Juliana Sayuri/Estadão
Juliana Sayuri/Estadão

E o Enem, neném?

Pamela entrou com duas canetas e o RG no bolso. Saiu com Everton no colo e uma ligação do ministro no celular

JULIANA SAYURI / SIDROLÂNDIA, MS, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2012 | 02h09

Antes, queria ser uma menina da cidade. Daquelas com Facebook apinhado de amigos, festas regadas a caipirinha, madeixas camaleônicas, namorado gente fina, piercings e tattoos modernas, estudante colegial com nota alta no Enem para estudar jornalismo numa faculdade legal, mensalidades ok, professores bons, e poder contar histórias. Nem tanto fã da língua portuguesa stricto sensu, mas e daí, Pamela Oliveira Lescano só queria escrever, contar melhor histórias de um fim de mundo desses que ninguém presta atenção, passa batido, lê e esquece depois de virar a página.

Mas Pamela pensou duas vezes na profissão de repórter depois que virou notícia no domingo passado: a estudante de 17 anos deu à luz sozinha no banheiro do colégio estadual minutos antes de começar a prova do Enem. Pergunto sobre a azucrinação da imprensa depois do parto. Ela ri com os dentes encavalados, desconversa, ri novamente, sei lá, desconversa com os ombros, embala o bebê, não sei, ensaia amamentá-lo, ri, talvez não queira gongar a repórter paulista a mais de 900 km longe de casa, ri mais uma vez e por fim responde: "Não sei. É estranho...". Veterinária virou uma segunda opção de carreira.

Prestes a completar 18 anos, no dia 20, Pamela mantém um ar de menina do Cerrado, mas com detalhes urbanos: tatuou uma flor e uma borboleta na coxa esquerda, uma borboleta e três estrelas na direita, fez sozinha um piercing no nariz e outro no umbigo, além de furos na orelha - três no lado direito, três no esquerdo - e tingiu de preto os cachos claros. Nascida em Fátima do Sul, perto de Dourados (MS), ela recebeu um telefonema do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, ainda no domingo. A mãe, Leide Oliveira Lima, atendeu. E narra o diálogo quase ipsis litteris:

- Oi! É a mãe da Pamela? O ministro quer conversar com a senhora. A senhora pode?

- É. Tá. Posso, sim.

- Alô, dona Leide? Tudo bem? E a Pamela, como é que ela tá?

- Tá bem, graças a Deus.

- E o neném?

- Tá bem, também. Os dois estão ótimos.

- E o nome da criança? Aliás, que-que-é?

- É menino. É Everton.

- ... Muito bonito esse nome... Parabéns!

Depois Leide passou o telefone para a filha. Do outro lado da linha, o ministro disse que um dia gostaria de conhecê-la pessoalmente, talvez numa viagem ministerial. Também disse a Pamela que ela poderia refazer as provas nos dias 4 e 5 de dezembro, conforme prevê o edital. E declarou aos jornalistas: "Pamela é o símbolo desse Enem." "Fazer o Enem de novo, sim. O neném, não, né, filha...", interrompe Leide, para não perder o timing da brincadeira manjada.

O menino será registrado como Everton Oliveira Muniz. E cada pedaço desse nome é uma história. Primeiro, como homenagem ao falecido irmão de Pamela. Diz que em janeiro de 2011, época em que Pamela morava com o pai na cidadezinha de Cassilândia, a mãe foi visitar os dois filhos mais velhos - Patrícia e Everton - na vizinha Chapadão do Sul. Pamela quis encontrá-los também. Família reunida, cerveja, churrasco e agregados como primos e tios do lado dos Oliveiras, sábado de farra e domingo de ressaca. "Aí no fim da tarde decidimos comprar uns litrões de cerveja. E fomos para o Rio Aporé, na fronteira entre Chapadão do Sul (MS) e Chapadão do Céu (GO). O rio parecia tranquilo", lembra. Parecia, mas não era. Um descuido e um dos cunhados estava quase se afogando. Everton, de 23 anos, pulou para tentar resgatar o dito cujo, que caldos depois se salvou. Mas Everton não voltou. "Depois o corpo dele veio boiando devagarzinho, bem na direção do colo da minha mãe", lembra a menina.

