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Petros Giannakouris/AP
Petros Giannakouris/AP

Drama dos refugiados hoje e em outras épocas é analisado em três livros

Especialistas abordam os aspectos histórico, filosófico e até jurídico da questão dos refugiados

André Caramuru Aubert*, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2021 | 15h00

Segundo dados recentes da Acnur, a agência para refugiados da ONU, o mundo já ultrapassou a inacreditável marca de 80 milhões de refugiados (algo como duas Argentinas), dos quais 40% são crianças. E, no entanto, desde o início da pandemia da covid-19, o mundo pouco fala deles. Três livros recentes, que analisam a questão sob diferentes perspectivas, podem ajudar a iluminá-la e trazê-la de volta à pauta com a urgência que merece. 

O primeiro, do historiador austríaco Philipp Ther, The Outsiders – Refugees in Europe since 1492 (Os Forasteiros – Refugiados na Europa desde 1492) estuda história dos sem pátria na Europa desde o fim do século 15 até o drama atual dos refugiados sírios e africanos.

O segundo, do professor da Universidade de Nova York David Nasaw, chamado The Last Million – Europe Displaced Persons from World War to Cold War (O Último Milhão – Europeus deslocados entre a 2ª Guerra e a Guerra Fria), se concentra em um período mais curto (cerca de meio século), que foi gerado pela guerra de Hitler e suas consequências. O foco, aqui, são os milhões de indivíduos que, se por um lado podiam se considerar afortunados por terem sobrevivido à guerra, haviam perdido, em graus variados, lares, famílias, terras, além de, em muitos casos, até mesmo suas pátrias e identidades nacionais.

Finalmente, o terceiro deles, da filósofa italiana Donatella Di Cesare, Estrangeiros Residentes – Uma Filosofia da Migração, baseado em uma sólida abordagem teórica, desenvolve reflexões filosóficas, históricas e jurídicas. A partir desse arcabouço é que a autora fala de sua grande preocupação: a questão dos refugiados hoje. Refugiado não é quem simplesmente emigrou de sua terra em busca de uma vida melhor, mas quem, expulso ou ameaçado, não teve opção. Ao sair deixa-se tudo para trás, e raramente os destinos procurados estarão dispostos a receber de braços abertos quem chega. 

Outsiders é o mais didático dos três livros. Ele conceitua e contextualiza o debate, explica a atuação das organizações humanitárias e cita inúmeros exemplos. O primeiro grande caso tratado é o da expulsão dos judeus e árabes de Espanha e Portugal a partir de 1492, o ano que marcou o fim da Reconquista. Não há consenso sobre os números, mas eles estão pelo menos na casa das centenas de milhares de pessoas, tanto de judeus quanto de muçulmanos. Estes últimos se instalaram majoritariamente no norte da África, principalmente no Marrocos e na atual Argélia; os judeus foram principalmente para as possessões do antigo Império Otomano, para o norte africano e também para destinos europeus menos intolerantes, como Amsterdã, Gênova e Hamburgo.

Avançando no tempo, o esperado seria que os séculos seguintes, do Iluminismo, da revolução científica e da democracia liberal trouxessem algum alívio, mas, sabemos, não foi o que aconteceu. Os grandes eventos políticos e militares foram, não por acaso, as principais causas para o êxodo involuntário de milhões de pessoas: as guerras entre católicos e protestantes, a queda do Império Otomano, a perseguição turca aos armênios, a 1ª Guerra, a Revolução Russa (seguida de guerra civil e da coletivização rural stalinista), a ascensão do Nazismo, a 2ª Guerra (e o Holocausto), a criação do Estado de Israel, a guerra de independência da Argélia, a Guerra Fria, a guerra civil na ex-Iugoslávia e, mais recentemente, a guerra civil síria. O livro de Philipp Ther não só relata e analisa esses casos, como conta algumas histórias individuais (como a do menininho sírio Alan Kurdi, cuja foto, morto afogado em uma praia grega, causou comoção mundial) e avança na análise das causas e explica os esforços mitigatórios, desde as primeiras entidades de apoio a refugiados, na esteira da 1ª Guerra Mundial.

