WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

‘É a doutora do tiro e bomba’

Em favelas ocupadas pelas UPPs, fisioterapeuta cuida de vítimas que não entram nas estatísticas da guerra entre militares e traficantes

Carina Bacelar, O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2015 | 16h00

Quem entra carregado na Paróquia São Sebastião de Olaria, num dos acessos ao Complexo do Alemão, volta a andar, reza a lenda entre os moradores da região. Não é milagre de santo, mas da fisioterapeuta Mônica Albuquerque, de 48 anos, que há seis atende em cubículo mobiliado com maca, armário e quatro cadeiras, no anexo da igreja. Não cobra nada. Todas as segundas e quartas, o local recebe quase uma procissão, que se movimenta com dificuldade. Seus integrantes carregam cicatrizes no corpo e bolsas de gelo nas mãos. São vítimas da violência nas favelas do Alemão e do Complexo da Penha que não entram para as estatísticas oficiais. Nessas comunidades vivem mais de 100 mil pessoas, todas sob as Unidades de Polícia Pacificadora. 

Para Mônica não chega “café pequeno”, como gosta de repetir. Além de sequelas de tiros, ela cuida de musculaturas e colunas danificadas pela fuga das balas e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) provocados pela tensão dos confrontos. São pessoas como o gari aposentado Adilson Ferraz, de 53 anos. Sem hipertensão ou diabete, sofreu AVC em abril, depois de os tiroteios se intensificarem na Grota, localidade em que trabalhava. Limpava uma escadaria quando teve a crise e caiu pelos degraus. Depois de quatro meses internado no Hospital Getúlio Vargas, na Penha, ficou desorientado e com o lado esquerdo do corpo paralisado. A mulher e a filha pediram demissão para cuidar dele. Sem dinheiro para atendimento particular, a família nem sequer conseguiu acompanhamento neurológico pela rede pública. 

“A gente fica rezando para não ter tiroteio para poder trazer ele à fisioterapia. Infelizmente estamos passando por isso. A gente sai e não sabe se consegue voltar. Daqui a pouco sou eu que vou ter que me tratar”, diz a mulher de Adilson, a vendedora Deise dos Santos, na tarde de quarta-feira, sem saber que, quase no mesmo instante, um policial era baleado em tiroteio na rua onde a família mora, a Canitar. 

O agravamento da violência nas comunidades do Alemão, com quatro UPPs, tem dado trabalho extra à fisioterapeuta, que mantém ainda consultório particular. O tipo de paciente que ela recebe lhe rendeu uma alcunha: “Tem gente que chega e já fala pra mim: ‘eita, é a doutora do tiro, facada e bomba’”. 

Tudo começou em 2009, dentro do ônibus que seguia para Vila Isabel, bairro da zona norte, onde a fisioterapeuta atenderia uma paciente. Ao seu lado, sentaram-se duas crianças e a mãe. A moradora da favela Vila Cruzeiro contou que seguia para o Hospital Municipal Jesus. Ali, um dos meninos, com leucemia, passava por tratamento para problema cardíaco. Estava desempregada, a família passava fome. 

“Ela começou a contar a história, eu estava sem óculos. Abri minha bolsa, peguei meus óculos escuros e botei, porque eu já estava chorando”, conta Mônica. Ao chegar a Vila Isabel, não foi para a consulta, e sim para uma igreja. Pediu ajuda ao padre. Pouco depois, entregava no Hospital Jesus uma cesta básica à família que conhecera no ônibus. 

No mesmo dia, foi à Paróquia São Sebastião de Olaria conversar com o padre, decidida que os alimentos entregues não eram o suficiente. Queria fazer mais. O religioso cedeu uma saleta da igreja para que, com seu trabalho, a fisioterapeuta ajudasse mais gente. Muito católica, costuma dizer que seu “patrão é Deus”.

O Complexo do Alemão, até 2010, era reconhecido como o quartel-general da principal facção criminosa do Rio, o Comando Vermelho, a mesma comandada pelo traficante Fu da Mineira, preso pela polícia nesta semana. Esconderijo de traficantes, foi ocupado em novembro daquele ano, três dias depois de a Polícia Militar tomar a comunidade vizinha da Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha - episódio que ficou conhecido pelas cenas de traficantes em fuga, correndo pelo alto do morro. A ação no Alemão era estratégica, uma vez que o complexo e a Vila Cruzeiro são adjacentes, separados pela Serra da Misericórdia, área de mata cravada na zona norte do Rio. Até então, 11 UPPs haviam sido instaladas no Estado e o modelo de policiamento se expandia com ampla aprovação.

A quarta-feira que antecedeu a incursão dos PMs no Alemão, lembra Mônica, foi dia de baixo comparecimento e pressões arteriais altíssimas, por causa da ansiedade dos poucos pacientes que resolveram aparecer na paróquia. “Já tinha gente com pressão alta, e eu encaminhando para o posto de saúde. Gente com pressão 20 por 13. As pessoas vinham duras de nervoso.” Na segunda-feira seguinte, em meio a cápsulas de balas que ainda restavam no chão, voltou a atender na paróquia. Dez pacientes apareceram, com medo.

A maioria havia sofrido novos AVCs, conta Mônica. Alguns, praticamente recuperados, voltaram ao marco zero do tratamento. “Eu perdi muito com isso, com essa confusão, boa ou ruim. Isso fica para o povo decidir. Para mim ruim, porque eu regredi muito no meu trabalho. Comecei tudo de novo”, lembra. Naquela época, foi ombro amigo de mães chorosas, que contavam dos filhos que foram presos ou baleados.

