...e Harry Potter vazou na internet

Como surgiu e funciona a rede paralela de troca de arquivos que já ocupa 60% do tráfego de dados em todo o planeta

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2007 | 10h43

Na semana passada, alguém com acesso a um exemplar do último volume da série Harry Potter colocou o livro contra um chão acarpetado e fotografou cada uma de suas páginas com uma câmera digital Canon Rebel 350D. As imagens foram divulgadas pela internet na noite de segunda-feira, cinco dias antes do lançamento mundial.Ao todo as editoras da série gastaram US$ 20 milhões para proteger o segredo até o sábado. Instalaram rastreadores de satélite nos caminhões de distribuição, contrataram advogados para tirar sites com o material pirateado do ar. "Mas, não há o que fazer", escreveu em seu blog Bruce Schneier, um dos maiores especialistas em segurança digital dos EUA. "É impossível evitar que algo assim vaze na internet."O resultado é que Harry Potter, o último, já havia sido resenhado pelo New York Times na edição de quinta-feira. O livro de J. K. Rowling não é sequer o único exemplo recente. Sicko, último filme do documentarista Michael Moore, vazou na internet três semanas antes de estrear nos cinemas de seu país.Para a maioria de seus usuários, a rede mundial de computadores se restringe à web pela qual se navega atrás de informação e aos e-mails trocados. Quando muito, ela está presente no cotidiano das mensagens instantâneas. O submundo da internet, no entanto, a rede invisível para quem não está atento, aquela na qual filmes, discos e livros são trocados, corresponde a 60% do tráfego de dados em todo o mundo.Em 1999, não chegava a 10%.A história desta internet paralela começou no dia 1º de junho de 1999, quando um estudante de 18 anos chamado Shawn Fanning lançou um pequeno programa chamado Napster. Quem o utilizasse poderia compartilhar os arquivos de música em seu computador com outras pessoas pela internet. Em menos de um ano, já contava com 60 milhões de usuários. As gravadoras entraram em pânico e, através de ações milionárias na Justiça, puseram o sistema Napster abaixo.A resposta dos programadores foram novos sistemas de troca de arquivos bem mais complexos do que o de Fanning. Um dos mais populares, o BitTorrent, está em operação desde 2001. Diferentemente do Napster, os sistemas utilizados por jovens em todo o mundo atualmente não exigem um computador central que ligue os computadores pessoais de quem troca os arquivos. Sem tal computador central, não há como desligar a rede. Ela funciona descentralizada e está sempre de pé.Aquilo que ela precisa são sites que publiquem endereços especiais, como links, para filmes, discos ou livros. O mais conhecido e utilizado deles se chama Pirate Bay. Tais sites podem ser derrubados - e de Hollywood à indústria fonográfica, todo mundo o tenta arduamente.Pirate Bay é o 274º site mais visitado da internet. Criado por um grupo de ativistas contra as leis de copyright suecos, ele é comandado por homens conhecidos e com a ficha policial limpa. Para eles, o direito autoral interrompe o livre fluxo da informação no mundo, principalmente quando está nas mãos de grandes corporações. Por conta da flexibilidade das leis de direito à livre expressão da Suécia, argumentos para encerrar a operação são difíceis de levantar. Em 2005, a polícia chegou a fechar o site. Ele estava de pé, novamente, três dias depois.Em novembro último, uma empresa especializada colocou nesta rede paralela uma cópia de boa qualidade de um filme que estava estreando nos cinemas americanos. O rastreamento nas duas semanas seguintes deste arquivo, feito a pedido da revista The Atlantic Monthly, contou 30.408 downloads nos cinco continentes. Cópias daquele mesmo arquivo foram baixadas, inclusive, em 23 dos 27 estados brasileiros.Foi justamente na Pirate Bay, ao longo da última semana, que leitores de Harry Potter puderam encontrar o exemplar do sétimo episódio da série, devidamente fotografado página a página em sua edição americana. No Pirate Bay, estavam links para o download do conjunto no sistema Bit Torrent e, o que é raro, links para quem quisesse lê-lo na própria web.Tanto a editora americana Scholastic quanto a Bloomsbury, editora do original britânico, passaram a semana perseguindo estas cópias online. As que estavam em páginas da web puderam ser derrubadas, mediante liminares. Os advogados viraram a noite. Cópias na rede paralela, no entanto, como filmes, como discos, podem ser rastreadas, mas não há um computador que, desligado, interrompa sua distribuição. A única opção seria desligar a internet. Não vai acontecer.Durante todo o processo de escrita de Harry Potter e as Relíquias da Morte, nunca uma única cópia do rascunho foi enviada por e-mail pela escritora J. K. Rowling para seus editores. Rowling imprimia o texto, um dos poucos autorizados a lê-lo ia à Escócia pegar pessoalmente a versão. A segurança rígida funcionou, inclusive, para os editores americanos - que foram a Londres buscar, em papel, os originais para revisão. Nenhuma das editoras que traduzem Harry Potter pelo mundo tiveram acesso a uma cópia antes da data para venda.Mas, em um momento, os livros precisaram ser impressos, encadernados, distribuídos aos milhões pelas principais cadeias de livrarias em todos os EUA, Reino Unido e mesmo países de Europa, Américas, Ásia, África e Oceania que não falam inglês. "O problema é que há gente demais na qual se deve confiar para garantir que o segredo seja mantido intacto", escreveu Schneier , o especialista em segurança digital. Schneier é conhecido o suficiente no ramo para ser citado em romances como O Código Da Vinci como referência. "Basta uma única pessoa que decida quebrar esta confiança - um motorista de caminhão, um livreiro, um empregado de algum depósito, por exemplo - e o livro vazará."A pessoa que fotografou cada página do último Harry Potter apoiou o livro contra um carpete cinza mesclado com preto. Ela nunca aparece - apenas seus dedos, prendendo as páginas. Mas, em cada fotografia, sem que esta pessoa desconfiasse, um número estava sendo registrado. Toda câmera digital deixa em toda foto que tira esta identidade. É por isso que, a essas alturas, a Canon já sabe que modelo foi e onde foi vendida nos EUA, três anos atrás. O dono da câmera pode, possivelmente, ser rastreado.O submundo digital tem mistérios que escapam, até mesmo, àqueles que trocam arquivos na internet paralela.

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