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E o clima esquentou em Copenhague

Em que acreditar quando a imaginação moderna devora desastres?

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2009 | 00h09

Estou com frio? Ou sinto calor? Gostaria de saber, e talvez, ter uma pequena ideia do que vem ocorrendo. Mas a Cúpula de Copenhague me deixou tão confuso que às vezes bato os dentes de frio e outras vezes transpiro de calor. Depende dos oradores, o último tem sempre razão.

A cúpula começou bem. O Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima, que abrange uma miríade de especialistas de saber incontestável, confirmou energicamente que as temperaturas do globo estão subindo com rapidez assustadora. Dentro de um século estaremos assados.

Mas, em seguida, um saudita, Mohammed al-Sabban, subiu na tribuna e afirmou que é bobagem, a Terra não está aquecendo. Na realidade, está esfriando. Então, o indiano Rajendra Pachauri pulou. Disse que o saudita era uma besta. "A Terra está aquecendo. Temos um painel que estuda o assunto há 21 anos." E um respeitado cientista francês, Vincent Courtillot, foi preciso: "Se está aquecendo é muito pouco, e os homens e o CO2 contribuem para isso".

Não compreendi mais nada. Copenhague é uma guerra em que três exércitos se defrontam. O primeiro, mais numeroso, mais oficial e mais científico, integrado por aqueles que podemos chamar de ortodoxos, luta contra o aquecimento. Outro, formado pelos ecologistas, berra que o mundo não faz o suficiente contra o fenômeno. O terceiro é o dos céticos, para os quais tudo isso é piada e a Terra, na verdade, começou a esfriar há dez anos.

O combate entre os céticos e os ortodoxos está fazendo estrago. É de uma violência inaudita. Vale tudo. De um país a outros, cientistas se desprezam, se insultam, brigam. Em novembro, hackers entraram nos computadores de uma universidade inglesa. Roubaram 13 mil e-mails que provariam, segundo eles, que os ortodoxos mentem e distorcem as estatísticas para fazer crer que faz calor quando está fazendo frio.

À medida que a discussão fica mais venenosa ela se torna ainda mais esotérica. Um fala da circulação das águas atlânticas, outro replica, apontando para a influência do magnetismo terrestre. Alguns dizem que o CO2 é o culpado e outros debocham disso. Não, o pior é o vapor de água que cria o efeito estufa. Aliás, felizmente existe esse efeito estufa. Se não, sabe qual seria a temperatura da Terra? -15°C, não 15°C, como é o caso hoje. Estaríamos num astro morto. Existe um outro culpado, o gás metano, portanto, o esterco da vaca (há muitas vacas no Brasil e na França...). E as queimadas, o que vocês estão fazendo a respeito?

Mas imediatamente os céticos do clima contra-atacam. "Vejam", dizem eles, "o CO2 criado pelo homem é nada. As emissões naturais de CO2 são bem maiores que as produzidas pela humanidade. O fluxo de carbono de origem humana pesa 8 bilhões de toneladas, enquanto o carbono de origem natural pesa 200 bilhões".

Nesse ponto, já não sabemos em quem acreditar. Eis aí uma fraqueza da ciência atual: os cientistas sabem tanto, são tantos, tão especializados e tão em desacordo entre eles que, diariamente, saem de seus laboratórios milhões de opiniões, curvas estatísticas, análises - umas contradizendo as outras. É um paradoxo: jamais fomos tão mal informados como neste século, em que a ciência sabe tudo.

Portanto, é difícil formar uma ideia sobre as causas do aquecimento, mesmo que a hipótese da culpa dos homens não possa ser desprezada ou diminuída. Em contrapartida, há uma outra pista raramente evocada. Vamos admitir que as temperaturas estejam aumentando há 50 anos. É um fenômeno inédito na história do mundo? A resposta claramente é não!

Nos últimos 500 mil anos ocorreram cinco grandes glaciações, a última, a de Würm, há 70 mil anos. Num passado recente, a Idade Média viu um aquecimento da Europa e da América do Norte.

