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É loucura boicotar a cultura israelense

Pode-se discordar das políticas de Israel; já condenar todos os cidadãos de um país pelas posições de seu governo é racismo

Umberto Eco*

05 de junho de 2010 | 10h38

Em janeiro de 2003, escrevi um artigo lamentando o fato de que The Translator, uma publicação acadêmica britânica, havia se juntado com outras publicações britânicas num boicote acadêmico de universidades israelenses em protesto pelas políticas do premiê israelense Ariel Sharon. Mona Baker, editora de The Translator, havia sido signatária da carta aberta anunciando o boicote. Pouco depois, ela convidou dois cientistas israelenses do conselho editorial da revista a renunciar. Os dois intelectuais em questão, dra. Miriam Schlesinger e dr. Gideon Toury, estavam em desacordo com as politicas de Sharon, mas isso não fez a menor diferença para Baker.

 

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Em minha crítica, eu observei duas coisas: primeiro, que é necessário fazer uma distinção entre as políticas do governo de um país (ou mesmo sua Constituição) e o fermento cultural em ação dentro dele. Segundo, assinalei implicitamente que considerar todos os cidadãos de um país responsáveis por políticas de seus governos era uma forma de racismo. Não há nenhuma diferença entre os que picham todos os israelenses dessa maneira e os que sustentam que, como alguns palestinos cometem atos de terrorismo, devíamos bombardear todos os palestinos.

 

Recentemente, em Turim, surgiu uma carta aberta sob a égide do ramo italiano da Campaign for the Academic and Cultural Boycott of Israel, uma rede de acadêmicos e organizações trabalhando para forçar uma mudança nas políticas de Israel com o boicote de instituições israelenses. Esse documento, cuja intenção é censurar o governo de Israel por suas políticas, inclui a seguinte declaração: "As universidades e os acadêmicos israelenses apoiaram e apoiam quase totalmente seu governo e, como tal, são cúmplices de suas políticas. As universidades israelenses são também os lugares onde alguns dos projetos de pesquisa mais importantes são realizados sobre novas armas baseadas em nanotecnologia e sistemas tecnológicos e psicológicos para controlar e oprimir a população civil".

 

Na carta, espécie de manifesto, esses acadêmicos pedem para as pessoas se absterem de tomar parte em qualquer cooperação acadêmica e cultural, incluindo colaborar com instituições israelenses. Eles sugerem também a suspensão de todas as formas de financiamento e subsídio.

 

Embora eu discorde completamente das políticas do governo israelense, é falso afirmar, como os defensores italianos do boicote fazem em sua carta, que universidades e acadêmicos israelenses apoiam "quase totalmente" o governo de seu país. Muitos intelectuais israelenses continuam combatendo com firmeza as políticas de seu governo. Por exemplo, a European Jewish Call for Reason (ou JCall) produziu recentemente uma petição contra a expansão dos assentamentos israelenses, assinada por um grande número de destacados intelectuais judeus europeus. Ela causou uma agitação enorme, mostrando que o debate continua tanto dentro como fora de Israel.

 

De mais a mais, isso é ilógico. Por que o boicote deveria ser tão abrangente? Deveríamos proibir filósofos chineses de participarem de conferências filosóficas porque Pequim censurou o Google? Se físicos em universidades de Teerã ou Pyongyang estivessem colaborando ativamente na construção de armas atômicas para seus países, seria compreensível que seus pares acadêmicos em Roma ou Oxford pudessem preferir romper todas as relações institucionais com eles. Mas não vejo por que eles deveriam romper relações com acadêmicos trabalhando em campos não afins: perderíamos todo o diálogo sobre a história da arte coreana ou da literatura persa antiga.

 

O filósofo Gianni Vattimo, meu amigo, está entre os que apoiam essa convocação ao boicote. Ora, vamos considerar, a título de raciocínio, uma hipótese, para ver se chegamos a acordo. Suponhamos que circulem, em certos países estrangeiros, rumores de que a administração Berlusconi na Itália está tentando solapar o sagrado princípio democrático da separação de poderes deslegitimando o Judiciário - e está fazendo isso com o apoio de um partido político xenófobo e racista. Será que agradaria a Vattimo, ele próprio um crítico do governo italiano, se universidades americanas protestassem contra as políticas na Itália não o convidando mais para atuar como professor visitante, ou se comitês especiais tomassem medidas para retirar todas as suas publicações de bibliotecas americanas? Acho que ele gritaria "injustiça" e veria tais ações como o equivalente a responsabilizar todos os judeus por deicídio porque o Sinédrio estava de mau-humor na Sexta-Feira Santa.

 

Ninguém concordaria que todos os romenos são estupradores, todos os padres, pedófilos e todos os estudiosos de Heidegger, nazistas. Da mesma forma, nenhuma posição política contra um governo deveria condenar toda uma raça ou cultura. Esse princípio é particularmente importante no mundo literário, em que a solidariedade global entre cientistas, artistas e escritores sempre foi uma maneira de defender os direitos humanos além-fronteiras.

 

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

 

* UMBERTO ECO, ACADÊMICO ITALIANO, É AUTOR DOS BEST-SELLERS BAUDOLINO, O NOME DA ROSA E O PÊNDULO DE FOUCAULT, ENTRE OUTROS. SEU LIVRO MAIS RECENTE É HISTÓRIA DA FEIURA

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