Yasuyoshi Chiba/AFP
Yasuyoshi Chiba/AFP

E os 11 milhões?

É generoso defender os desvalidos da cracolândia, mas o verdadeiro compromisso social é com os interesses da maioria da população

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h08

O pouco que se viu, nestes dias, do confronto de opiniões sobre a cracolândia, entre o PSDB e o PT, já é suficiente para indicar uma tendência. De um lado, a cidade vista, pelo primeiro, como vítima do uso impróprio de suas ruas pelos viciados. De outro, a população de rua apresentada, pelo segundo, como vítima da administração atual.

Em matéria para a TV Estadão, Bruno Paes Manso chama a atenção para as origens históricas da cracolândia. Nos anos 90, os noias eram ameaçados e mortos nos bairros por grupos de extermínio, fosse de traficantes, fosse de moradores irritados com assaltos e roubos para o dinheiro da droga. Encontraram abrigo na antiga zona do meretrício, nas proximidades da Estação Júlio Prestes. Território do ilícito, porque supostamente protegido por policiais corruptos, abrigou, também, o tráfico livre e deu aos viciados a segurança de que careciam.

Ao perderem de vista a história dos territórios deteriorados dessas repúblicas populares dos socialmente marginalizados, os partidos políticos mostram que estão desprovidos de informações decisivas para solução desse problema, quando no acaso do poder. A recíproca acusação de responsabilidade pelo grave problema social, dos partidos políticos em confronto, acoberta a respectiva omissão e não raro os equívocos que cercam o entendimento de questões como essa. Não só equívocos seus, mas também dos grupos não partidários, com distintas e até opostas motivações, que investem na questão em busca de dividendos morais próprios.

Recuar ao ontem para compreender esse tema problemático pode ser decisivo. Situar o debate partidário fora do cenário de paixões que o cercam é fundamental para o eleitor, que será, no fim das contas, o juiz das providências de governo e dos programas de partidos para solucionar a questão. A cracolândia é constituída por uma população permanente de 400 pessoas e uma população flutuante de 2 mil. Essa é a conta de resto do censo dos cidadãos de meia cidadania que a ocupam e a usam. O censo de 2010 registrou que a população da capital é de mais de 11 milhões de pessoas. Uma proporção alta dessa população ladeia ou atravessa diariamente a cracolândia, enclave num dos mais importantes cenários de equipamentos culturais da cidade, como museus históricos e de arte e sua mais importante sala de concertos, além de ser um dos mais movimentados pontos de junção de linhas de trem e de metrô. A fraqueza política do debate esboçado está na omissão desse confronto decisivo para o eleitor. Com Henri Lefebvre, um dos maiores especialistas em cidades e sociedades urbanas, pode-se defini-lo como confronto entre quem usa a cidade, o cidadão, e quem a consome e preda, o viciado.

É generoso e significativo para a democracia brasileira que exista uma vigorosa opinião pública em defesa dos desvalidos da cracolândia. Ao se tornar um problema social, ela se torna problema de todos. É em nome de todos que são traçadas as políticas públicas, também as dirigidas a essa população. Mas políticas públicas que não levam em conta as carências das maiorias correm o risco de não levarem a lugar nenhum, nem mesmo às urnas. Penso que é desse tipo a decisão do ministro da Saúde, nestes dias em que a cracolândia inscreve-se no debate eleitoral, de criar um programa para a questão das drogas sobretudo um programa para a candidatura federal. Expõe-se o PT à crítica fácil de suas responsabilidades na questão da cracolândia. Não só por improvisos como esse, mas também porque foi em duas administrações petistas, inspiradas pela ideologia da periferização do centro da cidade, que a territorialização dos viciados e da droga se confirmou.

Por seu lado, a fragilidade do PSDB está em não ter construído um vocabulário, como fez o PT, de conversação tanto com a numerosa população da periferia quanto com os setores mais sensíveis ao apelo humanitário na classe média e na elite. O PSDB está em desvantagem com esses grupos dotados de enorme capacidade de multiplicação da opinião partidária. O apenas esboçado debate partidário sobre a cracolândia, embora de conteúdo mais consistente no discurso dos pré-candidatos do PSDB e muito menos consistente na improvisada reação do PT, teve na internet um efeito multiplicador muito maior em favor do PT do que do PSDB. Num momento em que as redes sociais derrubam governos em vários países, esse cenário deveria deixar os tucanos muito preocupados. Não basta falar em nome dos 11 milhões cujos interesses se contrapõem aos interesses dos 2 mil da cracolândia. É preciso mostrar que o verdadeiro compromisso social está também e sobretudo em que os interesses dos 11 milhões estão por trás da política muito positiva de recuperação urgente de um território a que a cidade tem direito. Nessa opção, a civilidade precede o vício. Não basta optar pela cidade e pela maioria. É preciso saber dizê-lo. 

JOSÉ DE SOUZA MARTINS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE A POLÍTICA DO BRASIL LÚMPEN, E MÍSTICO (CONTEXTO, 2011)

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