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Vitória de Berlusconi na Itália deveria preocupar aqueles que se importam com a democracia

Bill Emmott*, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2008 | 23h33

É preciso admitir que o homem tem talento. O triunfo de Silvio Berlusconi na eleição geral da Itália para obter um terceiro mandato como primeiro-ministro - aos 71 anos de idade e menos de dois anos após seu derrotado governo de cinco anos ter deixado a Itália como a economia de crescimento mais fraco da Europa Ocidental - é notável. É um testemunho de sua resistência, mas também de uma campanha cheia de piadas e provocações. Mas sua vitória deve ser altamente preocupante para todo aquele que se importa com a democracia.Isso porque, além de seu indubitável encanto pessoal, Berlusconi teve algumas vantagens poderosas. Ele é, de longe, o homem mais rico da Itália, desfrutando de um quase monopólio da televisão comercial, um grande império editorial e uma quantidade de outros interesses. Tamanho domínio da radiodifusão por um líder partidário deveria ser considerado uma violação inaceitável da democracia em qualquer outro país europeu-ocidental. Aliás, se a Itália fosse uma candidata a ingressar na União Européia (UE), semelhante concentração de poder seria um obstáculo. Como ela foi um membro fundador da UE, em 1957, nem governos nem a Comissão Européia ousam levantar a questão. Como candidato de oposição, a propriedade de todos os canais de TV comerciais, exceto o fraco canal La7 e a cooperativamente direitista Sky Italia, ajudou enormemente Berlusconi. No governo, sua vantagem é ainda maior porque ele pode explorar, explorou e explorará a tradição italiana de interferência política no sistema público de radiodifusão, RAI. Uma razão importante para ele ter perdido em 2006 por pequena margem, apesar de seu governo ser amplamente considerado um fracasso, foi que ele controlava basicamente toda a programação noticiosa da TV. Durante a campanha, esses temores não devem ter ficado ausentes das mentes de cada repórter e comentarista político da RAI que quisesse permanecer no emprego.Neste ponto, eu preciso revelar que há uma história entre mim e Berlusconi. Em 2001, quando eu era editor da Economist e havia outra eleição italiana iminente, nós fizemos uma longa investigação de suas finanças e seus muitos enredamentos legais. Como resultado dessa investigação, e conscientes de seu conflito de interesse como um dono de mídia, nós o declaramos "inadequado para governar a Itália" em nossa capa. Metade da Itália execrou a Economist por essa capa e a outra metade nos beatificou. O então vitorioso Berlusconi nos chamou de "comunistas", assinalou corretamente minha semelhança física com Lenin e nos brindou com o primeiro de dois processos por calúnia, que ainda estão rolando pelos tribunais italianos.A notoriedade que isso trouxe foi uma boa diversão. Mas por trás disso estão algumas questões sérias. Os defensores de Berlusconi dizem que há muita competição na mídia italiana, e por isso o fato de ele possuir TVs não tem importância. Certamente que tem, pois uma TV é muito mais poderosa que a mídia impressa, mas Berlusconi usa também uma mistura de ações judiciais, clientelismo e ameaças para intimidar jornalistas italianos.Seus defensores argumentam que ele nunca foi considerado culpado em nenhum processo judicial. Isso é uma inverdade flagrante, mas Berlusconi tem sido salvo pelo estatuto de limitações e pela maneira como seu próprio governo em 2001-06 reduziu essas limitações e descriminalizou a contabilidade falsa de que ele fora acusado. Berlusconi deveria ser uma história exemplar para nós de tudo que acontece quando se permite que alguém domine a mídia, e quando os interesses de grandes empresas e do governo se confundem.Mas o que acontecerá agora? Berlusconi teve uma vitória mais decisiva do que a maioria dos especialistas esperava, e governará em coalizão com a Liga do Norte, partido contrário a imigrantes e a direitos regionais que foi o outro grande vencedor dessa eleição. É bem possível que seu governo dure muito mais que o de seu antecessor de centro-esquerda. A representação partidária no Parlamento italiano foi drasticamente simplificada com essa eleição, o que certamente é uma boa coisa. Mas sem nenhum representante socialista ou comunista - pela primeira vez desde 1946 - existe algum risco de eclosão de um ativismo extraparlamentar em resposta ao programa do novo governo.A Itália possui tribunais e um presidente que agem como vigilantes constitucionais sobre o governo, por isso há esperanças de controle - apesar de Berlusconi ter ameaçado submeter todos os procuradores e juízes a exames de sanidade mental, durante a campanha. Seu governo provavelmente será mais corporativista que propenso ao livre mercado, ao menos pelas evidências de uma campanha em que ele prometeu bloquear a venda da quase falida Alitalia à Air France-KLM. Essa intervenção e qualquer nova ajuda estatal o colocarão em conflito com a Comissão Européia; e um provável aumento do déficit orçamentário da Itália - graças a seus prometidos cortes de impostos e aumentos de gastos - o colocará em conflito com outros governos da UE.Nesse caso, é importante que eles enfrentem Berlusconi. Nem Gordon Brown nem nenhum outro líder europeu devem repetir a vergonhosa bajulação de Berlusconi exibida por Tony Blair, que revelou a absoluta falta de princípio deste suposto idealista. Eles terão de ameaçar o primeiro-ministro italiano com a polidez diplomática que é devida a qualquer chefe de governo da UE, mas devem ir além disso. As férias de Brown seriam mais bem passadas em Dorset que na Sardenha. * O jornalista Bill Emmott foi editor da revista The Economist

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