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Drone-delivery

Se a internet brotou de um projeto militar, por que os drones (aqueles veículos aéreos não tripulados, aqui rebatizados de vants) não poderiam ter outra serventia além de jogar bombas e matar afegãos e paquistaneses? Jeff Bezos também pensou nisso. A diferença é que ele, além de pensar e fantasiar, faz acontecer. E como nada mais parece impossível no espantoso mundo novo da tecnologia, o criador e patrão da Amazon.com sacou o "drone delivery", o vantransporte de mercadorias até a casa do freguês.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h11

Em breve, o sujeito poderá encomendar um livro na Amazon e recebê-lo meia hora depois na porta de casa, no jardim ou no quintal, como se trazido por um pombo correio ou uma cegonha, mas na verdade transportado por um helicóptero em miniatura, melhor dito, por um octocóptero, dotado de GPS, que mais parece uma minichurrasqueira com oito propulsores. Livro ou qualquer um dos milhões de produtos que a maior loja virtual do mundo passou a vender de uns anos para cá, desde que seu peso não exceda 2,3 quilos e o ponto de entrega se situe num raio de 16 quilômetros do mais próximo depósito de mercadorias da Amazon.

Ideia engenhosa, exequível (conforme já provou a australiana Zookal, operando em Sydney com seis drones), mas de execução complicada se o freguês morar num prédio de apartamentos, por exemplo. Comodidade exclusiva da clientela americana, o programa que Bezos batizou de Prime Air só entrará em funcionamento depois que a FAA, agência que controla o espaço aéreo dos Estados Unidos, liberar os céus para as esquadrilhas de drones comerciais.

Por que tanta pressa? Que diferença faz receber um livro, um pulôver, uma chave de fenda ou um iPad "só" no dia seguinte?

Consta que em 2020 haverá 30 mil drones privados e do governo cruzando o espaço aéreo da América, entregando mercadorias (quem sabe, até os exemplares diários do Washington Post, recém-comprado por Bezos), espionando para a NSA, fotografando à sorrelfa celebridades, flagrando casos de adultério, monitorando gados e vinhedos - e o que mais esteja ao alcance de um octocóptero teleguiado. É uma das indústrias mais promissoras da atualidade, estimada em US$ 90 bilhões e com capacidade de gerar 100 mil empregos. Sem contar os cursos de administração e marketing que no seu rastro poderão surgir em algumas universidades da Flórida. Sai MBA, entra MDA (Master Drone Administration).

Há quem preveja o caos nos céus e coisas piores, como o uso de drones em atentados terroristas. Hordas de caminhoneiros perderão seus empregos, mas em compensação o tráfego nas ruas e estradas diminuirá bastante, assim como a poluição do ar. O tecnocético Jaron Lanier, autor de You're Not a Gadget, acredita que os drones estimularão as tradicionais divisões de classe na sociedade, na medida em que atenderão uma elite de fregueses high-tech e eliminarão qualquer contato físico ou visual com a plebe que se ocupa das entregas.

Lanier duvida que os drones passem incólumes pelas áreas mais pobres do país. Como se diz "tascar" em inglês?

Bezos apresentou a novidade no programa de TV 60 Minutes, domingo passado, justo na véspera do Cyber Monday, a Black Friday do comércio online, quando 300 produtos costumam ser vendidos pela internet a cada segundo. Faria mais sentido se os apressadinhos já pudessem usufruir do novo esquema de entrega instantânea no dia seguinte ou nesta semana. Mas os drones da Amazon só deverão levantar voo daqui a quatro ou cinco anos.

Bezos, porém, tinha bons motivos para promover o Prime Air com tanta antecedência. O lançamento prematuro do programa foi uma manobra diversionista, visando a desviar o foco da mídia das tribulações e críticas que a Amazon ora enfrenta em território americano e na Europa.

A gigante do varejo online não tem se saído bem no noticiário ultimamente. A princípio, acusaram-na de dumping no comércio de livros, de falir a concorrência (das grandes cadeias de livrarias às independentes, essas ainda com menos condições de cobrir os descontos e outras vantagens que Bezos banca do próprio bolso para assegurar a hegemonia da Amazon), de se beneficiar de artimanhas e paraísos fiscais, de explorar autores, encurralar editoras e recrutar resenhistas complacentes entre seus fregueses, em troca de bugigangas. Desde o ano passado, as críticas vêm se concentrando nas insanas condições de trabalho em seus depósitos, gigantescos, fechados e sem ar refrigerado, uma sauna no verão.

A Amazon achou mais em conta manter uma ambulância de plantão na entrada, para uma emergência, do que tornar o ambiente nos galpões mais confortável e salubre. Há dias, os funcionários dos depósitos na Alemanha entraram em greve. Exigem melhores salários e, sobretudo, "tratamento mais humano".

São dez horas e meia de estiva diária, localizando, recolhendo objetos e carregando-os num carrinho para o destino final, alguns quilômetros adiante. Quem leva mais de 30 segundos na execução de uma tarefa perde pontos e, eventualmente, o emprego. Um sofisticado sistema eletrônico controla os movimentos de cada funcionário. Orwell puro.

Pelo menos dois jornalistas britânicos já se infiltraram nos galpões instalados no Reino Unido para uma reportagem de denúncia. Um deles feriu os pés de tanto andar e puxar carrinho, calçando as botas de plástico fuleiras que a empresa fornece. Que ninguém se surpreenda se ele deixar de comprar livros na Amazon.

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