REUTERS/Arnd Wiegmann
REUTERS/Arnd Wiegmann

Drible stand-up

Quem é o artista que fugiu do impedimento da Fifa e deixou Joseph Blatter perdidinho na área

Fernando Nakagawa | LONDRES, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 16h00

Foi a cereja do bolo. Após uma série de acusações de corrupção e a renúncia meio envergonhada, o ainda todo-poderoso do futebol, Joseph Blatter, ficou atônito com a chuva de dólares que caiu quando se preparava para anunciar detalhes da sucessão na Fifa. O São Pedro que fez chover dinheiro é Simon Brodkin, um comediante inglês com longo histórico de traquinagem e crítico do futebol profissional.

Amante do esporte e torcedor do Manchester City, Simon Brodkin cresceu no norte de Londres, mas viveu boa parte da década de 1990 no noroeste da Grã-Bretanha. Foi lá que cursou medicina na Universidade de Manchester e o comediante começou a ser forjado. Colegas de curso relatam que o então estudante encarnava personagens e fazia graça com diferentes sotaques e trejeitos. 

Além da ironia e do sarcasmo, o sotaque é um tema popular no humor britânico. Isso o ajudou desde o início. Brodkin pode começar uma frase com o modo de falar de Manchester que alonga as vogais e terminar com as gírias usadas pelos jovens pobres do sul de Londres, os apelidados “chav”. Era o suficiente para arrancar gargalhadas. 

Certa vez, na universidade, durante uma aula de ginecologia, o então estudante de medicina se aproximou de um manequim feminino e, com algumas notas de dinheiro na mão, começou a tratar o corpo como um caixa eletrônico. A piada era que as cédulas saíam pela vagina do manequim. Apesar da risada de alguns colegas, a esquete não teve final feliz e Brodkin foi expulso da classe.

No sul da Suíça nasceu Joseph Blatter, em 1936. Jogou futebol em boa parte da juventude e existem registros de Blatter em campeonatos amadores entre 1950 e 1960. Há dúvidas se era um bom peladeiro. Sem ter alcançado times profissionais, decidiu mudar de lado do balcão e ocupou uma cadeira na diretoria do time suíço Neuchâtel Xamax no início da década de 70. Era o começo da carreira que permanece até agora. 

Nessa época, o jovem suíço já era economista formado pela Universidade de Lausanne. Blatter parece ter gostado da experiência como cartola. Tanto que, após o cargo na equipe de futebol da pequena cidade de Neuchâtel, conseguiu um trabalho na Federação Suíça de Hockey no Gelo e também ajudou nos preparativos da Olimpíada de Munique e Montreal. 

Blatter chegou ao mundo do futebol em 1975. Naquele ano, o economista passou a ocupar o cargo de diretor técnico da entidade presidida pelo brasileiro João Havelange. O sucesso veio rápido. Anos depois, foi promovido a secretário-geral e, em 1998, se apresentou como candidato à presidência após quase um quarto de século da presidência de Havelange. Blatter venceu a eleição. Juntos, a dobradinha Havelange e Blatter acumula 41 anos à frente da Fifa - mais de um terço da existência da entidade, que tem 111 anos.

Quando o suíço chegou à presidência da Federação, Simon Brodkin começava a estudar medicina em Manchester. Concluiu o curso, recebeu o registro para prática médica e passou a atender pacientes. Mas o humor falava mais alto. Entre plantões e consultas, usava horas livres para escrever roteiros e começou a se apresentar em espetáculos de stand-up comedy. O sucesso também veio rápido no norte da Inglaterra. Incentivado por um amigo médico, deixou os consultórios e hospitais à medida que crescia o sucesso nos palcos. “A medicina era desgastante”, dizia aos amigos.

O sucesso dos palcos o levou para a televisão. Participou de diversos programas, é presença frequente na campanha anual de arrecadação de fundos para caridade “Comic Relief” e já teve um show próprio na BBC3. Foi na televisão que o torcedor do Manchester City casou o humor com o futebol. 