É claro que nada do que aconteceu antes pode ser comparado à catástrofe vivida pelo planeta após 1933, quando Hitler chegou ao poder na Alemanha. O projeto nazista, ao planejar a anexação de extensas áreas, no leste europeu, para serem ocupadas por agricultores “arianos”, já implicava, obviamente, que haveria milhões de pessoas assassinadas, escravizadas ou, na melhor das hipóteses, expulsas de casa. E foi o que aconteceu. O começo da derrocada alemã, a partir de 1942, em vez de aliviar, teve o efeito imediato de agravar a situação, pois, além de o Holocausto ser acelerado, os próprios alemães e seus aliados logo mais estariam incluídos entre os refugiados.

É aqui que The Last Million se destaca. Ao se aprofundar num período relativamente curto, o livro mostra, por exemplo, que nem todos os refugiados são necessariamente inocentes. No caos europeu das semanas e meses após a rendição alemã, seria possível encontrar lado a lado, caminhando pelas estradas desoladas, os sobreviventes de campos de extermínio e seus antigos carrascos. Muitos ex-nazistas, e não apenas alemães, se desfaziam de seus uniformes e documentos e tentavam forjar novas identidades. Não poucos tiveram sucesso, como aprendemos com o caso do lituano Algimantas Dailide, um dos principais responsáveis pela captura e execução de cerca de 40 mil judeus em Vilna e que, alegando o status de refugiado, conseguiu um visto para os Estados Unidos, onde viveu um exílio tranquilo.

Como tudo o que se refere à 2ª Guerra, os números são superlativos também quanto aos refugiados. Logo após a derrota nazista, havia ao menos 5 milhões de pessoas vivendo, sem teto e às vezes sem cidadania, em solo alemão. Nos primeiros meses, os vencedores conseguiram fazer com que a maior parte regressasse a seus países e lares. Mas sobraram os cerca de um milhão do título do livro, a maioria judeus poloneses e de outros países do Leste, que não teriam suas famílias a esperar por eles. Como encarar o vizinho que denunciara sua família aos alemães, ou uma conhecida cujo marido fizera parte de pelotões de fuzilamento de judeus? Afinal, um dos capítulos menos contados da 2ª Guerra é o da participação, no Holocausto, de civis do Báltico e do leste europeu. O problema é que tampouco os países vencedores queriam receber judeus. Não, pelo menos, na quantidade necessária. Foi então que a ideia da criação de Israel começou a ganhar força, apesar da resistência britânica (prevendo os futuros conflitos com os árabes). 

Entre os livros analisados aqui, Estrangeiros Residentes, é o mais abrangente (e denso), e o que mais trata do presente. Fugitivos, exilados, preconceitos, campos de refugiados, muros, tudo isso é tratado aqui. Di Cesare começa falando sobre a Ellis Island, em Nova York, a porta de entrada norte-americana para milhões de refugiados ao longo de décadas, mas símbolo, também, de como essa porta podia ser seletiva e cruel. Embora os estados nacionais e os passaportes por eles emitidos não façam parte da natureza, são eles que determinam quem entra ou não, quem pertence a qual lugar, quem fica ou vai embora. E são os estados nacionais (mesmo que não sejam nazistas) os maiores causadores das guerras que criam refugiados. Uma das grandes sacadas de Di Cesare foi explicitar a multiplicidade de dimensões que envolve a questão dos refugiados: há que se levar em conta aspectos filosóficos, históricos, econômicos, étnicos e jurídicos. E para se enfrentar o problema, será necessário que as sociedades repensem seriamente determinados conceitos, a começar pela ideia de que algumas pessoas têm mais direito do que outras a viver em determinados lugares apenas porque elas (ou seus antepassados) nasceram ali.

O problema dos refugiados está longe de ser simples. Conhecê-lo o sob perspectivas histórica, filosófica e jurídica pode trazer uma nova luz para a questão, e talvez nos ajude a sentir um pouco mais empatia pelos 80 milhões que a Acnur aponta estarem sem um lar, como o engenheiro haitiano que trabalha como frentista no posto de gasolina ali na esquina ou o professor sírio que vende esfihas numa rua de São Paulo.

*É HISTORIADOR E ESCRITOR

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