Donos da cidade

O nome é Victor Dragonetti. Ou simplesmente Drago. Há 60 anos talvez você o chamasse de Robert Capa. Porque, como o mitológico húngaro que fez os melhores registros visuais da 2ª Guerra Mundial, esse paulistano de 22 anos está sempre muito, muito perto. A selvagem cidade de São Paulo é o campo de batalha onde brota sua fotografia. Seja o campo da batalha que desde junho divide almas e cérebros sob o gás lacrimogêneo, seja o campo da batalha cotidiana da gente comum que sai com o sol para trabalhar, toma ônibus cheio, pede esmola, vende flores ou o corpo na rua... Gente, como ele diz, que está na cidade, mas não se apropria dela - apenas passa, deixando um rastro de conflitos e cores saturadas à curiosidade do fotógrafo.

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2013 | 02h20

Drago é um dos fundadores do SelvaSP (selvasp.com), na definição do grupo "um bando de fotógrafos de rua aberto a todos que compartilham a prática do ócio contemplativo" e que estejam dispostos a "sentir as ruas da maior cidade do Hemisfério Sul". Jovens de espírito, ele faz questão de frisar, a fim de ter São Paulo como musa e devolver a ela uma parte do que lhe tomam. As imagens produzidas pelo SelvaSP são distribuídas/exibidas na forma de zines, coladas como lambe-lambe, penduradas em varais.

Fotógrafo independente, irreverente, desapegado, duro, cheio de dúvidas existenciais, trabalha com lentes antigas sem foco automático porque - ele parafraseia Cartier-Bresson - "foco é um conceito burguês". Este ano, Drago concorre ao Prêmio Esso de Jornalismo. Um talento gigante. E ele está só começando.

Fotografia pra quê e por quê?

Porque um dia, aos 14 anos, eu achei uma câmera Zenit no quarto da minha mãe. Àquela altura eu já era mau aluno, tinha passado por nove escolas diferentes, poucas coisas me interessavam. Mas aí olhei através do visor dessa câmera e um mundo mágico se abriu pra mim. E para quê? No meu caso, que faço fotografia de rua, pra devolver a cidade às pessoas. Fotografando a rua eu tenho a nítida noção de que a cidade pertence a quem a trucida: os carros, os estacionamentos, às construtoras de prédios. Fotografar a rua é como abraçar a cidade, tomar posse dela, sentir, pelo menos naquele momento, que ela é minha e não dos poderosos.

Como é seu processo criativo?

Gosto de sair para fotografar já tendo o título do ensaio na cabeça. Isso direciona melhor meu olhar. Por exemplo, agora estou clicando um trabalho que chamei de (In)Dependência. O conceito é mostrar como a vida na cidade é uma estrada de mão dupla: nos tornamos dependentes do consumo, do status, do trânsito e da segregação para nos acharmos independentes. Além disso, me guio principalmente pela luz. A luz da manhã do centro de São Paulo está no meu inconsciente. Era o que mais me fascinava na infância quando eu saía bem cedinho do Jabaquara para ir para "a cidade" comprar peça de moto com meu pai, que é mecânico.

Ao fotografar os protestos, você não chega perto demais?

Não é que eu chego, eu já estou perto. Muitos fotógrafos mantêm distância física e ideológica em nome da imparcialidade. Só que pedir fotografia imparcial é pedir fotografia que mostra só o lado que agrada a quem pediu. Logo, fotografia imparcial não existe. Então as minhas fotos deixam claro o lado que eu escolhi para estar perto.

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