Duas lentes, um mesmo conflito

Pelo olhar de fotógrafos e cinegrafistas, guerras distintas são apresentadas a Israel e ao mundo árabe!

O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2009 | 00h43

Ao vivo Ashraf Khalil e Batsheve SobelmanLos Angeles TimesJERUSALÉMNão há nenhuma imagem visceral de guerra. Detalhes sobre soldados feridos são tratados com delicadeza. Cenas de sangue como as da carnificina do bombardeio, na terça-feira, de uma escola das Nações Unidas na Faixa de Gaza aparecem fragmentadas, e no contexto da análise sobre como o mundo vai reagir. No entanto, a cobertura do sul de Israel, onde foguetes lançados pelos militantes do Hamas mataram três civis israelenses e feriram dezenas de pessoas desde o início do conflito, em 27 de dezembro, é ininterrupta. Quando o ataque israelense entrou em seu 12º dia, na quarta, realidades divergentes entre o Estado judeu e o mundo árabe ficaram expostas na cobertura da mídia israelense.O Canal 10 israelense exibe o conflito ao vivo das cidades de Ashkelon, Sderot e Beersheva, ao sul, atingidas pelos foguetes. Quando alguns caíram em Beersheva, na noite de quarta - os primeiros a atingirem a cidade em vários dias -, o correspondente de uma rede de TV empenhou-se em estar lá. Depois que os projéteis caíram, sem causar danos, as câmeras voltaram-se para o local, mostrando uma pequena cratera e os bombeiros recuperando destroços da arma. Voltando a mostrar Sderot, o correspondente passou então a falar das preocupações dos moradores de que o governo iria concordar com um cessar-fogo muito em breve, sem destruir definitivamente a capacidade do Hamas de disparar foguetes. A população de Sderot, disse ele, "gostaria que (o Exército) continuasse e liquidasse com essa história de uma vez por todas".A opinião pública israelense apoia esmagadoramente a campanha de Gaza, e há uma crença generalizada de que o Hamas provocou esse banho de sangue para seu próprio povo. A cobertura da mídia de Israel reflete amplamente esse sentimento."É algo que precisávamos fazer havia muito tempo. Não vai ser agradável, mas é necessário", disse Gabi Taub, professor de comunicações na Hebrew University. Um editorial publicado quarta no jornal de direita Jerusalem Post, resume: "Como devem se sentir os israelenses quando nossa artilharia atinge o edifício de uma escola das Nações Unidas, matando dezenas de pessoas? A resposta é: profundamente abalados, angustiados, tristes com essa catastrófica perda de vidas", diz o texto. "Mas não podemos nos culpar. O que nos deixa irados é que o Hamas nos forçou à guerra."Uma charge na edição de quarta-feira do jornal Maariv mostrava tanques israelenses em marcha, animados por três chefes de torcida - cada uma delas usando o logotipo de um dos três canais de notícias de Israel. Mas existem vozes divergentes também, especialmente no jornal de esquerda Haaretz, no qual os colunistas Gideon Levy e Amira Hass regularmente condenam o ataque a Gaza e a recusa de Israel em negociar. Num editorial intitulado "Felizes meus pais por não estarem vivos para ver isto", Amira Hass comparou a opinião pública israelense à "multidão urrando no Coliseu".Na TV , a guerra que está sendo vista pelos israelenses é algo estéril, pelo menos comparada às imagens sangrentas exibidas diariamente pelos canais árabes de satélite. De modo semelhante a seus pares americanos, os canais israelenses evitam mostrar sangue. Inversamente, a cobertura israelense se concentra nos soldados e suas famílias - o que provoca emoção num país onde o serviço militar é obrigatório e milhares de reservistas estão combatendo. Há momentos felizes também. Como as imagens exibidas num jornal televisivo de um comandante informando um dos soldados que sua mulher tinha acabado de dar à luz. Em seguida, o jornal cortou a cena para uma entrevista com a mãe da criança e uma faixa