MELANIE METZ/THE NEW YORK TIMESS
MELANIE METZ/THE NEW YORK TIMESS

Durante a Art Basel Miami, exposição questiona: 'Quem é dono da arte negra?'

Título da mostra destaca a sub-representação de pessoas negras em vários níveis do mundo artístico

John Eligon, The New York Times

07 de dezembro de 2019 | 16h00

A pintura de Eilen Itzel Mena, Aje, presta homenagem a uma antiga deusa iorubá da riqueza e da prosperidade. Apresenta uma face invertida, cercada por dinheiro, e as palavras “gastar” e “poupar” conectadas a uma flecha de dupla face. Alcançar a prosperidade, acredita Mena, requer um equilíbrio entre gastos e poupança. Se você der, disse ela, você receberá. Para Mena, 25, essa dinâmica também deve servir como uma metáfora para artistas negros como ela: ao levar trabalho ao mundo (doando), ela disse, eles podem receber abundância para si e suas comunidades, não apenas no sentido capitalista, mas mais importante, por meios culturais e espirituais.

Mas ela e outros artistas negros temem que as coisas geralmente não funcionem assim para eles. No momento em que os artistas negros estão sendo celebrados mais do que nunca – de Hollywood às artes visuais – alguns estão levantando a questão de saber se os negros são realmente os principais beneficiários da cultura que produzem.

Esse tema está no centro de uma exposição em Miami, que recebe a feira Art Basel, intitulada sem rodeios, Who Owns Black Art? (Quem é o Dono da Arte Negra?) A exposição destaca a sub-representação de pessoas negras em vários níveis do mundo artístico – das listas nas feiras mais importantes às categorias de propriedade das galerias aos consumidores que compram obras.

“É bom para nós sermos produtores e geradores de cultura”, disse Tia Oso, gerente da Zeal, um estúdio e agência criativa que dá apoio a artistas negros, e organizadora da mostra. “Mas quando se trata de colhermos um valor ou a recompensa, ou até mesmo sermos reconhecidos pela genialidade de nossas criações, parece haver um problema”.

A exposição, que apresenta obras de dezenas de artistas negros emergentes, incluindo Mena, também curadora da mostra, reflete-se na questão da propriedade da arte negra. Organizadores e artistas participantes dizem que o tema é amplo.

O debate chama a atenção para a necessidade de os negros se tornarem mais ativos como compradores de arte, para não perder investimentos potencialmente lucrativos. Em outro sentido, refere-se à escassez de galerias de propriedade de negros. E ainda aborda a falta de representação entre os funcionários de museus, diretores de feiras e outros árbitros que têm uma influência significativa sobre quais obras e artistas são realçados.

Uma pesquisa publicada este ano pela Fundação Andrew W. Mellon constatou que, embora a diversidade na liderança de museus tenha aumentado 5 pontos porcentuais entre 2015 e 18, negros representam 1 em cada 5 pessoas em tais posições.

Galerias de pertencentes ou operadas por negros estão praticamente ausentes entre os expositores da mostra oficial da Art Basel. (Os organizadores da feira disseram que não sabiam quantas dessas galerias se apresentaram na exposição de Miami). Karla Ferguson, integrante do mundo artístico local como fundadora e diretora executiva da galeria Yeelen, em Little Haiti, disse que não sabia de nenhuma.

O pequeno número de galeristas e curadores negros em todo setor significa que, até certo ponto, os negros não são totalmente donos das histórias contadas pela arte negra, disse Ferguson. Curadores e galeristas podem decidir, por exemplo, ficar longe de obras que lidam com questões difíceis, ou podem promover as peças que se encaixam em suas noções de cultura negra, disse ela.

“Historicamente, a narrativa passa muito pelo olhar dos homens brancos”, disse Ferguson. Quando isso acontece, ela acrescentou: “Você jamais terá uma história totalmente autêntica”.

A localização de Who Owns Black Art? no bairro de Little Haiti também fala da questão da propriedade. A Art Basel contribuiu para a gentrificação do bairro Wynwood, em Miami, e existe uma grande preocupação de que Little Haiti – com suas florescentes galerias de arte independentes e restaurantes da moda – tenha um destino semelhante.

Segundo os organizadores, nada disso sugere que não exista muita arte negra por aí recebendo amplo reconhecimento. A Art Basel fez progressos ao longo dos anos para diversificar suas exposições em Miami e atrair a atenção para os eventos que acontecem fora de seu programa oficial. (Um panfleto anunciando mostras centradas em artistas da diáspora africana será incluído no guia oficial da Art Basel.) Ainda assim, alguns artistas negros disseram que isso não era suficiente.

Rhea Leonard, uma artista de Miami de 28 anos, gosta de estabelecer uma conexão com clientes interessados no seu trabalho. Na mostra Who Owns Black Art? ela exibe uma escultura que à primeira vista parece ser uma pulseira de prata comum. Mas um olhar mais atento revela que são dentes esculpidos em estanho e unidos para parecerem uma pulseira. A peça visa simbolizar a mercantilização dos corpos negros, disse ela, e fazer uma declaração sobre como as pessoas “estão tão dispostas a querer tomar parte da cultura negra, mas não querem se envolver no trauma dela”.

Leonard disse que é essencial que os compradores entendam sua motivação antes de adquirir sua obra. Embora os consumidores sejam bem-vindos para interpretar seu trabalho como o veem, ela disse que compartilhar sua intenção é uma maneira de manter a propriedade sobre a narrativa por trás de seu trabalho, mesmo muito tempo depois de ele estar fora de suas mãos. “Em última análise, você gostaria que sua obra tivesse um lar com alguém que entenda de onde ela veio e que dor e conceitos o geraram”, disse ela.

Ed Maximus, de 33 anos, um artista visual de Nova Jersey, está apresentando uma fotografia de quatro mulheres negras nuas se entrelaçando. A imagem representa as mulheres sendo donas de seus corpos e criando espaço para se apoiarem, ele disse. De certa forma, artistas negros estão fazendo a mesma coisa, acrescentou.

Ashlee Thomas, presidente da Miami Urban Contemporary Experience, uma empresa de produção artística, disse: “A melhor coisa que podemos fazer como negros proprietários de nossa cultura: construir por conta própria as plataformas”.

Isso tem acontecido. A Sugarcane Magazine, lançada em 2006, cobre arte da diáspora africana e publicou um guia para feiras de arte negra que acontecem na mesma época que a Art Basel. A Art Africa Miami, uma feira que mostra artistas de ascendência africana que se apresenta durante a Art Basel, começou em 2011. A Prizm Art Fair, que também expõe obras da diáspora africana, está no sétimo ano. Alguns entusiastas da arte negra consideram tais empreendimentos como uma maneira de construir um ecossistema benéfico para artistas e consumidores negros. Eles fornecem um ponto de entrada para as pessoas aprenderem sobre obras e construir um mercado para os artistas, disse Mikhaile Solomon, fundador e diretor da Prizm. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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