Oliveira é outro nome forte. É da família de Odete, mãe de Leide, avó de Pamela, bisavó do novo Everton. Esses Oliveiras foram fincar raízes nos arredores de Sidrolândia, cidade de 42 mil habitantes e uma das campeãs em assentamentos rurais no País. Antes de se aninhar ali, Leide conheceu uma tal Luzia Paraguaia em Nova Alvorada do Sul, por volta de 2005, que a convidou para entrar nos sem-terra. "Deus me livre! Quero MST, não", respondera de supetão. Aí a companheira sentou no trailer, conversou e a convenceu sobre as diferenças entre o MST e a Federação da Agricultura Familiar, a FAF. Aderiram ao movimento, levantaram acampamento em Nova Alvorada, pediram vez no assentamento na antiga Fazenda Eldorado, a uns 30 km de terra vermelha, pedregulho e céu azul de Sidrolândia. No fim de 2006, o Incra - o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - arrematou a fazenda de quase 30 mil hectares por mais de R$ 140 milhões e a fatiou entre um punhado de famílias. Os Oliveiras ficaram com o lote 52 do Alambari FAF, que abriga mais de 200 famílias. "Pra quem nunca teve nada, hoje eu estou rica. Tenho meu cantinho, minha casa e minhas galinhas", conta Leide. "Fia, eu disse 44 pros outros repórteres, mas eu estava variadona com os últimos acontecimentos. Eu tenho 45 anos, emenda aí."

Dos 14 aos 17, Pamela morou com o pai em Fátima do Sul, mas quis voltar para os braços da mãe: "Dois bicudos não se bicam. Só digo isso", abrevia. Agora ela vive com a irmã caçula, a mãe e a avó em uma casa simples de tijolo bruto à vista, com pintinhos amarelos no quintal, sofás laranja na sala e lençóis rosa vibrantes no quarto. "Para dizer a verdade, eu preferia a cidade, porque não gostava muito da terra. Mas fui me acostumando aos poucos, e não pretendo sair do assentamento agora", pondera a estudante, que tomou gosto por biologia, bicho de pasto, coisa da terra, e por isso a história de um bacharelado em medicina veterinária. No quintalzão sem porteira do lote 52, a família cultivou arroz, feijão e melancia, mas as galinhas endiabradas passaram a bicar as plantações, tanto que restou uma hortinha simples, apenas para subsistência mesmo. "Quando apura aqui, procuro ajuda. Tenho duas irmãs e três irmãos nas cidades. Nós somos as únicas assentadas da família", diz Leide.

De Alambari vem o terceiro pedaço da história de Everton: os Muniz. Primeiro, o Osear de Paula Muniz, padrasto de Pamela assentado noutro lote. Segundo, o Osear de Paula Muniz Filho, de 22 anos, ex-namorado, pai de Everton e agora pedreiro em Campo Grande. Sobre o rompimento com Osear, Pamela também é breve: "Não sou de receber ordem de homem". Há dois meses ela está enroscada com namorado novo, Leandro - "que conheço quase a vida inteira, mas desculpa, não lembro o sobrenome".

As lembranças de Pamela se embaralham entre memórias muito detalhadas, lapsos singulares e essas abreviações que vocês já viram. Ela estava em Sidrolândia desde quinta, na casa de apoio da FAF, onde os assentados costumam dormir quando perdem o último ônibus circular de volta a Alambari (na sexta de Finados, não teria ônibus, então ela quis ficar de quinta a domingo na cidade para prestar o Enem). De todas as questões da prova, lembra especialmente da número 45 do caderno amarelo, com um trecho de O Príncipe, de Maquiavel, questionando o pensamento político e o humanismo renascentista do autor. "Ainda bem que li esse livro", diz, risonha, com o Motorola colorido e o bebê a tiracolo. No sábado à noite, foi comprar pinga e limão para fazer caipirinha com os amigos albergados na FAF e depois saiu para caminhar, zanzando, "não lembro por quanto tempo". Do domingo, recorda quase tudo: acordou às 7h, só saiu da cama às 9h, "por preguiça, ué". Não quis comer e ficou só no tereré, pegou duas canetas, a identidade e a ficha de inscrição, cruzou a antiga linha do trem até a Escola Estadual Catarina de Abreu. Eram 11h10, 11h15, os portões fechavam só às 12h. "Moça, posso ir ao banheiro?" Entrou, sentou e a dor de barriga esquisita ardeu. Everton coroou. Pamela fez força, pariu sentada mesmo e sangrou. "Não sou de gritar. E depois não sentia mais dor. Só a perna ficou bamba." Só quando uma menina por acaso entrou no banheiro ela pediu ajuda. Vieram ambulância, enfermeira e um deus-nos-acuda no banheiro feminino de portas azuis e azulejos brancos. Foi um corta-não-corta o cordão umbilical segundo as diferentes ordens médicas, até que decidiram levá-la para o Hospital Beneficente Elmíria Silvério Barbosa. "Não sabia o que estava acontecendo. Passei a mão e senti o bebê saindo. Nunca vou esquecer esse momento."

