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Dupla do barulho

Bernie Sanders e Jeremy Corbyn não são Marx e Engels. Mas estão deixando os conservadores em polvorosa nos EUA e na Inglaterra

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2015 | 20h00

Imaginem Karl Marx candidatando-se à presidência dos EUA e Friedrich Engels indicado para primeiro-ministro britânico pelo Labour Party (Partido Trabalhista). Ao mesmo tempo. Agora imaginem o auê, o vendaval de paranoias, o pânico nas bolsas de valores, o clima de apocalipse estampado nos jornais, o haraquiri retórico dos comentaristas da Fox News. 

Quis o destino que Marx morresse há 132 anos e Engels, há 120. Mas o inglês Jeremy Corbyn e o americano Bernie Sanders não só estão vivos como dispostos a chegar, respectivamente, ao número 10 da Downing Street e à Casa Branca. Os dois são socialistas (não da mesma cepa de François Hollande, o que só deve ser um alívio para as esquerdas), e seus antípodas ideológicos com maior descortino concordam que a dupla veio dar uma agitada no estagnado panorama político internacional, ultimamente dominado por uma sucessão de líderes políticos convencionais, direitistas e até bufônicos. 

Pelo menos na Inglaterra o auê já começou. No dia 12 deste mês Corbyn derrotou três adversários moderados e elegeu-se líder dos trabalhistas britânicos. É com ele que o Labour Party tentará chegar de novo ao poder, há cinco anos nas mãos dos conservadores (Tories). Será uma pedreira. Os súditos de Elizabeth 2ª acostumaram-se a trabalhistas complacentes com o legado social e econômico dos Tories e subservientes a Washington (Tony Blair não era chamado de “o poodle de Bush”?), e Corbyn é um dos mais intransigentes, se não o mais inflexível esquerdista da Câmara dos Comuns. Um “rebelde serial”, na definição de um comentarista londrino.

Corbyn

Em seus 18 anos no parlamento, Corbyn defendeu a reestatização do Bank of England, a desprivatização do transporte ferroviário, a ampliação de benefícios para idosos, doentes e deficientes físicos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o controle do preço dos alugueis para minorar a crise de moradia, o ensino superior gratuito, combateu a caça à raposa, a economia de mercado, a política externa dos EUA e Israel. Ao contrário de vários companheiros de partido, não apoia o bombardeio da Síria como solução para derrubar Bashar Assad. 

A ala jovem do trabalhismo vibrou e transformou sua campanha em movimento social. A imprensa liberal assustou-se, a conservadora abriu fogo. Se há dias uma ilustração em estilo realismo socialista do semanário The Economist o pintou como um sucedâneo de Mao e Lênin, o tabloide Daily Mail, desapegado das técnicas de proselitismo subliminar, o acusou sem rodeios de inimigo da democracia e até de antissemita e de incitar o terrorismo. Observadores mais equilibrados destacaram-lhe uma virtude: tirar o mofo do debate político no Reino Unido. Todos, porém, concordam que, por ser quem é, Corbyn não se elege. E, caso se eleja, sua carreira como primeiro-ministro será uma das mais fugazes da história do Reino Unido.

Com 74 anos, oito a mais que Corbyn, o americano Bernie Sanders será, se eleito, o mais velho dos presidentes americanos. Para tanto, terá de superar Hillary Clinton, presumida pule de dez entre os democratas, princesa herdeira do patrimônio eleitoral de Obama e Bill, a sucessora “natural” do primeiro presidente negro dos EUA. Embora independente, o senador (e ex-governador) de Vermont concorre no partido situacionista. Tem mais chance de emplacar como adversário de Donald Trump ou Jeb Bush e vencê-los do que Corbyn de suceder a David Cameron. Não porque os americanos sejam mais complacentes com políticos de esquerda que os britânicos e envergonhem-se de ter como presidente um bilionário bunga-bunga como Trump, mas porque nenhum dos atuais concorrentes à indicação dos Republicanos é levado a sério, nem sequer pelo eleitorado cativo do partido, cada dia mais atônito. 

Trump, aliás, não é bem um candidato, é uma pegadinha, cuja transitória liderança nas pesquisas não desmoraliza apenas o GOP (o “Grand Old Party”) mas todo o país. Seria jantado por Hillary, ainda que a campanha da senadora não empolgue, por culpa dela própria e do entranhado sexismo do eleitorado americano. Pelas últimas pesquisas, em New Hampshire, segundo local das primárias de 2016, Sanders ampliou sua vantagem sobre a ex-primeira dama em 16 pontos. Também em Iowa, onde a corrida pela indicação terá início em 1º de fevereiro, Sanders tem empolgado mais do que Hillary.

Sanders

Judeu (secular) do Brooklyn e representante do estado mais branco da União, Sanders, alega-se, poderá enfrentar quatro tipos de preconceitos: etário, religioso, racial e ideológico. Não procede a acusação de que pouco se interessa pelas questões dos negros e latinos, pois há 50 anos luta pelos direitos civis e as minorias, e quando prefeito de Burlington, capital de Vermont, endossou a candidatura do reverendo Jesse Jackson à presidência. 

Franco, honesto, corajoso e convicto da superioridade de um socialismo democrático à escandinava, sua plataforma, vigorosamente anticorporativista e com ênfase em gastos em educação, infraestrutura, e o que mais possa facilitar uma reforma geral do sistema judiciário e reduzir ao máximo a taxa de desemprego dos jovens (33% entre os brancos, 35% entre os hispânicos e 51% entre os negros), tem amplo apelo popular. Seu maior obstáculo não é Hillary, mas as armas de difamação em massa estocadas no arsenal dos republicanos.

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