Dunga, o intelectual do Brasil

Se o que interessa numa partida de futebol fosse só o resultado aboliríamos o jogo, esse gozo de perder e ganhar, de fracassar e acertar um passe

15 de maio de 2010 | 16h00

Cabeça estrelada. E nós que acreditávamos que o "ame-o ou deixe-o" fora superado com o fim da ditadura...

 

 

Imaginemos - numa ficção científica à Ray Bradbury - que desaparecessem todas as informações sobre o Brasil. Acordaríamos um belo dia sem nenhum dado econômico, nenhuma notícia de política, coluna social, crime, internacional, nada. Sobrariam apenas as páginas de jornais sobre futebol. Saberíamos, ainda assim, o que é o Brasil?

 

Penso que sim. O mundo do futebol é um Brasil pequeno. As contradições que nos definem como país estão aqui. Não de forma completa, como se o mundo do futebol fosse espelho do Brasil: há pequenas coisas que estão no futebol e não estão no Brasil, e vice-versa. O mundo do futebol é um Brasil pequeno porque as tendências principais de nossa vida social o constituem. O futebol é o DNA do Brasil. Poderíamos recriar o Brasil se, numa hecatombe, só tivesse sobrado o noticiário de futebol.

 

Quem define um país não são os doutores e os políticos, embora eles gostem de acreditar nisso. É o senso comum. O senso comum é o conhecimento antes do pensamento. Basta pensar um pouco e se sai dele. Por exemplo: "O que interessa numa partida de futebol é o resultado". Se fosse assim, aboliríamos o jogo de futebol, esse gozo de perder e ganhar, realizar e não realizar a jogada, fracassar e acertar um passe, etc. Dunga falou que aprendeu com a mãe, professora de história, que se deve amar a pátria antes de tudo, se comprometer com ela, brigar por ela em qualquer profissão e circunstância.

 

E nós que acreditávamos que o "ame-o ou deixe-o" fora superado com o fim da ditadura! Na CBD (hoje CBF), lá por 1970, até papagaio batia continência. Desde 1975 ela ficou sob intervenção federal. O verde-amarelismo de Dunga e Jorginho nos parece fora de moda, mas está no senso comum brasileiro. O amor à pátria é o primeiro dos sensos comuns. Primeiro e mais moderno, nascido com as nações europeias no século19. Não é bom nem mau: foi um gerador de guerras sangrentas, mas também salvou povos do aniquilamento. Expressou tanto a nossa crueldade animal como a nossa habilidade inata de disfarçar e mentir. Por exemplo: a CBF faturou, no ano passado, R$ 164,9 milhões, vendendo futebol para multinacionais; Robinho, Neymar e Ganso ganharam os tubos numa coreografia da música Single Ladies, da Beyoncé, no YouTube. Só um santo pediria patriotismo à CBF e aos três jogadores.

 

Para que serve, então, o patriotismo? Para esconder grandes negócios, os decentes como os indecentes, os razoáveis como os absurdos. Xingamos de populismo qualquer tentativa de criticar a globalização, mas cantamos o Hino Nacional com a mão no peito e os olhos marejados.

 

Se escapamos do senso comum, vemos que patriotismo é uma retórica. Ou, como lembrou alguém, com exagero, o último refúgio dos canalhas. O nacionalismo, pelo menos, é discutível, controverso, é uma política. O patriotismo, não. É um dever dos homens de bem.

 

Outro senso comum brasileiro é o complexo de vira-lata: o estrangeiro é sempre melhor. Também pensávamos estar curados. Dunga nos chamou à realidade: bom é o jogador que a Europa diz que é bom. Uma bobagem: quem vai jogar na Europa é bom, mas nem todo que fica é ruim.

 

Em 1938, voltando da Copa da França, o centromédio Martim se saiu com esta: "Acho que devemos realizar um esforço aqui pra estabelecer uma disciplina como a que se observa entre os italianos. (Terminado o prélio, não se entregam ao delírio. Recebem o cumprimento do general Vaccaro, perfilados, e se dirigem para um ônibus.) Em qualidade individual somos insuperáveis. Com a disciplina dos italianos seríamos invencíveis". (Memórias de Leônidas da Silva, inédito).

 

Em fevereiro de 1977, após um zero a zero com a Colômbia, o almirante Heleno Nunes, presidente da CBD, trocou Oswaldo Brandão, técnico meio caipira, por um tecnocrata, o capitão Cláudio Coutinho. Missão do capitão: modernizar o nosso futebol. Para a CBD, modernizar tinha o mesmo significado que para os tecnocratas do Ministério da Fazenda e do Planejamento: colocar uma parcela do País no nível das metrópoles desenvolvidas. Em entrevista ao Estado (24/6/78), Menotti, nos avisou: "Estão transformando o jogador brasileiro em um simples cumpridor de ordens, desprezando o seu talento e violando suas tradições. A perda de um título em 74 não significa que uma nação inteira deva rejeitar sua própria cultura".

 

Dunga e Jorginho são intelectuais do patriotismo e do comprometimento com resultados. Se der certo será a vitória do senso comum.

 

 

* Joel Rufino dos Santos é Doutor em Comunicação e Cultura, escritor, historiador e peladeiro. seus últimos livros: A Banheira de Janet Leigh (ensaios) e Assim Foi (Se Me Parece) (memórias), Editora Rocco.

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