Reprodução/Twitter
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Douglas Stuart volta à Escócia em ruínas para retratar adolescência em novo ritmo

Ambientado no pós-Era-Thatcher, o romance de formação 'Young Mungo’ volta ao arquétipo trabalhado por Stuart em Shuggie Bain

Ron Charles, Washington Post

15 de abril de 2022 | 20h00

Aos quinze anos de idade, Mungo tem aquele tipo de vulnerabilidade que faz as pessoas quererem pegá-lo no colo – ou espancá-lo. Ele é o terno herói escocês do novo romance de Douglas StuartYoung Mungo. É uma história sobre um despertar romântico e sexual pontuado por uma violência terrível. Em meio a todo o sofrimento, a vida de Mungo deixa duas coisas muito claras: 1) Receber o nome do santo padroeiro de Glasgow não dá proteção a ninguém e 2) Stuart escreve feito um anjo.

Poucos romancistas ascenderam tão rapidamente, mas a rapidez do sucesso de Stuart esconde anos de luta. Seu romance de estreia, Shuggie Bain, foi rejeitado por dezenas de editoras antes que a Grove Atlantic finalmente reconhecesse a genialidade do manuscrito. O livro ganhou o Booker Prize em 2020, levando o escritor escocês-americano à fama mundial.

Agora, apenas dois anos depois, Stuart está de volta com outro drama familiar magistral ambientado na ruína econômica de Glasgow após o reinado devastador de Margaret Thatcher. É uma terra sem esperança, com indústrias demolidas, abuso de substâncias e pobreza geracional. Assim como em Shuggie Bain, o protagonista é um menino, o caçula de três irmãos criados por uma mãe alcoólatra. Mas, se Stuart não se afastou muito dos andaimes de seu romance de estreia, ele conseguiu produzir uma história com forma e ritmo muito diferentes.

Situado no início dos anos 1990, Young Mungo alterna entre duas linhas temporais com cerca de cinco meses de intervalo. Na primeira, somos apresentados à notória família Hamilton. Hamish, o irmão mais velho de Mungo, é um líder de gangue protestante que compensa sua pouca altura com excesso de brutalidade. Stuart coreografa as brigas de rua dos jovens com toda a sua adrenalina e engenhosidade tática. Hamish odeia policiais, católicos e “bichas”, mas a única coisa que ele conseguiu ensinar a Mungo é que “era impressionante como uma coisa maravilhosa podia ser destruída tão rápido”.

Jodie, a filha solitária, assumiu todas as responsabilidades domésticas negligenciadas pela mãe egoísta, que desaparece por dias a fio para correr atrás de mais um homem ou uma garrafa. Mo-Maw, como eles a chamam, é um pesadelo que parece ter saído da mente de Tennessee Williams: egoísmo a toda prova, com um forte tempero de vaidade e sentimentalismo. Mas Mungo ama Mo-Maw incondicionalmente: é sua natureza, sua falha trágica. “Tente se lembrar das partes boas, hein?”, ele diz durante um dos desaparecimentos da mãe. “Ela não é de todo ruim”.“Falando francamente”, um vizinho suspira, “você é todo bondade e zero bom senso”.

A poesia crua da prosa de Stuart é perfeita para captar o espírito desse belo rapaz, com seus estranhos tiques faciais. “Mungo tinha todo esse amor para dar”, escreve Stuart, “estava ali feito uma fruta madura e ninguém se dava ao trabalho de colher”. Sem o afeto que tanto deseja, ele fica hipersensível à eletricidade estática da raiva que está sempre se acumulando e se descarregando no apartamento sujo da família. Esse papel o deixa vacilante no limiar da idade adulta, embora ele seja apenas um ano mais novo que sua irmã. “Seu cabelo rebelde fazia as mulheres quererem cuidar dele”, escreve Stuart. “Mas essa doçura incomodava os outros meninos”.

Os capítulos mais encantadores relatam o romance de Mungo com um gentil adolescente chamado James, que cria pombos-correios. Ele é católico, mas essa não é sua maior chaga. Mungo e James não têm palavras – pelo menos não palavras positivas – para o que são ou o que estão sentindo, mas, com um prazer hesitante, eles tentam descobrir como expressar seu afeto. Deitado na grama com James, vendo as nuvens rolarem pela tarde, Mungo observa que “lhe vinham ondas de beleza seguidas de ondas de vergonha. Vinham como Jodie alternando as torneiras quente e fria e tentando equilibrar a temperatura do banho com ele lá dentro”.

A maneira como Stuart esculpe esse oásis em meio a uma crescente onda de homofobia infunde nessas cenas uma pungência quase insuportável. Mas não há dúvidas sobre os perigos que Mungo e James enfrentam. Nas ruas de Glasgow, valentões como Hamish espancam gays – ou suspeitos de serem gays – todos os dias, só por esporte. O solteirão delicado que mora no apartamento de cima dos Hamilton é visto com franco desprezo. Mungo ouve o desespero da mãe tentando fazê-lo virar homem – uma expressão repetida tantas vezes que parece se erguer em volta de Mungo como as barras de uma jaula.

Na verdade, todo o romance gira em torno desse pânico sobre a masculinidade supostamente ameaçada de Mungo. Em capítulos alternados, acompanhamos o jovem em uma viagem de pescaria no fim de semana. Como era pobre e jamais tinha saído da cidade, Mungo fica alucinado ao ver uma floresta, um lago, um peixe! Sua mãe o confiou aos cuidados de dois homens de seu grupo de AA. O velho São Cristóvão e seu jovem companheiro parecem, a princípio, bêbados inofensivos, versões escocesas do rei e do duque descendo o Mississippi com Huck Finn.

Mas esses capítulos estão encharcados de ameaças. Stuart logo prova ser um escritor de suspense extraordinariamente eficaz. Ele consegue puxar as cordas do suspense até doer enquanto ainda explora com sensibilidade a mente confusa desse adolescente gentil tentando entender sua sexualidade.

O resultado é um romance que caminha para duas crises ao mesmo tempo: o que aconteceu com James em Glasgow e o que pode acontecer com Mungo na floresta escocesa. A primeira é uma calamidade passada que só podemos intuir. A segunda é um horror que se aproxima, que só podemos temer. Mas, mesmo enquanto costura essas linhas do tempo, Stuart cria um espaço para o futuro de Mungo, um pouco de misericórdia para esse jovem esperançoso. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Young Mungo

Douglas Stuart

Grove - 390 páginas - US $27

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