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Donos da América

Se os Estados Unidos vão ser governados por apenas um punhado de famílias, que tal a minha?

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

21 Março 2015 | 16h00

 No exato momento em que as pessoas ainda estão falando do best-seller surpresa neste país, o Capital no Século 21, de Thomas Piketty, os fatos parecem estar confirmando ao menos uma das ideias do autor. Piketty postula que sempre que a taxa de retorno sobre o dinheiro investido for maior que a taxa de crescimento da economia, “dinastias de riqueza” governarão a sociedade. E aqui estão os Estados Unidos, nos primeiros meses de 2015, menos de um ano antes de uma primária presidencial em New Hampshire - o tradicional ponto de partida da corrida presidencial que culminará com a eleição em novembro de 2016 - preparando-se para uma batalha pela Casa Branca entre Hillary Clinton e Jeb Bush. 

Em outras palavras, se a eleição se resumir à escolha entre outro Clinton e outro Bush, uma vitória de qualquer um deles significaria que, num espaço de 32 anos - de 1988 a 2020, o fim de uma presidência Bush ou Clinton - terá havido um Clinton ou um Bush na Casa Branca em 24 desses anos.

Isso são muito mais anos do que os fundadores dos EUA estavam pensando quando estipularam limites de mandatos para políticos. São muito mais anos do que qualquer um tinha em mente no nascimento da nação, um evento que deveria significar o fim de privilégios herdados e também do tipo de riqueza herdada que obstruía a mobilidade social em vez de favorecê-la.

A possibilidade de o país se tornar um brinquedo de apenas duas famílias chegou a indignar a matriarca de uma das famílias. Em janeiro, Barbara Bush, mulher de George H. W. Bush e mãe de George W. e Jeb Bush, disse a repórteres: “Se não conseguirmos encontrar mais de duas ou três famílias para concorrerem à presidência, isso é insensato. Kennedy, Clinton, Bush. Há mais famílias do que isso”. Ela estava provavelmente pensando que havia pelo menos 10, ou talvez 15 famílias aptas a produzir rebentos com pedigree para dirigir os Estados Unidos - e eles todos pertencem ao mesmo country club. Pouco importa. Seu coração parecia estar no lugar certo.

Epa! Há alguns dias apenas, Barbara percebeu que havia cometido um erro. Ela enviou então um e-mail de arrecadação de fundos a apoiadores de Bush com a atrativa chamada “Mudei de ideia”. No e-mail em si, após atribuir sua hesitação original a preocupações maternais com os rigores da campanha, ela disse que “Jeb é nossa melhor chance de recuperar a Casa Branca em 2016, e espero que vocês se unam a mim para convencê-lo a concorrer”. Mães!

Há poucas coisas mais deprimentes do que o pensamento de Hillary ou Jeb comandando o país. Se for Hillary, ninguém jamais saberá em que medida Bill estará exercendo sua influência por trás do pano. Se for Jeb, ninguém jamais saberá com certeza se um criminoso ou não estará sentado no Salão Oval, já que Jeb era governador na época da muito contestada recontagem de votos da Flórida em que seu irmão George W. foi declarado vencedor.

Há também a questão de se ter uma relação realista com a passagem do tempo. Eu não me sentiria confortável se uma das babás que me cuidava quando eu tinha 8 anos, que estaria nos seus 70 agora, viesse morar conosco. Eu sentiria, creio que justificadamente, que não fiz muito progresso no mundo desde a última vez que a vi, que foi em algum momento dos anos 1960, quando ela estava me pondo na cama. Gosto de pensar, e acredito que muitos americanos concordariam comigo, que o país avançou depois dos Clintons e do duplo reinado dos Bushs. Gostaria realmente que os Clintons e os Bushs avançassem também. Marlon Brando satisfez seu impulso por controle comprando sua própria ilha perto do Taiti. Por que eles não tentam algo assim? Poderiam chamá-la de Clintônia ou Emirados Bush Unidos. Assim, toda vez que alguém nos Estados Unidos quisesse fazer uma doce viagem nostálgica ao passado (para celebrar um aniversário de casamente, por exemplo) poderia passar uma semana relaxante e feliz com Hillary ou Jeb e suas dinastias - quero dizer, famílias.

Finalmente, e com o risco de soar egoísta ou narcisista, se o país vai ser governado por apenas um punhado de famílias, que tal a minha? Meu filho fará 9 anos em agosto, o que significa que dentro de aproximadamente seis anos ele terá a maturidade emocional e intelectual do líder político americano médio, e francamente, se me perdoam o orgulho de pai, bem mais que isso. Minha filha, que fará 5 em setembro, poderia assumir em seguida, depois de ele ter servido os dois mancados consecutivos de praxe que se tornaram o direito de nascença dos rebentos de nossas mais importantes tiranias políticas. Quero dizer, dinastias. Quero dizer, famílias. 

Não vejo por que os Siegels não poderiam servir seu país ao lado dos Kennedys, Clintons e Bushs. É bem verdade que nós não causamos a morte de ninguém, não mentimos a todo o mundo ocidental, não roubamos uma eleição nem iniciamos uma guerra ilegal e imoral. Mas eu tenho algumas multas de trânsito não pagas. É um bom começo.

Deixando o humor de lado, a ideia de outra presidência Clinton ou Bush está começando a me deixar nervoso. Não idealizo o Brasil, sei que o país tem seus problemas. Eu sei, eu sei, eu sei. Mas será que alguém poderia me escrever, aos cuidados deste jornal, e me dizer como posso conseguir asilo político para mim e para minha família? Sou um bom trabalhador. E cozinho, também! E, quem sabe? Após alguns anos, talvez possa concorrer à Prefeitura de São Paulo. 

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

LEE SIEGEL É ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL AMERICANO. ESCREVE PARA THE NEW YORK TIMES, THE NEW YORKER E THE NATION

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