A enfermeira ligou para a mãe de Pamela. Susto um: "O quê? Minha filha teve um 'infarto'?! Desesperei." Susto dois: "Hum, teve um 'parto'! Mas desde quando ela tá grávida?!" Susto três: "É um menino! Ai, que lindo. Derreti..." Depois dos sobressaltos, Leide se aquietou. Jura que não ficou brava com a filha, que jura que não sabia da gravidez.

- Filha, você tá bem? Estou muito feliz! Mas oh: por essa eu não esperava!

- Nem eu, mãe...

A memória de Pamela "falha" em pontos certeiros. Dias antes, na quinta, ela teve cólicas e visitou o médico no postinho de saúde, que lhe pediu amostras de sangue e de urina. "Menina, você está grávida", dissera o doutor José Valério Stefanelo. "Não lembro disso, não", resmunga. "Menina, você devia ir ao médico, para fazer um pré-natal", alertara a enfermeira Núbia Benevides numa tarde de agosto. "Não lembro. Desde os 13, sempre tive a menstruação desregulada. E tomava injeções de anticoncepcionais a cada 3 meses", revida. "Menina, ó que esse neném vem nesse fim de semana, hein", provocara o diretor Renato Dutra, minutos antes de lhe entregar a chave da FAF. "Não lembro disso."

Também na Escola Estadual Paulo Eduardo, onde cursa o 3° colegial à noite, a garota foi questionada pelos professores há muito tempo, mas negou a gravidez. Sem enjoos e com menstruações irregulares, notou só o barrigão - "mas pensei que estava só ficando gorda, ué". "Pamela é a aluna mais inteligente da turma. Por isso fiquei tão admirada com essa história. Não entendi as negações dela", disse a diretora Viviane Franco Domingues.

Não é a primeira barrigada da família. Em 2006, ainda acampada em Nova Alvorada, Leide sentiu a barriga crescer. Foi ao médico, que a apalpou e lhe disse que era uma simples prisão de ventre, verme quiçá, isso passa. Meses depois, ainda encucada e pançudinha, visitou outro médico. "É um verme sim, mas de duas pernas, daqueles que vai te dar trabalho pra vida inteira", disse o doutor. E assim nasceu a bela Poliana, a irmã caçula de Pamela, hoje com 6 anos.

Mas o sabia-não-sabia a atiçar rumores na cidade não parece importar muito na casa dos Oliveiras. Nos confins de MS, a chuva da noite de terça-feira transformou a estrada de terra vermelha num lamaçal, manchando o Palio branco pilotado por Altamiro Ferreira Junior e João Naves de Oliveira, do Incra, na manhã de quarta. Entrei na casa com o All Star, também branco, sujo de barro incrustado pelo caminho. Pamela ia levar o bebê ao posto de saúde para fazer o teste do pezinho. Não deu para sair de casa por causa da lama, então a enfermeira foi até o assentamento, deu a fisgada no pé do menino e tirou fotos para postar na imprensa sidrolandense. Antes de me despedir, pedi uma vassoura para limpar minhas pegadas de terra deixadas na sala. "Que limpar o quê. Terra é terra", respondeu Leide, descalça, enquanto cozinhava feijão fresco para o almoço. Pamela, neném nos braços, tampouco parecia se importar. Embalava o pequeno Everton numa manta branca, ainda risonha, e deixava o dia passar. "Agora não quero mais voltar pra cidade. Aqui tá bom."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.