Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

É preciso ser feliz sozinho

O amor romântico dará lugar ao de indivíduos que se somam, diz o mais pop dos terapeutas brasileiros

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2009 | 00h12

São 18h45 de uma terça-feira chuvosa e o trânsito é de enlouquecer nos arredores da Avenida Paulista. Ainda assim, quase todas as 166 cadeiras do Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, em São Paulo, estão ocupadas para o próximo espetáculo. O que vai se encenar ali não é a peça O Homem da Tarja Preta, do psicodramaturgo Contardo Calligaris, nem A Alma Imoral, do rabino filósofo Nilton Bonder - ambas em cartaz na casa. Serão dramas e tragédias da vida real de brasileiros, ansiosos pelas palavras do protagonista que acaba de subir ao palco.

A cabeleira branca do psiquiatra Flávio Gikovate, 66 anos, reluz sob os holofotes. Vestindo um figurino composto de blazer, camisa social sem gravata, jeans e sapatos que lhe confere um ar sóbrio e informal, é ele o diretor de cena a conduzir as atenções do público - em sua maioria de classe média, bom nível de escolaridade e repartido igualmente entre mulheres e homens, jovens, maduros, idosos. Vai começar o programa No Divã do Gikovate.

Transmitido pela rádio CBN aos domingos das 21h às 22h - "na hora da fossa, do bolo no estômago", como ele costuma dizer -, o consultório sentimental do doutor Flávio é acompanhado por uma média de 30 mil ouvintes só na capital paulista, segundo a emissora. Em geral, entra ao vivo e o público participa pelo telefone. Ocasionalmente, como hoje, é pré-gravado, pois o psiquiatra reservou o final de semana do dia dos namorados para ir a Nova York com a editora Cecília Pintchovsky Gikovate, sua segunda mulher. E a plateia pode expor suas angústias cara a cara com o psiquiatra.

Não são poucas. Do senhor que se ressente do desinteresse erótico de sua esposa à mulher que sente culpa cada vez que dá uma gargalhada. Da moça que passou a ter medo da morte, depois que o namorado se foi, ao adolescente raquítico com vergonha de tirar a camisa. A senhora desconfiada das carícias estranhas que o marido lhe pede e a comissária de bordo que, com o emprego, perdeu os amigos e ganhou 30 quilos.

Gikovate responde tudo com simplicidade e calma, sem perder o timing radiofônico. Seu tom é acolhedor, mas não complacente, e temperado às vezes por uma ironia sutil. "É curioso como as mulheres casadas com cafajestes jamais se recusam sexualmente a eles", diz, em determinado momento. "A homossexualidade não está relacionada ao que se faz na cama, mas com quem", afirma em outro. Mais adiante: "Sócrates bebeu cicuta sem medo, pois para ele a morte seria um sono sem pesadelos ou um reencontro com grandes filósofos que se foram. E dizia: ?Em ambos os casos está bom para mim?."

Se o midiático terapeuta é um sucesso de público, nem sempre é de crítica. Embora a solidez de sua formação intelectual seja inegável, há quem torça o nariz para a ligeireza com que trata de temas profundos da psique humana no rádio, na internet, em revistas e jornais.

Filho de um imigrante judeu filiado ao Partido Comunista Brasileiro, ele cursou medicina na USP e formou-se psiquiatra em 1966. Nos anos 70, em plena euforia da liberação sexual, o jovem Flávio mudou-se para a Inglaterra para trabalhar como assistente clínico no Instituto de Psiquiatria da London University. Lá, deu-se conta de que, ao contrário do pai, não tinha gosto por instituições, acadêmicas ou partidárias. "Nunca aderi a nenhuma doutrina", conta. "Para mim, se macumba ajudar o paciente, vale."

De volta ao Brasil, já tinha uma agenda abarrotada de clientes, faz questão de frisar, quando o jornalista Samuel Wainer convidou-o para escrever sobre comportamento no Aqui, São Paulo, semanário que fundara em 1975. Dois anos depois, a coluna migrou para a revista Capricho, pioneira na orientação sexual a adolescentes no Brasil - e seu primeiro artigo causou polêmica ao ensinar às mocinhas que existia sexo sem amor. Também foi colunista da Folha de S.Paulo na década de 80 e assinou uma página na revista Cláudia até 1999.

