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Dose cavalar

Se for mesmo homem de palavra, seu primeiro ato como prefeito da cidade de Nova York será acabar com aquelas charretes que fazem ponto no Central Park. Antes, porém, Bill de Blasio terá de confirmar nas urnas seu franco favoritismo. Se nenhuma intempérie ocorrer até as eleições de 5 de novembro (as pesquisas lhe dão 44 pontos de vantagem sobre o candidato republicano, Joe Lhota), em 1º de janeiro de 2014 os cavalos que há décadas arrastam turistas por Manhattan serão oficialmente aposentados.

SÉRGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h17

Das promessas de campanha do candidato democrata à sucessão de Michael Bloomberg, essa foi a única com data marcada, em parte por ser a medida de mais fácil execução, apesar das pressões dos que pensam mais em paparicar o fátuo romantismo dos turistas e assegurar o emprego de 150 cocheiros do que na exploração desumana dos cavalos e nos distúrbios que as charretes causam no caótico trânsito da cidade.

Os cocheiros deverão ser reaproveitados no comando de pequenos veículos de tração elétrica, e os cavalos, alforriados de acidentes, atropelamentos fatais, maus-tratos e matadouros a serviço da indústria alimentícia, recolhidos a um santuário equestre. Era uma antiga reivindicação dos nova-iorquinos que se preocupam com a exploração desumana de animais.

O republicano Bloomberg, há 12 anos administrando a cidade, menosprezou-a, assim como a democrata Christine Quinn, presidente da Câmara dos Vereadores e pretendente ao cargo de prefeito, declaradamente favorável à manutenção das charretes. Oposição meia bomba ao atual prefeito, Quinn parecia pule de dez, inclusive por atrair os votos de feministas e gays (casou-se com uma advogada no ano passado), mas o azarão De Blasio a deixou comendo poeira nas primárias do partido, em setembro. "Nova York é tão liberal, que até a candidata lésbica foi vista como conservadora", gozou o humorista Stephen Colbert.

A questão dos cavalos foi apenas a azeitona do martíni. A plataforma completa do candidato democrata é um arrasa-quarteirão político, uma carta de intenções audaciosamente progressista como há muito não se tinha notícia no país, uma restauração revigorada do New Deal rooseveltiano, uma pá de cal na prudência pessedista dos Clintons e Obamas, um tratamento de choque no conservadorismo republicano, uma declaração de guerra à direita e, em particular, aos aloprados do Tea Party.

De Blasio, nova-iorquino de 52 anos, filho de alemão com italiana, advogado público, ativista político desde a década de 1980 e um dos organizadores da campanha de Hillary Clinton ao Senado em 2000, fez do combate à desigualdade sua bandeira. Não quer mais uma Nova York só para os ricos, com quase a metade da população rondando ou já na linha de pobreza. O lema de sua campanha ("One New York, Rising Together") enaltece a união de todos para evitar uma ruptura irreversível, que tampouco interessa aos mais abonados.

Incomodado com a incontrolável gentrificação da cidade desde que os republicanos ocuparam a prefeitura em 1994, pretende aumentar os impostos dos 400 mil milionários residentes em Nova York, proteger os inquilinos contra os proprietários inescrupulosos e o lobby das imobiliárias.

Difícil imaginar, mesmo numa cidade tradicionalmente liberal como Nova York, que um político declaradamente a favor dos empregados (não dos patrões), solidário com as reivindicações do sindicato dos professores e empenhado em assegurar status de cidadão a todos os imigrantes, implementar programas de alimentação, saúde, moradia, seguro-saúde e serviços essenciais a quem de direito, preservar a segurança pública sem as práticas truculentas oficializadas depois do 11 de Setembro, combater sem tréguas o bem-bom das corporações promiscuamente ligadas a altas esferas políticas e os abusos do mercado financeiro, tenha obtido tamanha aceitação popular em todas as faixas etárias e sociais.

Claro que a direita já o acusou de "socialista", de pretender instalar a "República Popular de Nova York", e em vão devassou seu passado, atrás de algum deslize comprometedor. De Blasio foi à Nicarágua levar comida e medicamentos, não para lutar ao lado dos sandinistas. Os republicanos e seus rottweilers na mídia se dividem entre os que consideram as promessas do democrata irrealistas, inexequíveis (algumas delas, é verdade, não são da alçada municipal), e os que acreditam que elas, se postas em prática, contribuirão para a volta da criminalidade aos índices de 40 anos atrás e a fuga de empresários e seus negócios para outras plagas.

Com o mesmo grau de desonestidade de outras campanhas republicanas, a propaganda eleitoral de Joe Lhota já começou a semear o pânico na população. Com De Blasio, Nova York se transformará num paraíso de delinquentes e assaltantes, ameaçam os spots publicitários do continuísmo. Na quinta-feira, um deles mostrava uma assustada velhinha, branca, numa estação do metrô, tendo ao fundo um assaltante em potencial. Negro. Como Willie Horton, o espantalho usado na disputa de Bush pai com o democrata Michael Dukakis, nas eleições presidenciais de 1988.

De Blasio parece um candidato perfeito, surgido na hora certa. Passado impecável, casado com uma negra, Chirlane McCray, que só deixou de ser gay ao apaixonar-se por ele em 1991, dialoga com todas as minorias, conta com o apoio maciço da imprensa liberal e de esquerda e até do eleitorado jovem, graças ao filho Daniel, cujo penteado afro virou atração na TV e nas ruas da cidade.

"É o movimento Occupy Wall Street chegando ao poder", saudou um colunista do semanário The New Republic. Outros comentaristas o identificaram como "a ponta visível de um novo populismo econômico que abalará todo nosso sistema político". Ao que Paul Krugman acrescentou: "Parece algo prematuro, mas espero que estejam certos".

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