DIEGO PISANTE
DIEGO PISANTE

Dose forte de vida numa prosa de muitas faces

A publicação dos contos completos de Caio Fernando Abreu mostra a razão de o escritor ter virado a voz de uma geração nos anos 1980 e 1990

Alberto Bombig, O Estado de S. Paulo

04 Agosto 2018 | 16h00

A publicação da obra completa de Caio Fernando Abreu reúne definitivamente a trindade máxima da literatura marginal brasileira no catálogo da Companhia das Letras. A partir de agora, assim como ocorreu com os poetas Paulo Leminski e Ana Cristina César no início desta década, Caio poderá ser lido com pompa e circunstância, em edições bem acabadas e enriquecidas por textos de estudiosos renomados. Escrito de outro modo, o trio, quase 40 anos após sua explosão criativa, virou mainstream, rio de água forte e corrente do qual seus vários afluentes continuam a irrigar a cena atual. Cada um a sua maneira e respeitadas variações estilísticas (Leminski, por exemplo, era mais caprichoso quanto ao rigor formal), eles produziram a mais inventiva literatura no período compreendido entre o final dos anos 1970 e o início dos 90.

Os Contos Completos amarram toda a prosa breve de Caio Fernando Abreu. Isso significa que não estamos falando somente de “contos”, conforme sugere o título. Afinal, muitos dos textos reunidos no livro não se enquadram nas regras do figurino clássico desse gênero literário(e também do contemporâneo). Mas quem se importava para “dress code” na virada dos 70 para o 80? O barato, a malandragem do poeta, como então cantava Luiz Melodia, era justamente ignorar as convenções e debochar dos dogmas. Surgiu daí o termo “marginal” para se referir a essa produção com o pé na contracultura e que se propunha a subverter as regras, mandar o mercado para aquele lugar, derrubar as paredes dos gabinetes e valorizar a experiência e a “experimentação”. 

Caio Fernando Abreu fez tudo isso com extrema competência e virou a voz de uma geração. Seis livros dele estão reunidos na compilação, em ordem cronológica de publicação: Inventário do IR-Remediável (1970), O Ovo Apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos Mofados (1977), Os Dragões Não Conhecem o Paraíso (1988) e Ovelhas Negras (1995). Há ainda dez contos avulsos (três deles inéditos em livro, segundo a editora). Fecham o catatau três textos críticos escritos por Italo Moriconi, Alexandre Vidal Porto e Heloísa Buarque de Holanda, respectivamente.

Feita a contextualização e o registro acima, como manda o figurino do jornalismo, vamos, então, ao que realmente interessa: a partir de agora estão ao alcance da mão, dos olhos e do bolso do leitor, num único volume, textos fenomenais como Os Sapatinhos Vermelhos, Sargento Garcia, Sem Ana, Blues, Morangos Mofados, Aqueles Dois, Uma História de Borboletas e A Morte dos Girassóis. Ler este primeiro volume é como encontrar no fundo de uma velha caixa a coleção de slides (instantâneos, o Instagram da época) daqueles tempos loucos. Cocaína, política, desbunde, Aids, amores, desamores, vodka, astrologia, violência, música, esperanças e frustrações num Brasil que se preparava para sair de uma ditadura se revelam na prosa visceral de Caio Fernando Abreu.

Uma mistura potente de crônica, poesia e jornalismo para destilar uma literatura multifacetada de primeira grandeza. “Deve haver alguma espécie de sentido ou o que virá depois?”, pergunta o narrador de Luz e Sombra. A reunião desses textos não tem uma resposta (ou tem?). Porém, nos lembra que a Literatura é sempre uma dose forte de vida em nossa luta contra a morte. 

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