É a política, Serra!

Para sociólogo, a alta rejeição ao candidato tucano tem raízes na campanha presidencial de 2010, quando ele teria prescindido de atacar os temas políticos

DEMÉTRIO MAGNOLI , O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h08

Uma lenda urbana atribui ao jornalista Gilberto Dimenstein a queda livre de José Serra nas pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de São Paulo. O pretenso culpado deve gostar da fama produzida por tal interpretação. Contudo, ela é falsa. O desencanto com o candidato não deriva da ruptura de um compromisso fajuto assinado num papelucho, durante a campanha eleitoral municipal de 2004, mas da ruptura de um compromisso verdadeiro firmado com os eleitores paulistanos nas campanhas estadual de 2006 e presidencial de 2010.

O dever profissional dos jornalistas é noticiar e interpretar os fatos. Alguns, porém, operam em frente dupla, atuando como jornalistas militantes e criando os próprios fatos políticos. Dessa distorção do jornalismo nasceu a iniciativa de Dimenstein de solicitar publicamente, em 2004, que Serra assinasse o papelucho no qual prometia cumprir integralmente o mandato de prefeito. O candidato, sem alternativa face às circunstâncias de uma campanha eleitoral, assinou a declaração de intenção. Dois anos mais tarde, entregou o cargo de prefeito ao vice, Gilberto Kassab, e candidatou-se ao governo do Estado. Hoje, os "serristas" plantam o diagnóstico de que a "maldição de Dimenstein" assombra o candidato. A explicação, tão simples quanto errada, cumpre a função de ocultar o fundo político do problema.

O PT ergueu o papelucho como uma lança contra Serra nas eleições de 2006 e 2010, fracassando duas vezes. Serra foi eleito governador com os votos da maioria dos eleitores da capital paulista e, depois, bateu Dilma Rousseff na cidade de São Paulo. Os eleitores revelaram compreender a natureza da política na democracia. Aceitaram o "contrato" proposto pelo prefeito, que não é um funcionário burocrático, um gerente ou um síndico, mas um líder político. No "contrato", acordava-se que o vice-prefeito Gilberto Kassab representaria a continuidade da gestão municipal e que Serra representaria a oposição ao governo federal nos voos mais altos rumo ao Bandeirantes e ao Planalto. A mensagem - correta! - dos eleitores é que esse contrato foi fraudado, nas suas duas cláusulas.

Cláusula um: Kassab, a continuidade. O prefeito realiza uma administração medíocre, mas a rejeição do eleitorado explodiu na hora em que resolveu inventar o PSD - um partido que, nas suas curiosas definições negativas, não seria "de direita, de esquerda, nem de centro", e também não marcharia com a oposição ou a situação pois, "em relação ao governo federal, nossa posição será de independência". O partido de Kassab, todos entenderam, é um segundo PMDB: uma reunião ecumênica de oportunistas ou, mais claramente, um balcão de negócios no varejo e no atacado. Serra e, depois, Kassab, venceram as eleições municipais em disputas contra Marta Suplicy, do PT. A declaração de "independência" de Kassab foi interpretada pelos eleitores como a traição do "contrato" assumido em 2004 e renovado em 2008. Mas o prefeito, ungido originalmente por Serra, continua a figurar como seu aliado político. A aventura kassabista do PSD pesa contra Serra. Alguém aí acha que os eleitores estão errados?

Cláusula dois: Serra, o oposicionista. A aversão registrada pelas pesquisas atuais ao candidato tucano tem suas raízes na campanha presidencial de 2010, quando Serra renunciou ao dever de falar de política. Quando sufragaram majoritariamente seu nome, os paulistanos já agiam movidos pela inércia derivada da carência de alternativa. Ninguém esquecera que o tucano inaugurou o horário eleitoral obrigatório associando fraudulentamente sua imagem à de Lula. Nem que sua campanha, no lugar da crítica política ao governo e da oferta de um rumo diferente, preferiu estabelecer um "concurso de beleza" entre os candidatos, operando nos registros da "experiência" e da "capacidade administrativa" do tucano.

Serra não apenas perdeu eleitoralmente, uma contingência normal na democracia, mas faliu politicamente, recusando-se a representar o eleitorado de oposição. No dia da derrota, evidenciando aguda arritmia política, substituiu os devidos cumprimentos à candidata vitoriosa por um discurso patético de conclamação à "resistência" na "trincheira democrática". Depois, jamais apresentou à opinião pública um balanço da derrocada, escolhendo o caminho da autoilusão. Seu marqueteiro de 2010 conduz a atual campanha à Prefeitura, uma escolha que deveria integrar as novas edições das enciclopédias de filosofia como ilustração do verbete hubris, palavra de origem grega que reúne as ideias de orgulho e arrogância, em grau próximo à desconexão com a realidade.

Há algo de triste, quase trágico, em tudo isso. Serra possui qualidades admiráveis, que se destacam sobre uma paisagem política dominada por espertalhões, salafrários e bandidos. Ele mesmo, contudo, cuidou de ocultá-las minuciosamente, acendendo apenas os holofotes que iluminam a sua hubris. Azar dele, talvez. Mas todos nós, inclusive seus adversários políticos honestos, perdemos alguma coisa.

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