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Douglas Diegues usa o portunhol em livro para o público infantil

Primeira obra do escritor para essa faixa etária mescla leveza e desinibição

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

04 de janeiro de 2020 | 16h00

A escritora romena Herta Müller, vencedora do Nobel de Literatura em 2009, afirmou, em uma entrevista concedida à jornalista austríaca Angelika Klammer, que, quando era criança, tinha a impressão de que tudo o que “fazia ou pensava não estava dentro dos limites do permitido”, por isso, guardava suas ideias para si. A escritora confessou, contudo, que, por vezes, cometia o que chamava de “deslizes”, e que um dos poucos que cometera foi em uma conversa com a avó. Nela, Müller comparou o coração da Santa Maria com uma melancia aberta. A avó parece ter concordado com a neta, mas alertou-a para não comentar isso com ninguém e ainda a aconselhou: “Não leve seu pensamento para onde é proibido”. Müller fazia parte de uma família que pertencia à minoria alemã na Romênia, a qual precisava agir comedidamente para não sofrer perseguições. 

Mas não é preciso nascer em uma família assim para se ter os pensamentos tolhidos pelos adultos. Costuma-se idealizar a infância. Para os adultos é como se as crianças vivessem em um mundo à parte e se interessassem somente por aquilo que eles acreditam ser do interesse delas. E as crianças, por sua vez, parecem entrar nesse jogo e, para agradá-los ou por medo de serem consideradas fora do padrão, não confessam desejos e curiosidades. Müller recorda que, quando era criança, temia que alguém a visse “comendo e acasalando flores. Seria a pior coisa se alguém me apanhasse, pois pensariam que eu não era normal”. 

Essas observações são oportunas quando lemos Era uma Vez en la Fronteira Selvagem, o primeiro livro dedicado ao público infantil de Douglas Diegues, um dos mais bem-sucedidos praticantes do portunhol (língua que mistura português, espanhol, guarani entre outras faladas na América). Mas, como nessa “fronteira selvagem” de Diegues não existem muros, os adultos também são convidados a atravessá-la. Outro livro “fronteiriço” que cabe mencionar aqui é Contos de Duendes e Folhas Secas, de Sérgio Medeiros, no qual há personagens inesquecíveis e inusitadas como os duendes guaranis que dão título ao livro e que andam pelas Américas em um ônibus feito de abacaxis maduros, seguidos de insetos. 

Na “fronteira selvagem”, não se seguem convenções escolares, sociais etc., como destaca Diegues em seu prefácio: “La escrita em Portunhol Selvagem, ou el portunhol falado, es uma prática subversiva al emprego escolar da língua nacional como império estatal ou la língua oficial como propriedade nacional ” e prossegue afirmando que seu livro é “kontra la ditadura del mundo de los adultos”. Diegues narra suas aventuras saborosamente desconcertantes e hilárias com leveza e desinibição. É com bastante naturalidade, por exemplo, que escritor anuncia que as “crianzas” abrem um sorriso quando descobrem essa nova língua “que brota como flor de la buesta de las vacas”.

É também com naturalidade que Douglas Diegues conta aos seus leitores mirins histórias como a de um sapo de All Star, que gostava de viver em um poço, lendo seus livros, e por isso recusava veementemente os inúmeros convites feitos por um mandorová (“um lagarto que se arrasta como uma sanfona em miniatura pelo chão”) para que ele conhecesse as maravilhas do mundo. A resposta do sapo ao convite é sempre a mesma: o “Mandorová estava mentindo, pois fora daquele poço non existia puerra ninguma”. 

Há ainda a história do “catchorrinho” que caiu morto “no chão como quem beija a lona de la vida”, e a história do “Cine Guaraní”, frequentado por todos os bichos da fronteira, com sessões chamadas de “transnoches”, dedicadas ao “cine pornô para mayores de 18 años”. E, prossegue o escritor com muita espontaneidade: nas terças, o cinema estava reservado “para el Transnoche Nipôniko. Cine pornô contrabandeado de Tóquio”. Diria que Diegues conta essas histórias como se estivesse no pátio de um colégio, na hora do recreio, rodeado por colegas da mesma idade, que já investigaram essas e outras questões na internet, sem o “conhecimento” dos adultos. 

La Forma de la Banana traz à tona personagens de contos infantis clássicos, como os três porquinhos, a Branca de Neve e os sete anões, as quais, nesse mundo buliçoso, podem contestar seus papéis. Branca de Neve faz uma torta de maçã (envenenada?), Chapeuzinho Vermelho “troca ideias” com o Lobo Mau. Mas, nessa história, só quem entende de “bananas” é mesmo “La Hormiga de Bunda Dourada”. As ilustrações de Ricardo Costa, principalmente as que retratam a Branca de Neve e a Cinderela, lembram as obras do norte-americano Paul McCarthy, que subverte o universo de Disney. A Chapeuzinho de Ricardo não parece nada comportada de minissaia, meia arrastão e bota cano longo de salto alto. 

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA, ENTRE OUTROS, DE ‘A BIBLIOTECA E A FORMAÇÃO DO LEITOR INFANTOJUVENIL’ (ILUMINURAS)

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