Fernando Bizerra Jr./EFE
Fernando Bizerra Jr./EFE

E aí, presidente?

Para o autor, os manifestantes acabaram com o longo período de Dilma Rousseff como líder popular, mas agora estão dando a ela a oportunidade de se tornar uma grande governante

Peter Hakim,

27 de julho de 2013 | 16h33

Embora os brasileiros gostem de multidões, foi uma surpresa praticamente geral quando mais de 1 milhão de manifestantes saíram às ruas em mais de cem cidades para protestar. Eles reclamaram dos abusos, do desperdício e da corrupção do governo, tudo isso escancarado aos olhos do público com os bilhões de dólares gastos nos preparativos da Copa do Mundo de 2014 enquanto os serviços públicos – da educação e saúde aos transportes e à polícia – continuam estagnados na mediocridade. Ninguém viu os preparativos dos protestos. Ninguém aparentemente se deu conta da profundidade da revolta e da frustração dos brasileiros – a presidente do País, qualquer outro líder político, a imprensa ou seus gurus, os acadêmicos ou os analistas. Nem os banqueiros, os empresários ou os investidores estrangeiros. Os próprios organizadores das primeiras manifestações, que protestavam contra um aumento de 6% das passagens de ônibus, ficaram espantados com o número enorme de adesões.

Os brasileiros têm muitas razões para se sentirem satisfeitos consigo mesmos. Desde 1985, eles desfrutam do período mais longo de governo democrático ininterrupto jamais vivido pela nação. Nos últimos dez anos, sua estatura e influência internacional atingiram níveis sem precedentes. A economia do País, embora recentemente em ritmo reduzido, veio registrando uma expansão mais acelerada que em qualquer outro momento numa geração. A pobreza e o desemprego nunca foram tão baixos. Pela primeira vez na história, a classe média ultrapassa o número da população pobre.

Mais desconcertante ainda é talvez o fato de que, antes do início dos protestos, as pesquisas de opinião sugeriam que os brasileiros estavam satisfeitos com seus líderes. A presidente Dilma Rousseff tinha os índices de aprovação mais altos do mundo, superando todos os outros 34 chefes de Estado do Hemisfério Ocidental em popularidade. Quando seu predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, deixou o cargo, há dois anos e meio, o índice de aprovação dele chegava a estratosféricos 83%. É quase como se os próprios brasileiros não tivessem consciência ou tivessem esquecido seu descontentamento até que os manifestantes tomassem as ruas e revelassem a crescente revolta contra políticos corruptos, Legislativos ineficientes, funcionários incompetentes pagos com supersalários, desmazelo com os serviços públicos essenciais e persistente esbanjamento do dinheiro dos contribuintes.

Embora exprimissem preocupações semelhantes aos de manifestantes de outras partes do mundo, os protestos brasileiros se diferenciaram dos de outras nações da América Latina, Europa, Oriente Médio e Ásia. Em primeiro lugar, eles praticamente não encontraram oposição. Ninguém discordou muito das queixas expressas pelos manifestantes. Além de alguns defensores dos gastos milionários com os preparativos da Copa de 2014, quase todo mundo (inclusive a presidente Dilma Rousseff) apoiou os manifestantes. Em que outro lugar as enormes passeatas pelas ruas das cidades foram universalmente recebidas com aplausos, seus participantes não foram criticados e não encontraram oposição?

Além disso, embora a lista de reclamações fosse longa, os manifestantes brasileiros não apresentaram prescrições concretas e fizeram poucas exigências específicas. Ao contrário do que aconteceu nos protestos no Egito e na Turquia, em Portugal e na Espanha, não pediram a renúncia ou destituição de sua presidente ou de outros integrantes do governo. Não elaboraram um programa de ação sobre questões específicas – contrariamente aos ativistas do Chile, que exigiam a reforma da educação, ou do México, que pediam mudanças na política contra a criminalidade e a droga, ou das marchas nos Estados Unidos em favor de uma ampla redistribuição da renda. Os brasileiros não insistiram na aprovação de novas leis importantes, como a legalização do casamento gay ou a reforma da imigração, como os manifestantes nos EUA; nem pressionaram pela revogação de leis e de acordos internacionais existentes, como fizeram os gregos e os espanhóis “indignados” que reivindicaram a anulação das medidas de austeridade. Manifestações do tamanho e da duração das do Brasil costumam ter maior intensidade e paixão. Os brasileiros, claro, estão revoltados com as falhas e fracassos do governo, e profundamente empenhados em mudar a maneira como o governo usa sua autoridade. Mas é impossível lutar intensa e apaixonadamente por um leque tão amplo de temas. Paixão significa escolher e investir totalmente nas próprias escolhas – sejam elas políticas ou pessoais. Os brasileiros ainda não fizeram suas escolhas. O jornal The New York Times noticiou que, quando o repórter perguntou a uma jovem manifestante o que ela pretendia, ela respondeu: “Nós queremos tudo, e queremos agora”.

