Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Duplicidade estética

Na sobreposição entre medicina da necessidade e medicina do desejo, a mesma prótese que repara mamas mutiladas pelo câncer se transformou em cobiçada e lucrativa mercadoria

DEBORA DINIZ,

15 de janeiro de 2012 | 03h09

As campanhas de câncer de mama da última década não pouparam a memória visual das mulheres. Inspiradas em uma pedagogia que também parece mover as campanhas de segurança no trânsito, exibiram-se imagens cruas de seios mutilados pelo câncer na expectativa de sensibilizar as mulheres para os exames periódicos. Uma mulher que visse o vazio no peito de outra se motivaria ao autocuidado. Há controvérsias sobre a eficácia da pedagogia do cruel para a mudança de comportamentos, mas essas foram imagens que marcaram uma época da história das próteses mamárias entre nós. As cirurgias reparadoras das mamas mutiladas pelo câncer representavam um retorno ao feminino esvaziado pela cicatriz. Para as mulheres vítimas de câncer, as próteses de silicone são uma necessidade de saúde após a experiência traumática da mutilação. A prótese preenche um dos espaços deixados pela mutilação involuntária. Nesse contexto, a cirurgia é um ato médico de proteção a uma necessidade de saúde das mulheres. O silicone é uma tecnologia de cuidado ao luto da feminilidade imposto pelo câncer.

Mas uma duplicidade acompanhou a estética das mamas como um ato médico de proteção às necessidades. Não me interessa aqui explorar a origem dessa história, mas a sobreposição entre medicina da necessidade e medicina do desejo. A mesma prótese mamária rapidamente se transformou em uma cobiçada e lucrativa mercadoria. Em tempos de Big Brother Brasil, os seios turbinados pelas próteses são um sinal de pertencimento a um grupo imaginário de mulheres que se define pelos limites do corpo. Entre bisturis e academias, as moças do BBB medem seus seios pelos mililitros de silicone implantados para concorrer ao programa. O implante de silicone mamário é um objeto de desejo de diferentes mulheres: aquelas que amamentaram seus bebês e cujos seios cederam à força da gravidade; aquelas que jamais puderam comprar um sutiã Victoria's Secret senão com os dispositivos antigravidade push up; ou simplesmente aquelas já socializadas nos novos signos sexuais do feminino, em que a revolução do volume faz parte da cultura brasileira. A verdade é que essa foi uma revolução recente: a medicina do desejo e a globalização da estética corporal da mulher americana instauraram a prótese de silicone entre nós como um novo monumento da geografia física feminina.

As próteses francesas vazantes foram um ruído incômodo que provocou a duplicidade da medicina da necessidade e do desejo no campo da estética. Às mulheres que implantaram as próteses francesas amaldiçoadas pelo rompimento, o SUS afirma que vai substituí-las por entender que se trata de um efeito imprevisível da tecnologia médica. Substituir a prótese exige uma nova cirurgia em um momento da vida em que, talvez, os seios turbinados não tenham mais a motivação de quem busca concorrer a um programa de televisão. A rotina de cuidados para qualquer mulher que tenha implantado silicone nos seios é de retorno à revisão médica a cada dez anos. Desconheço estudos que acompanhem os dois grupos de mulheres - as implantadas por necessidade e as implantadas por desejo - no cumprimento da vistoria. Arriscaria dizer que as mulheres siliconadas para se enquadrarem no novo regime corporal do volume são as menos leais à revisão médica periódica.

"Há riscos em qualquer procedimento médico." Essa é uma sentença que todas as mulheres que implantaram as próteses de silicone ouviram de seus médicos. Àquelas em recuperação de um câncer mutilador, o risco é parte de um itinerário terapêutico de dor, luto e sobrevivência. Há mulheres que recusam a cirurgia reparadora por entendê-la como mais um procedimento invasivo em um corpo cansado pela doença. A maioria opta pelo implante do silicone mamário como um sinal do retorno à normalidade. Muito diferentes são as mulheres que, voluntariamente, se adequaram à nova ordem estética dos volumes. Imagino que o sentido do risco pelas próteses vazantes seja também distinto para esses dois grupos de mulheres. Aos médicos, caberá cuidar de cada uma delas com diferentes sensibilidades. Mencionar um novo risco de câncer à mulher pós-mutilada e reparada em razão de um tumor já vivido deve ser aterrorizante. Já para a mulher que comprou uma mercadoria, deve ser um contrassenso sua proximidade à realidade daquelas que compuseram a antiestética de seu desejo: as mulheres mutiladas das campanhas do câncer são agora seu duplo pelo medo das próteses vazantes.

* DEBORA DINIZ É ANTROPÓLOGA, PROFESSORA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA, PESQUISADORA DA ANIS - INSTITUTO DE BIOÉTICA, DIREITOS HUMANOS, GÊNERO

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