o perdoaria, por também acreditar que Ingrid jamais voltaria ao convívio familiar.Santo Juan Carlos não é. Mártir? Conjugal talvez seja. Ingrid o tratou, no reencontro do dia 2, com extrema frieza. Dela Juan Carlos esperava um sorriso a mais, calorosos abraços ''de três a quatro minutos'', um reencontro à altura dos seis anos e meio de distância. Contentou-se com carregar-lhe a mochila, como um almocreve de luxo, e dar-lhe um hasta luego com jeito de adiós no aeroporto internacional de Bogotá. Eterno coadjuvante na vida da mulher, sua queixa (''Fabrice é bacana, mas agora o marido sou eu'') não surtiu o menor efeito. E Juan Carlos ficou na Colômbia, entregue a las cucarachas e à suspeita de que o amor de Ingrid por ele ''pode ter acabado na selva''. Patético.Já em Paris, numa entrevista, Ingrid foi reticente: ''Eu sigo meu marido. Isso quer dizer que ele me segue. Mas não sei se me seguirá. Em todo caso, há espaço...'' Ao que foi dado notar, o único marido que ela tem seguido ultimamente é Fabrice.Não estará exagerando quem disser que Ingrid é uma mulher esquisita. ''Hum!...'', comentou, à la Paulo Francis, o dramaturgo Tom Stoppard, quando mencionei seu nome, durante um jantar, na quarta-feira. Mais não disse, deixando implícito o seu desprezo pela heroína colombiana. Desprezo ou cansaço?O etnólogo francês André-Marcel d''Ans, por exemplo, já cansou. Ingrid, para ele, é ''uma perfeita chata'', ''uma esquerdista dândi'', que está ''acabando com as reservas de paciência de alguns e de condescendência de outros''. O mundo ainda festejava a libertação dela quando, em plena Flip, o escritor Fernando Vallejo chocou presentes e distantes acusando-a de ''manipuladora'', de haver fabricado o próprio seqüestro. Vallejo é farromeiro e boquirroto, mas com sua opinião sobre Ingrid muita gente já começa a concordar. Até a ex-colega de chapa de Ingrid, nas eleições presidenciais de 2002, e companheira de cativeiro, Clara Rojas, libertada em janeiro deste ano, já a chamou de ''mentirosa''. Ingrid dissera ter salvo a vida do filho de Clara, nascido no cativeiro. Segundo Clara, as duas viviam separadas, na selva: ela e o filho na zona dos não-fumantes.Vallejo, que além de épatteur é ateu e anticlerical convicto, deve estar horripilado com as recentes manifestações de religiosidade de Ingrid. Na selva, ela virou crente. Se Rosangela Lyra não exagerou, até amansar o truculento comandante das Farc com orações Ingrid conseguiu. Como? ''Pedindo ao Senhor que o abençoasse.''Rosangela Lyra, talvez seja necessário explicar, é a sogra do jogador Kaká. Representante da Dior no Brasil e presidente da ONG Aliança de Misericórdia, sua beatitude só não comove incréus como Vallejo e Christopher Hitchens, que, se bem o conheço, já deve estar ruminando um perfil de Ingrid no mesmo tom em que escreveu sobre madre Teresa de Calcutá na década passada.As duas se cruzaram, dias atrás, na entrada do luxuosíssimo e caríssimo Hotel Fouquet''s Barrière, em Paris. Não foi obra do acaso, mas do Todo-Poderoso, assegurou a mãe de Caroline Celico à colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo. ''Tremi inteira'', confessou Rosangela, que àquela altura, não fosse a providência divina, deveria estar na Polônia, cumprindo uma ''missão religiosa''. As duas se abraçaram, ''trocaram emoções'' (e uma garrafa com água benta de Lourdes), conversaram ''como se fossem amigas de uma vida''. Em espanhol, francês e, ainda segundo Rosângela, na ''língua de Deus'', sem contudo precisar se em árabe, aramaico ou sânscrito.Falaram até sobre problemas sociais. Mas Rosangela não mencionou quais problemas abordaram aconchegadas pelo majestoso lobby, misto de art déco e estilo império, do Fouquet''s Barrière. Na certa evitaram tocar no papel das oligarquias colombianas no surgimento das Farc; e, se o fizeram, Rosangela, par delicatesse, não se referiu à família Betancourt.A sogra de Kaká achou Ingrid ''muito magra'' e até sentiu-lhe ''todas as costelinhas'' ao abraçá-la. O repórter do New York Times Steven Erlanger teve uma visão diferente de Ingrid, ao encontrar-se com ela no Hotel Meurice, onde, segundo ele, ela estaria hospedada. (Eis mais uma dúvida a respeito de Ingrid a ser esclarecida: em que hotel cinco estrelas de Paris ela está hospedada?) Erlanger achou sua aparência ''saudável''. Quem sabe como a que tinha ao ser resgatada. E pensar que, meses atrás, ela parecia não ter mais do que uma semana de vida.

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