Um dos personagens mais populares de Brodkin é Jason Bent, um jogador profissional de futebol mimado e com inúmeros problemas, que vão das drogas ao jogo. Em 2013, Jason Bent invadiu o estádio Goodison Park em Liverpool uniformizado como jogador do Manchester City. Enquanto os atletas da equipe se aqueciam para o jogo contra o Everton no principal campeonato inglês, Brodkin passou a correr de um lado para o outro e a acompanhar os exercícios físicos. Bastaram poucos segundos para ser percebido.

Alguns jogadores verdadeiros começaram a rir, mas o ato virou caso de polícia. O comediante ficou detido por algumas horas e respondeu por processo. Após receber uma advertência formal da Justiça, fez troça da decisão ao falar com jornalistas na saída do tribunal. “Há uma série de pessoas a quem eu tenho de agradecer. Primeiro, Carlos Tevez, por me dar carona para cá nesta manhã, e Cristal, que esteve o tempo todo aqui ao meu lado, desde quando nos conhecemos ontem à noite no hotel.” Tevez, ex-jogador do Corinthians, era atleta do Manchester City na época e Cristal era a bonita loira que o acompanhava.

Em maio do ano passado, enquanto o mundo do futebol começava a se preparar para a Copa do Mundo no Brasil, a loja de departamentos inglesa Marks & Spencer lançou com festa uma nova linha de ternos. Com a marca de “Oficial da Seleção da Inglaterra”, as peças foram desenhadas exclusivamente para serem usadas pelos jogadores que representaram o país na Copa de 2014. “Feito com 100% de lã, esse terno de luxo é lindamente suave, versátil e resistente. Como permite respirar naturalmente, a lã proporciona conforto durante todo o ano e em qualquer temperatura, em qualquer lugar”, dizia a campanha publicitária. 

Simon Brodkin gostou da ideia e comprou um desses. A estreia do terno cinza foi dias depois no Aeroporto de Luton, nos arredores de Londres. De lá, saiu o avião da seleção inglesa rumo à Copa do Mundo. Com o traje idêntico aos dos jogadores e passaporte na mão, o comediante se misturou aos atletas e tentou embarcar. “Caras, eu estou no elenco ou o quê? Apenas mudei de telefone. Por isso não recebei a ligação com a convocação”, disse, ao ser retirado pelos seguranças.

O avião decolou, a Copa do Mundo aconteceu com a presença de Blatter e a seleção da Inglaterra foi rapidamente eliminada. Enquanto isso, o comediante ganhou ainda mais fama com os shows pela Grã-Bretanha e novas aparições. Durante o festival de verão de Glastonbury neste ano, Brodkin irrompeu no palco que recebia o rapper norte-americano Kanye West. Depois de ser retirado, explicou que era uma resposta à invasão que West fez durante o discurso de Taylor Swift em uma premiação da MTV em 2009. 

De volta ao mundo do futebol, Simon Brodkin viu o evento realizado pela Fifa na semana passada como uma oportunidade de ouro. Avisou a mulher, com quem tem dois filhos, e embarcou para a Suíça. O comediante diz que a confiança é o elemento- chave para aplicar as pegadinhas. Em Zurique, na sede da Fifa, respirou fundo e passou a se portar como jornalista, burlou o esquema de segurança e chegou ao auditório repleto de repórteres onde Blatter daria uma entrevista coletiva em seguida. Na bolsa, carregava dois maços de dinheiro. Segundo o comediante, notas verdadeiras e que somavam US$ 600. 

No auditório, esperou a chegada do cartola e tomou coragem. Vestindo terno com brasão da Coreia do Norte, um pequeno broche do mesmo país de Kim Jong-un na lapela e uma credencial de imprensa no peito, Brodkin caminhou até o palco e começou o protesto. Deixou um maço de dinheiro à frente de Blatter e, segurando o outro bolo de dólares, disse que aqueles eram para comprar a escolha da Coreia do Norte como sede da Copa do Mundo de 2026.

Blatter exibia uma expressão de pânico e surpresa. Parecia não entender o que acontecia e chamou os guardas, que estavam a alguns metros. “Where is my security?”, perguntou, incrédulo. Não deu tempo.

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