onde se lia "Mazel Tov" (congratulações). *** Foto-choqueJeffrey Fleishman e Raed RafeiLos Angeles TimesCAIROO rosto respingado de sangue, olhos fechados, boca semiaberta, parece que a criança está dormindo. Na realidade, está morta. A única coisa que se pode ver dela é a cabeça pendente entre as cinzas e os destroços. Em baixo a legenda: "Um dia de massacre em Gaza". Ela não tem nome, mas seu rosto, numa foto em preto e branco, exposta como uma bandeira do horror na primeira página do jornal saudita Al-Hayat, é inesquecível. Na Faixa de Gaza, Israel manobra com tanques sofisticados, mísseis e aviões. Mas a mídia árabe possui um poderoso arsenal de imagens, vídeos e declarações em off que retratam os palestinos como vítimas corajosas contra o agressor sedento de sangue.A guerra se trava no campo de batalha, mas as paixões são inflamadas pelas imagens. Basta assistir à rede Al-Jazira por satélite ou dar uma olhada nas revistas e nos sites islâmicos e a mensagem singular está clara: os muçulmanos estão unidos no sofrimento dos palestinos; nenhuma gota de sangue, nenhum grito desesperado de uma mãe, nenhuma metralhadora agitada para o alto, nem ruínas em chamas, nenhum par de sandálias colocado ao lado de um corpo sem vida deixam de ser gravados.É o cinema-verdade dos desvalidos, em que se alternam mártires, heróis e crianças atirando pedras contra o invasor.Inúmeras vezes apela-se para o romantismo e as palavras de ordem com expressões de desafio e resistência. Um editorial publicado na quarta-feira no jornal sírio Al-Watan falava às crianças de Gaza: "Ensinem-nos a ser homens porque aqui os homens tornaram-se massa. Ensinem-nos como podem pedras na mãos de crianças transformar-se em lindos diamantes... Ensinem-nos a arte de defender a terra".A Al-Jazira e outros veículos da imprensa árabe foram ficando mais objetivos em suas reportagens nos últimos anos, mas quando se trata de um conflito palestino-israelense, muitas vezes a uma cobertura equilibrada se sobrepõem as emoções e os relatos de funerais que se desenrolam em meio aos estrondos das explosões.As caricaturas dos jornais mostram o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, com nariz adunco e olhos pequenos, e a chanceler Tzipi Livni como uma espécie de nazista grotesca sobre um pedestal. E muitas vezes, aparecendo furtivamente como um Oz assustador, o rosto do Tio Sam, retratado como manipulador de fantoches e protetor do Estado judeu.Enquanto transmitia recentemente uma coletiva em que Livni discutia com uma delegação européia o direito de Israel a se defender dos foguetes do Hamas, a Al-Jazira dividiu a tela para mostrar crianças palestinas em camas de hospital - um subtexto nada sutil. A emissora usa expressões como "crimes de guerra" e "holocausto contra do povo palestino".Não são só israelenses e americanos que estão na berlinda. Os líderes árabes, principalmente os considerados títeres dos EUA, como o presidente egípcio Hosni Mubarak, foram fritados desde o início da ofensiva israelense, no dia 27 de dezembro. Mubarak foi duramente criticado por manter fechada a fronteira do Egito com a Faixa de Gaza. As imagens de jovens ensanguentados envolvidos em cobertas nos braços de irmãos ou de pais correndo com eles para um hospital seriam consideradas excessivas para a sensibilidade da audiência das emissoras ocidentais. Mas no mundo árabe, com governos impotentes para deter a incursão de Israel em Gaza, a arma é a imagem sem censura.Com o editorial do Al-Watan de quarta-feira sobre as crianças de Gaza há três fotos: um médico segurando uma menina morta com a boca semiaberta; um homem que corre segurando no colo uma criança com o pescoço coberto de sangue; e um homem sentado em desespero ao lado de uma pilha de crianças mortas enroladas na bandeira verde do Islã.

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