Já com a chegada da UPP, em 2012, as patrulhas da PM passaram a ser permanentes dentro do Alemão, onde o tráfico de drogas resiste. Depois de um ano, os confrontos com traficantes agravaram-se. Um episódio dá a noção da crise: o Desafio da Paz, corrida que refaz o trajeto dos traficantes que fugiram da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão, estava na terceira edição quando tiros assustaram os corredores minutos antes da largada. A prova, da qual o secretário de Segurança do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame participou, era um dos símbolos do projeto de pacificação de comunidade. Por medo, 800 dos 2.300 desistiram de correr. 

A chegada das UPPs não veio acompanhada de serviços públicos de saúde, dizem moradores. Mônica é a primeira procurada ao menor sinal de problemas motores. A fila de espera, anotada em um caderninho com espiral, tinha 36 nomes até 7 de agosto. Chega a realizar 19 atendimentos a cada tarde de consultas voluntárias. Nem sempre os pacientes são assíduos. Em uma quarta-feira de violentos tiroteios na área da Grota, uma das mais perigosas do Alemão, deixou de atender cinco que ficaram em casa para se proteger dos disparos. 

A falta de espaço e equipamentos do cubículo dentro da paróquia fez com que, desde 2012, os atendimentos a crianças e a cadeirantes fossem suspensos pela própria fisioterapeuta. Naquele ano, o marido de Mônica, que pediu anonimato, conta que a mulher realizou 800 atendimentos, em jornadas que iam das 6 da manhã às 9 da noite. Mônica não conseguia dormir depois de negar tratamento às crianças.

Comovido com a tristeza da mulher, apesar das queixas de que o jantar em casa não era mais o mesmo, ele doou a Mônica um imóvel na Rua das Andorinhas, em Olaria. Apesar de amplo, o local estava totalmente destruído. A fisioterapeuta ganhou outro apelido: “vendedora de rifas”.

A clínica passou por reforma só com doações. Mônica ia à Avenida Itararé, acesso ao Alemão, pedir dinheiro. Entrava em lojas de material de construção e saía com sacos de cimento. Recebeu ajuda de pacientes que pagavam as consultas. Organizou almoços, churrascos. Funcionários da editora FTD, que fica ao lado do clínica em obras, compraram 300 rifas em um único sorteio. “Não tem rifa, não?”, costumam perguntar, ao cumprimentá-la.

Nos últimos dois anos, o Instituto Movimento e Vida já teve paredes, chão e teto reformados e pintura refeita. Uma sala com televisão está montada onde será a recepção. Uma maca e um aparelho de musculação também já estão colocados na sala principal do local. Além da mobília que falta, Mônica quer apoio financeiro para montar equipe com mais três fisioterapeutas, recepcionista e auxiliar administrativo. A meta é bater cem atendimentos por dia. 

Para tentar driblar desde já a falta de estrutura, Mônica leva os pacientes mais graves para seu consultório particular, mais aparelhado. Um deles é Vinícius Santana, de 33 anos. Em fevereiro, o alpinista industrial trabalhava na Rodovia Washington Luiz, a BR-040, quando foi atingido pela roda que se soltou de um caminhão. Foram quase 40 dias internado no Hospital Getúlio Vargas, na Penha. Quando voltou para casa, não andava, não se mexia nem falava e usava fraldas geriátricas. 

“Eu disse: meu Deus, nem em pé ele vai ficar. Agora já trabalhamos com peso, equilíbrio. Mas a gente viveu aqui momentos muito difíceis. Ele surtava, queria ir embora”, lembra Mônica, considerada “um pouquinho” linha dura pelo paciente. Não é à toa que foi com ela que Vinícius disse as primeiras palavras depois do acidente, uma série de palavrões em reação a um movimento doído feito na maca.

Para a surpresa de amigos, em três meses Vinícius não só ficou de pé como voltou a caminhar e agora já frequenta festas na comunidade. A família tenta agora se desfazer dos incontáveis pacotes de fraldas doados por amigos que o rapaz não precisou usar. A reviravolta foi tamanha que muitos conhecidos procuraram Mônica achando que ela pode fazer qualquer um voltar a andar. Ela explicava a essas pessoas que “cada caso é um caso”.

A gratidão dos pacientes faz com que Mônica ganhe vários bolos de aniversário por ano. Tanta comida, queixa-se o marido, já fez com que ela ganhasse alguns quilos. Nada comparável, no entanto, ao dia em que ela morreu, pelo menos na cabeça dos moradores do conjunto de favelas.

Tinha ido visitar os pais, moradores de Campo Grande. No meio do caminho, começou a receber ligações. Vozes desesperadas pouco atentavam a quem estava do outro lado da linha. Só repetiam que já sabiam do ocorrido, que Mônica tinha morrido em um acidente. A acidentada, na verdade, era uma homônima. Até que tudo fosse esclarecido, uma missa de sétimo dia para a fisioterapeuta chegou a ser marcada.

Na segunda-feira em que retomou os atendimentos, depois de tentar espalhar a informação de que estava viva, o consultório particular virou local de peregrinação. Dezenas de pessoas chegavam com doces, bolos e salgadinhos para oferecer à “doutora” e avisar que só acreditariam que ela não morreu vendo. Guloseimas devidamente repartidas entre pacientes, familiares e a recepcionista do consultório, a mulher que faz paralisados levantarem e andarem provou que era capaz até de ressuscitar dos mortos.

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