Na época moderna, observamos a "pequena era glacial" entre 1550 e 1850. A peste negra de 1348, que matou metade dos europeus, foi consequência do frio e da chuva. No inverno de 1572 a Europa gelou. Os rios e lagos se tornaram campos de gelo. No século 17, sob o reinado de Luís XIV, os jesuítas faziam procissões contra o frio. Outros monges escalavam as montanhas dos Alpes para orar e pedir aos glaciares para não tragarem os vales e vilarejos. Em 1787 o outono foi excessivamente úmido. O verão seguinte foi quente e com chuva. Os grãos não germinaram. Os homens tinham fome. Em julho de 1789 explodiu a Revolução francesa.

Esse mergulho na história nos leva à conclusão: os saltos das temperaturas nada tinham a ver com uma indústria que não existia nessas épocas. Portanto, se a temperatura média subir um ou dois graus (o que é muito, o suficiente para desequilibrar o planeta), é preciso buscar a razão em outro lugar, nos fenômenos físicos, extraterrestres - manchas no sol, modificação da órbita da Terra, etc.

O curioso é que os ortodoxos, que lutam contra o CO2, jamais levam em conta essa história do clima. Outro elemento a ser considerado é a influência dos lobbies. A presença desses grupos de pressão é espetacular. Copenhague esteve repleta de lobistas. Eles não se escondiam. Tinham estandes. A companhia de petróleo Total tinha uma bela vitrine, explicando que luta contra o aquecimento.

Há lobbies a serviço das indústrias poluentes, ou às ordens de países que querem proteger seus setores industriais e poluir tranquilamente. Os Emirados Árabes pensam no seu petróleo; os poloneses defendem seu carvão.

Outros apoiam a causa contrária. Os ecologistas são numerosos, com uma organização superpoderosa. Têm a seu serviço a maioria das ONGs, bem como as equipes criativas, temerárias e barrocas do Greenpeace.

Esse quadro de confusão que reinou em Copenhague esteve incompleto. Faltou responder a uma outra pergunta: entre os responsáveis pela angústia atual, não deveria estar mais um suspeito, o inconsciente dos homens e dos povos, seu apetite pela catástrofe? O apocalipse é muito popular em nosso século. Vivemos numa sociedade do risco. Claro que tememos esse risco, que estraga nossos dias e noites. No fundo, porém ele nos excita, nos seduz.

Os governos encorajam o diálogo infernal entre o medo do abismo e a atração confusa por esse mesmo abismo. E estimulam, sem querer, comportamentos histéricos. As sociedades ficaram medrosas, assépticas, perfeccionistas. Querem controlar tudo, depurar tudo, erradicar todos os micróbios. À mínima febre, soam as sirenes do medo. Surgem brigadas de enfermeiros, policiais, bombeiros.

A modernidade tem muita imaginação. Ela produz desastres no atacado. São tsunamis, vacas loucas, aids, gripe suína. E sempre nos dizem que precisamos ter medo. Por outro lado, inconscientemente desfrutamos desse medo, nos regalamos com ele, nos aproximamos do abismo e contemplamos, extasiados, o vazio. Trememos. É bom. Aí voltamos à vida cotidiana.

Corremos para assistir a filmes de terror. Sentados nas poltronas, ficamos felizes como demônios e anjos. Degustamos o horror. Copenhague, e no geral a epopeia do aquecimento climático, nos oferecem esse belo presente: um filme de pavor numa tela verdadeiramente gigantesca, com um cardápio chocante: lagos mortos, inundações em Bangladesh, glaciares do Himalaia derretendo, o Polo Norte sem seu gelo, ursos brancos já amarelados, tendo na boca o derradeiro peixe. Fascinante ou terrível, belo ou apavorante, esse formidável espetáculo nos é oferecido gratuitamente, sem horário para terminar.

Gilles Lapouge, Correspondente do Estado em Paris e autor, entre outros, de La Légende de la Géographie, ainda não traduzido

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