Os brasileiros comuns fizeram sua parte. Mostraram seu descontentamento e pediram amplas mudanças, quase todas razoáveis e justificadas. Agora, cabe à liderança do País, tanto na área pública quanto na privada, elaborar as alternativas, propor prioridades e deixar clara a necessidade de chegar a determinados compromissos. Até o momento, os resultados têm sido desencorajadores.

O principal ônus da responsabilidade cabe à presidente Dilma Rousseff. Ela demorou excessivamente para responder aos protestos e, quando por fim o fez, aparentemente achou que seria suficiente concordar com a lista de reivindicações dos manifestantes, e adotá-la. Ela prometeu reformas políticas para aplacar as queixas de que os políticos não arcam com suas responsabilidades e não há transparência no governo. Respondeu aos apelos por melhores escolas e hospitais com a promessa de mais recursos para ambos. As preocupações com os perigos das ruas e o trânsito insuportável receberam a garantia de maiores investimentos na segurança pública, em novas estradas e na melhoria dos serviços de ônibus e trens. Ao que tudo indica, os brasileiros não consideraram sua resposta aceitável ou convincente – e os índices de aprovação da presidente despencaram cerca de 30 pontos.

Os brasileiros instintivamente pareceram concluir que ela não estava mostrando a capacidade de liderança necessária – ao contrário, sua mensagem era populista, mesmo arrogante. Ao eleitorado que queria “tudo”, ela prometeu que teria. A presidente anunciou mais atenção e novos gastos para quase todas as reivindicações – sem informar quais os gastos a serem reduzidos, os compromissos a serem assumidos e quem pagaria a conta. Deixou de responder a questões fundamentais, como de que modo o desperdício do governo poderia ser reduzido e os impostos cortados, ao mesmo tempo que teriam de ser feitos novos e enormes investimentos. Ela nunca mostrou ter plena consciência da dificuldade na implementação das mudanças que estavam sendo reivindicadas. Apesar de semanas de enormes manifestações criticando o funcionamento do governo brasileiro, ela não desmentiu nem propôs a renúncia de um único representante da administração. Mas Dilma não é a única culpada pelas falhas. Governadores estaduais, senadores e prefeitos não apresentaram propostas melhores, nem os líderes da oposição, acadêmicos ou a comunidade empresarial.

Até os manifestantes irem às ruas, parecia que a presidente tinha a certeza de reeleger-se para um segundo mandato no ano que vem. Embora continue liderando em várias pesquisas, as eleições de 2014 tornaram-se uma competição das mais acirradas para ela. Se o apoio do eleitorado cair ainda mais, Lula, seu predecessor, a figura política mais popular do Brasil, talvez seja pressionado pela liderança do partido a desafiar sua protegida. Já não está fora de questão a possibilidade de surgir um adversário político não pertencente à área do governo. Marina Silva, que recebeu 20% dos votos como candidata do Partido Verde, em 2010, desta vez poderá mostrar-se ainda mais competitiva.

Por enquanto, porém, a eleição pressupõe Dilma na disputa. Como presidente, todas as atenções se concentram nela, que manda nos holofotes e tem o maior megafone. Precisará mostrar que está traçando um novo curso para o Brasil e tem a capacidade de responder efetivamente às novas reivindicações que os brasileiros fazem a seu governo, não importando quão amorfas sejam. Se ela fizer boas escolhas e demonstrar capacidade de liderança, ninguém poderá derrotá-la. Decisões erradas ou falta de decisão poderão acabar com sua carreira política. Por exemplo, talvez esteja na hora de considerar a nomeação de um novo gabinete, assinalando um compromisso com a mudança e estabelecendo sua independência de Lula.

Os protestos devem ser vistos como uma evolução animadora para o Brasil e tornar as pessoas mais otimistas com o futuro do País. Os manifestantes escolheram as questões certas – todas fundamentais para o Brasil e sua possibilidade de avançar rumo a uma economia desenvolvida e uma sociedade mais justa e segura. As passeatas e manifestações também aumentaram a importância política dos problemas apontados, fazendo com que seja impossível continuar a ignorá-los. O mais importante é talvez o fato de que os cidadãos brasileiros assumiram um novo papel – o de fiscais do governo. Como contribuintes, eles têm o direito e a responsabilidade de supervisionar o uso que o governo faz do dinheiro dos impostos.

Evidentemente, muitas vezes a mudança acaba provocando conflitos partidários e ideológicos, e isso poderá ocorrer no Brasil. Será difícil planejar e implementar as reformas necessárias – políticas, econômicas e sociais. Talvez o Brasil não tenha instituições suficientemente fortes que funcionem na prática. Entretanto, o País – hoje mais forte e capaz que em qualquer outro momento de sua história – encontra-se em melhor posição que nunca para manter seus sucessos.

Os brasileiros deram uma extraordinária oportunidade à primeira mulher a governar o País: presidir um momento histórico de mudanças políticas e econômicas de grande envergadura. Os manifestantes legitimaram um programa de transformação nacional e mostraram que ele exige profundo apoio. Eles acabaram com o longo período de Dilma Rousseff como presidente popular – mas estão dando a ela a oportunidade de se tornar uma grande presidente. Oxalá... / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* PETER HAKIM É PRESIDENTE EMÉRITO DO DIÁLOGO INTERAMERICANO

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