Publicou mais de 20 livros que venderam ao todo 500 mil exemplares. Em um deles, Namoro - Relação de Amor e Sexo (Editora Moderna, 1993), lançou no País o termo "ficar", que ouviu de um jovem paciente no consultório. E definiu a prática como "troca de intimidades físicas da cintura para cima, sem nenhum tipo de compromisso".

O "ficar" não foi caso fortuito em sua obra. "Meus livros vêm só da clínica, não sou o fruto da minha bagagem teórica." Quando fala de terapeutas e pensadores que o influenciaram, como Erich Fromm, Carl Rogers e Jose Ortega y Gasset, Gikovate ressalta neles a simplicidade da escrita e a opção pelo público leigo. E considera que um dos períodos mais ricos da produção intelectual em sua área se deu durante a 2ª Guerra Mundial, "quando toda uma geração de acadêmicos, na maior parte, judeus, migrou para os EUA e houve um choque criativo entre a cultura aristocrática europeia e o pragmatismo utilitarista norte-americano".

Esse desdém pela academia não impediu que alguns de seus trabalhos fossem lá reconhecidos. Aquele que talvez seja seu melhor livro, O Mal, o Bem e Mais Além - Egoístas, Generosos e Justos (MG Editores, 2005), foi definido pela filósofa uspiana Olgária Matos como "inovador e de leitura urgente". Em linguagem clara , Gikovate compara as impressões que colheu dos cerca de 8 mil pacientes atendidos por ele em 41 anos de clínica com a crítica à moralidade cristã formulada pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche nas obras Genealogia da Moral e Além do Bem e do Mal.

O psiquiatra percebeu que a maior parte dos casais é formada por um generoso e um egoísta, numa confirmação do ditado que diz que opostos se atraem. Em seguida, embaralhou, a exemplo de Nietzsche, os juízos de valor contidos nessas duas categorias: "O egoísta não tolera frustrações, é mais estourado e procura sempre arrumar um jeito de levar vantagem, porque a vida dura não é parte de seu psiquismo. O generoso, por sua vez, não consegue dizer ?não? quando solicitado porque não sabe lidar com a culpa, sentindo-se envaidecido e superior por conseguir dar mais do que recebe".

Para superar essa armadilha em que "um reforça a pior parte da alma do outro", diz Gikovate, é preciso ir além da generosidade. É a atitude do "justo", cuja característica é dar e receber de maneira equilibrada. Ocupar-se de seus interesses sem se descuidar do outro. Ser compreensivo, sem passar a mão na cabeça de quem erra. Uma sutileza descrita na máxima de Nelson Rodrigues: "Não se apresse em perdoar. A misericórdia também corrompe".

Diante dos dilemas do amor moderno, em vez da ideia ultrapassada das "caras-metades", Gikovate prefere a de "almas gêmeas". Gêmeas bivitelinas, bem entendido. "Se tiver que optar entre o amor e a individualidade, fico com a individualidade." Para esse entusiasmado defensor da independência entre os casais, no século 21, estar inteiro e feliz é uma condição anterior ao encontro amoroso. E uma onda passou sobre o verso da canção Wave, de Tom Jobim, que dizia "é impossível ser feliz sozinho".

Gikovate também discorda do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor de Amor Líquido (Jorge Zahar, 2004), um pessimista para quem os relacionamentos atuais são marcados pelo consumismo e os casais estabelecem laços frouxos para que possam ser desatados a qualquer momento. "Os laços têm se dissolvido porque sempre foram de qualidade duvidosa", rebate o brasileiro.

"Vivemos uma crise de transição do amor romântico do século 19 para o de individualidades que se completam." Percurso que, conta Gikovate, ele próprio fez em sua vida pessoal. "Quando me casei pela primeira vez, aos 21, estava no quarto ano da faculdade e não tinha o menor conhecimento sobre os problemas de casais com temperamento e caráter diferentes." Com Ceci, sua atual mulher, compartilha afinidades há exatos 33 anos. "Somos extremamente íntimos e, ao mesmo tempo, respeitosos. Tentamos ser justos, o que não é nada fácil", admite o mais pop dos psi brasileiros. "Ela é minha terapeuta particular."

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