'É o eleitor estúpido, estúpido!'

Historiador lamenta a força eleitoral dos desinformados, mas admite que sem eles não haveria democracia

Caio Blinder*, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2008 | 21h14

Na variação da frase antológica de James Carville sobre a importância da economia em um resultado eleitoral ("é a economia, estúpido!"), Rick Shenkman provoca e insulta ao anunciar que é o eleitor estúpido, estúpido! O livro desse historiador e professor da George Mason University (Estado da Virgínia) é esperto, cândido e essencial (Just How Stupid Are we? Facing the Truth About the American Voter, Basic Book, 210 páginas, US$ 25). Há uma tentação para considerar o livro de Shenkman uma diatribe liberal contra George W. Bush (eleito, mas reeleito?) e variações hilariantes como Sarah Palin. E, de fato, Shenkman se esbalda com um eleitor que navegou tanto tempo com Bush até, após tanta estupidez e jogado no mar, perceber que o presidente levou o barco ao fundo. É correto mostrar essa sinergia estúpida entre Bush e sua majestade, o eleitor. Shenkman precisa de uma âncora para sua tese. Ele lembra que antes da invasão do Iraque em 2003, 60% dos americanos acreditavam que Saddam Hussein estava metido nos atentados do 11 de Setembro. Um ano mais tarde, a comissão independente que investigou os atentados concluiu que o ditador iraquiano não tinha vínculos com aquelas barbaridades. Mesmo assim, essa ainda era a crença de 50% dos americanos. Os dados foram fornecidos, mas fatos básicos não foram absorvidos. Em 2006, um em seis jovens não sabia localizar o Iraque no mapa.O buraco é mais fundo e os fatos básicos da falta de civismo americano são terríveis. Recorrendo a várias pesquisas e estudos, Shenkman lembra que apenas dois em cinco eleitores sabem quais são os três Poderes; os cinco integrantes da família Simpson são mais reconhecidos que os cinco direitos garantidos pela Primeira Emenda e 49% dos americanos acreditam que o presidente tenha autoridade para suspender a Constituição.Existe uma fúria populista contra as instituições, mas os americanos não sabem quem controla o Congresso. Em uma pesquisa, 40% expressaram sua opinião sobre o Ato de Questões Públicas de 1975. Um detalhe: ele não existe. Não adianta só fazer piadinha sobre a estupidez humana. Os Simpsons são catedráticos na área. Shenkman vê paradoxos. Os americanos têm os instrumentos e os processos para serem mais engajados no jogo político e estar mais bem informados. No entanto, eles se tornaram menos capazes de exercer suas responsabilidades ou simplesmente de fazer a lição de casa. Na verdade, os americanos nem se interessam muito por política e a consideram uma chatice. Para Shenkman, informações eleitorais sobre candidatos são obtidas em comerciais de campanha de 30 segundos (e nos infames ataques negativos). É um espetáculo que torna superficial a dinâmica política. O autor lamenta que, em uma sociedade movida a entretenimento, o eleitor não estude a sério as grandes questões. Shenkman tem nostalgia dos tempos áureos da imprensa escrita. Ele considera que os jornalões eram melhores fontes de informação do que a balbúrdia desinformativa dos dias de hoje (será que Barack Obama é muçulmano? Será que John McCain é caso clínico de insanidade mental?). Shenkman cita estudos mostrando que, pela maioria das medidas, os eleitores agora possuem o mesmo nível de conhecimento político dos seus pais e avós e, em algumas cateogorias, estão abaixoShenkman insiste que não escreveu uma manifesto liberal e para tanto reconhece que os ouvintes de Rush Limbaugh (o peso pesado ultraconservador do circuito do talk radio) têm mais informações e conhecimento sobre questões políticas e sociais do que a média dos eleitores.No seu manifesto contra a ignorância popular, Shenkman presta um grande serviço à nação. Eleitores não são espertos como os livros de civismo gostariam que eles fossem. Demagogia dos políticos sobre a necessidade de respeitar a sabedoria do povo é irritante. E aqui há hipocrisia. Num comentário sobre o livro de Shenkman, o professor de Harvard John McMillian desmascara uma malandragem ideológica e partidária. Por muito tempo, conservadores eram pessimistas sobre a capacidade do povo de se comportar com responsabilidade democrática. Afinal, esse povo votava no outro lado. Já os liberais perderam a confiança na massa quando ela passou a ser "manipulada" pelo outro lado, abrindo espaço para a hegemonia conservadora.Com seu espírito cívico, Shenkman quer finalizar o livro de forma construtiva no esforço de transformar os EUA "em um país de eleitores espertos". Shenkman sugere que no primeiro ano de universidade os estudantes façam testes semanais sobre os assuntos da semana. Quem passar, poderá pedir um desconto da mensalidade pago por um fundo especial. Não vou qualificar a proposta de estúpida, mas o próprio Shenkman reconhece que os níveis educacionais hoje nos EUA são bem mais altos do que há 50 anos, ou seja, escolaridade em si não resulta em um eleitor mais educado. Lição de civismo é coisa pequena para enfrentar o festival de besteiras que assola este país, qualquer país.E não podemos esquecer qual seria a estupidez suprema. Sem este eleitor, não haveria democracia. Apesar de sua diatribe, Shenkman reconhece que "não podemos demitir o povo americano". *Caio Blinder integra a bancada do programa de TV Manhattan Connection. É autor de Terras Prometidas (Garamond), livro de reflexões sobre a condição judaica

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